Casas Bahia (BHIA3) e Marabraz: Vivemos uma epidemia de recuperações judiciais e isso é só o começo, diz CEO da A&S Partners

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A onda de pedidos de recuperação judicial (RJ) no varejo brasileiro pode estar longe de terminar. Na avaliação do CEO da A&S Partners e especialistas em RJs, Wagner de Moraes, o cenário econômico deve continuar pressionando empresas endividadas e pode levar outras grandes companhias a enfrentar dificuldades financeiras nos próximos anos.Na madrugada de segunda, a Casas Bahia (BHIA3) entrou com pedido de recuperação judicial, após registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e declarar dívida de R$ 17,3 bilhões. A Marabraz, por sua vez, também protocolou pedido de RJ neste fim de semana, com dívidas de aproximadamente R$ 140 milhões.‘Eu arrisco a dizer que esse ano de 2026, principalmente o ano de 2027, vai alavancar muito o volume de RJs de diversas áreas ou diversas organizações’, afirmou o executivo.Segundo ele, há risco de o Brasil registrar níveis historicamente elevados de recuperações judiciais, diante da combinação de juros altos, baixo crescimento, endividamento e dificuldade de acesso ao crédito.Até junho, 33 empresas seguiram o mesmo caminho.Casas Bahia e o risco de rupturaPara o CEO, a recuperação judicial não deve ser encarada como uma solução simples para a crise financeira de uma companhia. Embora permita renegociar dívidas e compromissos com credores, o processo pode provocar uma deterioração da relação com fornecedores e dificultar o abastecimento das lojas.‘RJ é um processo extremamente complicado. Isso custa muito, muito, muito para a empresa, porque traz uma necessidade de liquidez muito forte’, afirmou.No caso da Casas Bahia, ele vê um risco especialmente elevado por causa da dependência da companhia em relação ao crédito e à cadeia de fornecedores. A varejista afirmou em seu pedido de recuperação judicial ter R$ 16,4 bilhões em dívidas com credores sem garantia.Na avaliação do executivo, fornecedores que antes concediam prazo para pagamento podem passar a exigir condições mais rígidas depois que uma empresa entra em RJ.‘Fornecedores que antes vendiam para você, ou seja, mais a prazo, quando você entra num processo de RJ, isso não acontece mais’, disse.Esse movimento pode criar um efeito cascata: menor acesso a fornecedores, dificuldade para recompor estoques, piora do mix de produtos e, consequentemente, queda nas vendas.A própria Casas Bahia já enfrenta dificuldades de reposição. A companhia busca um financiamento de R$ 1 bilhão na modalidade DIP para reforçar o caixa e recompor estoques. O valor dos estoques caiu mais de 20% no segundo trimestre, segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (17).‘Existe um risco muito grande de ruptura e de ela não conseguir fazer a lição de casa do jeito que se deve, dentro dessa velocidade que se deve’, afirmou.‘O maior nível histórico de RJs’O executivo também vê um ambiente macroeconômico pouco favorável para empresas altamente alavancadas.Na sua avaliação, o elevado nível de endividamento público reduz o espaço para uma queda mais consistente dos juros e mantém elevado o custo de capital das empresas.‘Hoje o nosso governo é quem faz o maior volume de captações de dinheiro no mercado, o que fecha um pouco de espaço para uma redução mais consistente de juros. Isso eleva demais o custo de capital’, afirmou.O resultado, segundo ele, é uma combinação particularmente difícil para o varejo: crescimento econômico baixo, inflação elevada, carga tributária alta e consumidores endividados.‘Isso traz a nossa expectativa de crescimento lá para baixo’, disse.O executivo citou ainda uma estimativa de que 82% das famílias brasileiras estejam endividadas, cenário que, em sua avaliação, reduz o poder de compra e aumenta a pressão sobre empresas que dependem de crédito para movimentar as vendas.Varejo mudou e ficou mais dependente de créditoPara o CEO da A&S Partners, a transformação do modelo de negócios do varejo também ajuda a explicar a vulnerabilidade atual do setor.‘Antes, se ganhava dinheiro no varejo, basicamente, na compra e venda de mercadorias. Hoje, se ganha dinheiro com juros, ou seja, é crédito mesmo, direto’, afirmou.Nesse contexto, a alta da inadimplência se torna especialmente problemática. Com consumidores mais endividados e crédito mais caro, as companhias precisam lidar simultaneamente com menor demanda e maior custo financeiro.‘Mas a inadimplência está muito, muito elevada e não vejo muita chance de reversão no curto prazo’, disse.A avaliação é especialmente relevante para a Casas Bahia, cuja operação historicamente tem forte relação com o crediário. A companhia mantém um modelo próprio de crédito ao consumidor, além das operações tradicionais de varejo.Eleições não são o principal riscoApesar da proximidade das eleições, o executivo não considera o pleito de 2026 o principal fator de risco para a deterioração econômica.Na avaliação dele, independentemente de quem vencer a eleição, a economia brasileira não conseguiria mudar de trajetória de forma rápida.‘Independente de quem ganha, este risco econômico, esse risco dessa estagnação econômica é muito mais forte a partir de 2027. Ele é muito, muito, muito forte’, afirmou.Assim, o principal alerta está no período posterior às eleições. Para o executivo, 2027 pode marcar uma piora ainda maior do ambiente para empresas endividadas, especialmente aquelas dependentes de crédito e com pouca capacidade de geração de caixa.‘Ganha esquerda, ganha direita, ganha quem ganhar, vai ter um ano ruim aí’, resumiu.