Apenas alguns petroleiros se arriscaram a enfrentar os ataques do Irã para atravessar o Estreito de Ormuz durante boa parte da guerra, provocando uma drástica redução na quantidade de petróleo bruto que chegava aos mercados mundiais.Mas, desde maio, as Forças Armadas dos Estados Unidos têm desempenhado um papel crucial na retirada de milhões de barris de petróleo pelo estreito, ajudando a evitar uma alta ainda maior dos preços da commodity.A operação escolta discretamente os petroleiros pela parte sul do estreito, em rotas próximas a Omã. O Irã controla, na prática, quais navios atravessam o lado do estreito sob sua influência, oposto ao território de Omã.Antes da guerra, cerca de 15 milhões de barris de petróleo bruto por dia passavam pelo Estreito de Ormuz. Em julho, petroleiros que utilizaram rotas protegidas pelos Estados Unidos transportaram cerca de 5 milhões de barris por dia para fora do Golfo Pérsico, segundo analistas.“É um dos sucessos surpreendentes”, disse Michelle Wiese Bockmann, analista de transporte marítimo da Windward, empresa de análise marítima. “Eles foram extraordinariamente eficazes em manter esse corredor sul em funcionamento, apesar dos ataques.”Mas o esforço americano, ao qual o Irã se opõe, tem um custo.As Forças Armadas dos EUA estão empregando recursos significativos para permitir a passagem de uma quantidade limitada de petróleo pelo estreito — algo que não era necessário antes da guerra, quando os petroleiros navegavam livremente pela hidrovia.“É extremamente trabalhoso manter esse tipo de defesa permanente”, disse Joshua Tallis, analista do Center for Naval Analyses.Para tentar proteger as embarcações no corredor sul, o Comando Central dos EUA utiliza uma variedade de armas capazes de interceptar drones e mísseis iranianos. Operadores de navios dizem que registram junto às Forças Armadas americanas as viagens planejadas pelo estreito e, depois, comunicam possíveis ameaças ou ataques à medida que ocorrem. Os Estados Unidos utilizam navios, helicópteros e aviões para lançar armas destinadas a interceptar os ataques. Segundo o Comando Central, a operação já ajudou mais de 1.000 navios a atravessar o estreito.A operação americana de proteção aos petroleiros tem sido alvo de ataques do Irã. Pelo menos 15 navios que utilizaram as rotas ao sul foram atingidos desde o início de junho, deixando 16 marinheiros feridos e dois mortos, segundo uma análise do New York Times baseada em dados coletados pela Organização Marítima Internacional, órgão ligado às Nações Unidas. Outro navio foi atingido nesta semana enquanto navegava próximo a Omã, matando um tripulante, informou na terça-feira a United Kingdom Maritime Trade Operations, entidade administrada pela Marinha Real britânica.As Forças Armadas iranianas ainda têm capacidade para intensificar os ataques a toda a navegação na região, assim como às instalações de petróleo e gás dos países do Golfo Pérsico. O Irã também exige controle permanente sobre o tráfego de navios no estreito, algo que não possuía antes da guerra.“A ameaça do Irã ao estreito continuará sendo significativa no futuro previsível”, disse Mona Yacoubian, diretora do Programa para o Oriente Médio do Center for Strategic and International Studies, organização de pesquisa.Muitas grandes empresas de transporte marítimo optaram por evitar o estreito até que haja um cessar-fogo duradouro, e o tráfego pela passagem continua muito abaixo dos níveis anteriores à guerra.A operação de proteção aos petroleiros no corredor sul é uma das duas principais iniciativas americanas destinadas a reduzir o controle do Irã sobre o estreito. A outra é um bloqueio da Marinha dos EUA a navios que visitam portos iranianos, o que restringiu fortemente a saída de petróleo iraniano do Golfo e privou Teerã de receitas essenciais provenientes da commodity.Ajudar os petroleiros a sair pelo corredor sul aumenta a oferta de petróleo bruto nos mercados mundiais e reduz a probabilidade de os preços dispararem para os níveis alcançados no início da guerra. O petróleo do Golfo também está contornando o estreito por meio de volumes maiores transportados por oleodutos no Oriente Médio.Wiese Bockmann, analista de transporte marítimo, disse que o volume de petróleo que atravessa o estreito vem aumentando desde maio, quando teve início a iniciativa de proteção aos petroleiros. Cerca de 4 milhões de barris por dia saíram da região em junho, volume que subiu para aproximadamente 5 milhões de barris por dia em julho, segundo ela.Os navios que atravessam o estreito com a assistência do Comando Central, unidade das Forças Armadas americanas responsável pela operação, normalmente desligam seus transponders para evitar serem detectados pelo Irã. Isso dificulta o trabalho das empresas que monitoram embarcações e impede que elas tenham uma visão completa do tráfego no estreito.Um pequeno número de operadores de transporte marítimo se dispôs a utilizar a rota de Omã. Um deles é a Dynacom, empresa grega. Dois de seus petroleiros foram atingidos em 19 de julho, e um deles teve de ser abandonado, segundo a Organização Marítima Internacional. A Dynacom não respondeu aos pedidos de comentário.A gigante petrolífera estatal dos Emirados Árabes Unidos, Abu Dhabi National Oil Co., ou ADNOC, vem fazendo esforços consideráveis para transportar petróleo pela rota sul.Suas embarcações também têm sido frequentemente atingidas. A ADNOC informou na semana passada que 18 de seus navios foram atacados durante a guerra, resultando em uma morte e 20 feridos entre os tripulantes.“Adotamos medidas abrangentes para proteger nossas pessoas e nossos ativos e adaptamos nossas operações à evolução do ambiente de segurança”, disse um porta-voz da área de logística da ADNOC em comunicado, recusando-se a dizer se os navios da empresa atravessam o estreito sob proteção americana.Reabastecer essas missões tornou-se muito mais difícil desde que a base da Marinha americana em Manama, capital do Bahrein, foi efetivamente destruída pelos ataques iranianos que começaram no primeiro dia da guerra. Com a perda de seu principal centro logístico no Oriente Médio, os navios de abastecimento da Marinha agora precisam viajar até a pequena ilha de Diego Garcia — território britânico localizado cerca de 1.100 milhas (1.770 quilômetros) a sudoeste da extremidade sul da Índia. A viagem leva mais de cinco dias em cada direção.A Marinha informou que possui cerca de 20 navios de guerra no Golfo de Omã, incluindo os porta-aviões Abraham Lincoln e George H.W. Bush, os destróieres que os escoltam e ainda mais destróieres encarregados de fazer cumprir o novo bloqueio aos portos iranianos determinado pelo presidente Donald Trump.Não está claro como a Marinha pretende manter uma força tão grande de navios de guerra no Oriente Médio no futuro, já que todos os portos próximos estão ao alcance dos mísseis iranianos. E, embora a força naval americana tenha mais de 70 destróieres, possui apenas 11 porta-aviões. Nem todos estão disponíveis para atuar na guerra, pois alguns passam por manutenção em estaleiros e um deles está programado para ser desativado no próximo ano.O Lincoln, por exemplo, está no mar desde 21 de novembro sem fazer uma escala em um porto que permita à tripulação descansar e precisará passar por uma manutenção significativa antes de poder ser novamente mobilizado. O porta-aviões George Washington, baseado no Japão, está a caminho para substituir o Lincoln, mas ainda não foi divulgado quem substituirá o Bush, baseado em Norfolk, na Virgínia, que foi mobilizado em 31 de março.Como o Irã tem atacado regularmente navios que utilizam a rota sul, a proteção americana não é infalível. Mas o capitão Tim Hawkins, porta-voz do Comando Central, afirmou: “Isso não significa que a defesa seja ineficaz. Como é possível ver no panorama geral, mais navios estão atravessando do que antes.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Como a Marinha dos EUA está ajudando a transportar petróleo pelo Estreito de Ormuz appeared first on InfoMoney.