Essencial em várias áreas da astrofísica, o coronógrafo é um instrumento óptico usado para bloquear ou reduzir a luz muito intensa de uma estrela. Assim, ele permite observar estruturas e objetos mais fracos que estejam próximos dela e que, de outra forma, ficariam escondidos pelo brilho.Para fazer isso, o instrumento utiliza discos e máscaras que ocultam a luz mais intensa da estrela, criando uma espécie de eclipse artificial. Com o brilho central reduzido, fica mais fácil estudar o que existe ao redor, como a atmosfera externa do Sol, chamada coroa solar, ou até mesmo procurar planetas que orbitam outras estrelas. Nesse sentido, é possível fazer uma comparação interessante: durante um eclipse solar total, a Lua bloqueia o disco brilhante do Sol, o que faz dela um “coronógrafo natural”. Eclipse solar total de 12 de agosto de 2026 transformando o dia em noite em Javalambre, na Espanha. – Crédito: Agência Espacial EuropeiaConheça equipamentos que utilizam coronógrafosEssa tecnologia é utilizada tanto no estudo do Sol quanto na pesquisa de exoplanetas. Um exemplo é o Observatório Solar e Heliosférico (SOHO), missão conjunta da NASA e da Agência Espacial Europeia (ESA), que leva o Coronógrafo de Grande Ângulo e Espectrométrico (LASCO, na sigla em inglês). O instrumento bloqueia a luz direta do disco solar, permitindo observar a coroa e acompanhar fenômenos como as ejeções de massa coronal. Conceito artístico da espaçonave SOHO, parceria entre a NASA e a ESA, que usa um coronógrafo para bloquear a luz do Sol e analisar a coroa – Crédito: NASAJá em termos de astrofísica estelar, o Telescópio Espacial James Webb (JWST), da NASA, utiliza coronógrafos na Câmera de Infravermelho Próximo (NIRCam) e no Instrumento de Infravermelho Médio (MIRI) para capturar imagens diretas de planetas gigantes gasosos e discos de poeira ao redor de outras estrelas.O salto tecnológico mais marcante virá com o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, desenvolvido pela NASA, com lançamento previsto para 30 de agosto. Equipado com o Instrumento Coronográfico (CGI), ele utilizará espelhos deformáveis de alta precisão e algoritmos avançados para cancelar a luz dispersa de forma dinâmica (saiba mais aqui). Isso permitirá alcançar um contraste sem precedentes, suprimindo o brilho estelar na ordem de um para um bilhão.Representação artística do satélite Ocultador eclipsando o Sol para o Coronógrafo da missão Proba-3. – Crédito: ESA-P. CarrilCom essa capacidade, o telescópio Nancy Grace Roman conseguirá fotografar diretamente e analisar a composição atmosférica de exoplanetas do tamanho de Júpiter e Saturno. A missão servirá como um demonstrador crítico para futuras buscas de mundos rochosos e potencialmente habitáveis.Em participação no programa Olhar Espacial, apresentado pelo astrônomo Marcelo Zurita, a astrobióloga Raíssa Estrela, pesquisadora do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da NASA, detalhou a importância e o funcionamento do CGI. “Essa tecnologia que a gente chama de coronógrafo é basicamente um instrumento que bloqueia a luz da estrela-mãe. E por que a gente quer bloquear essa luz? Porque quando a gente bloqueia a luz da estrela-mãe, a gente consegue ver a luz refletida pelos planetas que estão habitando essa estrela. O brilho da estrela é tão forte que ela ofusca toda a imagem. Então, a gente precisa bloquear para conseguir ver a luz refletida pelos planetas que estão orbitando. Com esse tipo de observatório, a gente vai conseguir fazer o imageamento mesmo do sistema planetário”. Raíssa destacou que esse é o grande diferencial do equipamento. “Vai deixar de ser uma medida indireta, como é o caso que a gente faz hoje com o James Webb, para também ter agora o imageamento mesmo dos planetas”.Representação artística do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da NASA, com lançamento previsto para 30 de agosto – Crédito: NASA/GSFC/SVSLeia mais:Supercâmera de 300 megapixels da NASA vai mapear o Universo como nunca antesO novo “olho” da NASA no espaço está quase pronto para voarSaiba tudo sobre o supertelescópio espacial da NASA que vai investigar o Universo escuroTelescópio Nancy Grace Roman: uma ponte para a Terra 2.0Embora o Roman represente um salto gigante para a astronomia, ele não foi projetado para analisar diretamente a atmosfera de planetas rochosos de tamanho terrestre em busca de sinais biológicos de vida. No entanto, sua missão é o alicerce indispensável sem o qual a descoberta de uma “Terra 2.0” permaneceria inalcançável.O uso operacional do coronógrafo em ambiente espacial e os dados populacionais obtidos pelo Roman servirão como um laboratório de testes para o desenvolvimento das missões astronômicas das próximas décadas. É o caso do futuro Observatório de Mundos Habitáveis, um projeto planejado pela NASA para as décadas de 2030 e 2040 que terá como foco exclusivo a busca por assinaturas químicas de vida em planetas semelhantes ao nosso.Raíssa Estrela é pesquisadora da NASA e concedeu entrevista ao OD. – Crédito: Arquivo Pessoal“A gente não tem a tecnologia para detectar ainda moléculas numa atmosfera como a Terra, uma Terra 2.0. Então a gente tá preparando o cenário para, daqui a alguns anos, a gente ter um telescópio espacial que vai ser capaz de fazer essa ciência”, explica Raíssa. A pesquisadora do JPL reforçou como os estudos com o Roman pavimentarão o caminho para as próximas gerações de astrobiólogos. “O Roman vai estudar outros planetas, mas vai ser mais voltado para os gigantes gasosos. A tecnologia não vai chegar a ponto de caracterizar planetas como o caso da Terra. Mas vai trazer essa tecnologia que a gente precisa entender, que é o imageamento direto dos exoplanetas, que vai ser utilizada pelo Observatório de Mundos Habitáveis, só que para planetas menores. Então, é como se fosse o primeiro passo que a gente está dando dentro dessa jornada de chegar à caracterização de planetas tipo Terra.” O post A Lua é um coronógrafo! Você sabe o que é isso? apareceu primeiro em Olhar Digital.