Na última quarta-feira (12), um eclipse solar total cobriu boa parte da Espanha, sendo o primeiro fenômeno desse tipo na parte continental do país em mais de 120 anos. Um grupo de astrônomos amadores e astrofotógrafos brasileiros viajou milhares de quilômetros até lá para presenciar este que é um dos espetáculos mais fascinantes da natureza.Em participação no programa Olhar Espacial de sexta-feira (14), o experiente “caçador de eclipses” Marcelo Domingues compartilhou os bastidores dessa expedição. Ele destacou os aspectos da logística, os imprevistos operacionais e a emoção de testemunhar o alinhamento entre o Sol, a Lua e a Terra.O programa Olhar Espacial, apresentado por Marcelo Zurita, recebeu o “caçador de eclipses” Marcelo Domingues na última sexta-feira (14) – Créito: Olhar Digital/YouTubeMembro do Clube de Astronomia de Brasília e da Rede Brasileira de Monitoramento de Meteoros (BRAMON), Domingues acumula duas décadas de viagens pelo mundo dedicadas exclusivamente à observação de eclipses solares – e sua trajetória nesse ramo começou em solo nacional. “Em 2006, a gente foi para Natal, no Rio Grande do Norte. Era um grupo de brasileiros formado por muita gente do país inteiro. A gente se encontrou lá, na Barra de Itabatinga, para ver o eclipse ao nascer do Sol. Daquela vez, o Sol nasceu eclipsado, estava a uns cinco a seis graus de altitude quando foi a parte total, e este, 20 anos depois, foi exatamente o contrário, o Sol estava se pondo”. Ao todo, Domingues já assistiu a 10 eclipses solares totais e três anulares (o famoso “Anel de Fogo”). Segundo ele, sua esposa, Isabel, testemunhou sete desses eventos, podendo ser a mulher brasileira que mais viu eclipses do Sol pelo mundo.“Esse eclipse foi muito legal e diferente porque foi muito próximo do horizonte”, revelou o especialista em entrevista ao Olhar Digital posterior ao programa. “Os eclipses, normalmente, você consegue ver um pouco mais alto no céu, mas esse foi bem no pôr do Sol. Foi muito bom para tirar fotos, porque dava para fazer composições com castelos, plantações, igrejas e outras coisas do solo. Então, esse eclipse foi especial por isso”. Após registrar o eclipse de 2023 no Brasil com o surfista Ítalo Ferreira, o fotógrafo Marcelo Maragni viajou à Espanha para seu primeiro eclipse solar total. Lá, ele fotografou o piloto de motocross Edgar Canet realizando manobras em um ângulo impressionante que faz a moto parecer subir no Sol eclipsado. – Crédito: Marcelo Maragani/Reprodução Olhar EspacialPlanejamento de campo e os desafios em CastrojerizA preparação para acompanhar o eclipse em solo espanhol teve início com cerca de um ano de antecedência. O planejamento envolveu mapeamentos virtuais para localizar castelos, mirantes e áreas rurais propícias à composição fotográfica, já que a fase de totalidade ocorreria com o astro-rei muito próximo da linha do horizonte.Domingues contou no programa que, após avaliar pessoalmente as opções na véspera do evento, o grupo selecionou um campo de girassóis situado no município de Castrojeriz, ao lado da histórica igreja de Nossa Senhora del Manzano. No entanto, mesmo com a infraestrutura organizada, imprevistos técnicos e humanos marcaram a sessão de registros.Com a histórica Igreja de Nuestra Señora del Manzano e um campo de girassóis como cenário em Castrojeriz, Espanha, o astrofotógrafo brasileiro Kiko Fairbairn registrou os 1m40s de totalidade do eclipse solar. – Crédito: Kiko Fairbairn/Reprodução Olhar EspacialA intenção de usar automação para poder focar na observação direta acabou esbarrando em falhas de execução. Segundo o astrônomo, as duas câmeras que seriam controladas pelo computador apresentaram problemas. Uma não foi apontada corretamente para o Sol e, na outra, um ajuste inadequado deixou as imagens subexpostas. Para completar, uma pessoa acabou passando na frente da câmera e prejudicou o registro da paisagem de girassóis.“Todo ano tem um problema. Nunca vai dar certo 100%”, afirmou Domingues. Mesmo com os contratempos, ele conseguiu aproveitar um vídeo feito com o SeeStar, telescópio automático levado para a transmissão, que foi publicado no perfil Solar Eclipse Chasers, no Instagram. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Astronomia ao Vivo (@astroaovivo)Para ele, a melhor forma de lidar com os imprevistos é saber quando desistir dos equipamentos e simplesmente observar. “Se você vê que não vai dar certo, você desliga tudo, esquece, para. E vai observar o eclipse. Observe o eclipse que você vai ser muito mais feliz”, recomenda.Leia mais:Fim de uma era? Saiba por que eclipses solares totais não vão mais acontecer no futuroPesquisadores analisam como eclipses solares afetam o comportamento dos animais Como um astrônomo do século 19 previu 13 mil eclipses apenas com papel e lápisAs sensações do eclipse e o susto na madrugadaApesar das falhas técnicas com os equipamentos, o foco da caçada permanece na vivência sensorial. O entrevistado destacou a queda de temperatura e as mudanças nos ventos, definindo o eclipse como “um negócio inacreditável” em que o Sol ganha a forma de uma “bola negra com um halo de luz brilhante”.Ele também destacou as shadow bands (ou bandas de sombra), fenômeno que cria uma ilusão de ótica única antes da totalidade: “Parece que tudo ao seu redor está no fundo de uma piscina, com sombras dançando”, explicou.Além da programação focada no eclipse, a viagem reservou um “susto”. Poucas horas antes de entrar no ar para participar do Olhar Espacial, enquanto estava hospedado na cidade de Granada, Domingues foi acordado por um tremor de terra de magnitude 4,8. “Eu ainda tô aqui na Espanha, são quase duas da madrugada agora, 1h28, e acordei com um despertador especial aqui: foi um terremoto que acabou de acontecer”.De acordo com o Instituto Geográfico Nacional (IGN), o tremor ocorreu à 1h04 de sábado (15) no horário local (20h04 de sexta, no horário de Brasília) e teve epicentro nas proximidades de Alhendín, município da região metropolitana de Granada.📢 #Terremoto Alhendín (#Granada) del 14/08/2026 Publicada la nota informativa👉https://t.co/GgciP3MDjZℹ️Versión actualizada a 15/08/2026 a las 12:00h UTC. Este informe se actualizará según la evolución de la sismicidad y la información disponible.#IGNSpain #CNIG… pic.twitter.com/SKgD1nDDtH— Instituto Geográfico Nacional-O.A.CNIG (@IGNSpain) August 15, 2026 Quando será o próximo eclipse solar totalPara quem deseja presenciar um espetáculo dessa magnitude, o conselho do especialista é iniciar os preparativos imediatamente. O próximo eclipse solar total ocorrerá em 2 de agosto de 2027, cruzando o norte da África e a extremidade sul da Espanha.Com duração de mais de seis minutos no ponto central, no Egito, este promete ser o eclipse total mais longo do século – um evento imperdível para turistas, astrônomos e caçadores de eclipses.O post Brasileiro revela os bastidores e a emoção de ver o eclipse solar total na Espanha apareceu primeiro em Olhar Digital.