O Irã estaria usando os últimos dois meses não para se preparar para a paz, mas para uma guerra maior e mais cara para os Estados Unidos. É o que revela uma reportagem do The Wall Street Journal com base em autoridades iranianas, árabes e informações de inteligência obtidas na região.Serviços de inteligência de países árabes detectaram uma mudança estratégica dentro da ala mais linha-dura do regime iraniano. A conclusão é que Teerã está reorganizando suas forças para ampliar o conflito e aumentar os custos militares e econômicos para Washington.A preparação teria começado depois que Donald Trump e o Irã chegaram, em meados de junho, a um memorando de entendimento que abriu uma janela de 60 dias para negociações. Washington esperava que esse período servisse para avançar em um acordo, reabrir o Estreito de Ormuz e começar a reduzir a guerra. A liderança iraniana teria interpretado o movimento de forma completamente diferente: como uma possível tentativa dos Estados Unidos e de Israel de ganhar tempo antes de uma nova ofensiva.Guarda Revolucionária forteUma das principais mudanças é o fortalecimento da Guarda Revolucionária Islâmica, que passou a exercer maior controle sobre as forças militares regulares. O regime também estaria colocando veteranos considerados mais duros em posições estratégicas, ampliando operações de contrainteligência dentro do país e, principalmente, acelerando a produção de mísseis e drones.E a preparação não estaria limitada ao território iraniano. A Guarda Revolucionária reforçou a coordenação com grupos aliados no Iêmen, Iraque e Líbano, preparando essas forças para uma possível expansão regional do confronto.Esse ponto preocupa especialmente os países árabes. No início deste mês, uma autoridade saudita afirmou à Reuters que Riad trabalhava com informações de inteligência indicando a possibilidade de ataques coordenados de forças apoiadas pelo Irã, incluindo milícias iraquianas ao norte e os houthis no Iêmen ao sul.Ormuz ao centroO Estreito de Ormuz continua sendo uma das armas estratégicas mais importantes de Teerã. A passagem é fundamental para o transporte mundial de petróleo e gás e se transformou em um dos principais pontos de pressão na guerra.Nesta segunda-feira, 17 de agosto, a tensão aumentou ainda mais. Uma autoridade iraniana disse à Reuters que o país poderá adotar medidas militares caso os Estados Unidos não cumpram os compromissos que Teerã atribui ao acordo negociado em junho. A mensagem iraniana é de que o país poderá passar de uma postura predominantemente defensiva para uma estratégia mais ofensiva.E o prazo diplomático de 60 dias chegou ao fim sem um acordo definitivo. Estados Unidos e Irã continuam responsabilizando um ao outro pelo impasse.Guerra de atritoA lógica atribuída à ala dura iraniana não seria necessariamente derrotar militarmente os Estados Unidos em um confronto convencional. O objetivo seria espalhar o conflito, multiplicar os pontos de pressão e aumentar progressivamente o preço da guerra para Washington.Isso pode envolver mísseis e drones iranianos, ataques de grupos aliados, pressão sobre bases americanas e países parceiros dos EUA e, sobretudo, ameaças à navegação e ao fluxo energético pelo Golfo Pérsico e pelo Mar Vermelho.Do outro lado, Washington também mantém uma grande estrutura militar na região. O Pentágono está realizando a rotação de porta-aviões envolvidos na operação contra o Irã, numa demonstração tanto da dimensão da presença americana quanto do desgaste provocado por meses de conflito.O cenário revelado é, portanto, o oposto de uma preparação para a desescalada: enquanto diplomatas discutiam uma saída para a guerra, setores da liderança iraniana estariam usando exatamente esse período para se preparar para a próxima fase dela.E a preocupação dos serviços de inteligência árabes é que essa próxima fase não fique restrita ao confronto entre Teerã e Washington – mas transforme diferentes frentes do Oriente Médio em partes de uma guerra regional muito maior.