O temor de uma desaceleração mais forte em 2027, somado à incerteza fiscal e eleitoral, aos juros elevados e ao cenário externo conturbado, ajuda a explicar a debandada de estrangeiros da Bolsa neste mês. Gestores ouvidos pelo InfoMoney avaliam, porém, que o movimento não reflete a uma aposta em recessão, embora a atenção ao comportamento da economia tenha sido redobrada.O pessimismo com o Brasil aparece na Bolsa com uma saída líquida de estrangeiros no mercado secundário de R$ 20,4 bilhões até o dia 18 de agosto, segundo dados da B3, o que reduziu o saldo no ano para R$ 16 bilhões.A saída se acentuou depois que o JPMorgan rebaixou sua recomendação para o Brasil de overweight (equivalente a compra), que vigorava desde março de 2025, para neutro. O banco citou a proximidade do fim do ciclo de cortes de juros, a desaceleração do crescimento e a deterioração do ciclo de crédito, e reduziu o preço-alvo do Ibovespa para o fim de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos.Existe uma clara redução de exposição ao Brasil e realização de lucros de estrangeiros em Bolsa, mas isso não reflete uma aposta fechada em recessão, afirma Marcelo Boragini, sócio e especialista em renda variável da Davos Investimentos. Ele aponta um conjunto de causas que inclui o cenário externo conturbado pelo conflito entre Estados Unidos e Irã.“É mais uma combinação de fatores que vão do aumento das incertezas fiscais e eleitorais, juros elevados, desaceleração da atividade e cenário externo conturbado pela guerra e pela alta dos juros globais”, diz Boragini, lembrando que, no ano, o saldo dos estrangeiros na bolsa ainda é positivo.Leia tambémEfeito do juro chegou: Mercado teme crise de crédito e não descarta recessão em 2027Onda de recuperações judiciais mostra que efeito do juro alto chegou em uma economia altamente endividada e pode criar problemas se não houver ajuste nas contas do governo, defendem economistas de instituições financeirasO cenário para a economia brasileira em 2027 dependerá também em grande parte do ambiente internacional, diz Alexandre Pletes, sócio e head de renda variável da Faz Capital. Caso o conflito se resolva, o petróleo pode cair e reduzir a inflação e os juros ao redor do mundo, o que beneficiaria também o Brasil.Pletes não vê os estrangeiros deixando a bolsa por medo de recessão, mas pelas oportunidades em tecnologia e energia no mercado americano. Aqui, pesam os juros elevados, a inflação ainda acima da meta e a incerteza eleitoral e, especialmente, a questão fiscal, que ele considera um dos pontos mais sensíveis para o próximo ano.Ainda assim, ele projeta acomodação depois das fortes quedas. “Provavelmente vamos ver uma estabilização da bolsa brasileira daqui para frente, pois os valuations das empresas estão muito atrativos, semelhantes aos de antes da forte entrada de estrangeiros em janeiro”, afirma.É hora de sair da Bolsa?Para o investidor, Boragini diz que o melhor não é fugir da Bolsa, especialmente depois de uma sequência de quedas muito rápida, até porque parte relevante das notícias ruins já estaria refletida nos preços das ações.Existe risco de recessão em 2027, mas esse não é o cenário base, diz Thais Machado, especialista em investimentos e sócia da GT Capital, que também não vê motivo para sair da bolsa agora. “Se a carteira estiver adequada ao perfil e aos objetivos do investidor, uma queda da bolsa, por si só, não significa que seja o momento de sair”, diz. Ela recomenda reavaliar a qualidade dos ativos, a concentração da carteira e o cenário de longo prazo.Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, segue a mesma linha e afirma que a desaceleração não exige reduzir a renda variável. “Existem boas empresas que podem se tornar ativos valiosos em momentos de desaceleração da economia”, diz. Para Pletes, da Faz Capital, o que muda é a seleção. “Só tem de pensar da maneira mais correta, com empresas de maior estabilidade de lucro, de previsibilidade de receitas, payout elevado, para ter retorno através de dividendo e evitar ações de crescimento”, diz.Leia tambémO que alívio nos Treasuries pode representar para tese para mercado de ações?A alta dos rendimentos e das projeções de lucros corporativos ao mesmo tempo não parece coincidência, para a BlackRockNum eventual cenário recessivo sem pressões inflacionárias, Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, acredita que poderiam ocorrer cortes mais pronunciados de juros. Nesse caso, a Bolsa não sofreria de maneira generalizada, apesar da menor lucratividade de várias empresas. “Mas se num outro cenário que combinasse recessão ou estagnação da atividade com pressão inflacionária, dificilmente o Copom teria maior espaço para cortar juros e haveria impacto negativo em Bolsa”, diz.Onde se posicionarO melhor caminho, na avaliação de Boragini, é a boa e velha diversificação, com a renda fixa atrativa ocupando lugar importante na carteira, uma parcela em renda variável e outra em ativos no exterior, para diluir o risco local.Na Bolsa, a recomendação dele seriam empresas de baixo endividamento, geração consistente de caixa, capacidade de pagamento de dividendos e menor dependência do ciclo econômico, como energia elétrica, bancos bem capitalizados e algumas exportadoras, que podem oferecer maior proteção. “Empresas ligadas à atividade doméstica tendem a sofrer mais”, diz.O principal cuidado reside no risco de crédito e na seleção de empresas, alerta Matheus Jaconeli, analista de investimentos e portfólio da ZIIN, plataforma de investimentos da Unicred. O risco central está nas companhias muito alavancadas, e ele sugere olhar a relação entre dívida líquida e Ebitda, medida de geração de caixa operacional, comparando o indicador com a média do setor. Outros sinais de alerta são margens muito baixas e fraca geração de caixa.Leia também: Casas Bahia em crise: quem mais no varejo enfrenta pressão de dívida?Embora ativos de companhias mais fragilizadas possam parecer descontados, eles podem continuar subvalorizados mesmo após o período eleitoral, por causa de problemas estruturais, alerta Jaconeli. Ele lembra ainda que os meses que antecedem a eleição tendem a ser marcados por maior volatilidade na bolsa, embora, historicamente, o período pós-eleitoral costume ser acompanhado de recuperação dos ativos de risco.O timing, lembra Machado, também joga a favor de quem fica. “Além disso, a Bolsa costuma antecipar os movimentos da economia e se o mercado começar a precificar inflação e juros menores para 2027, por exemplo, os ativos podem reagir antes mesmo de os indicadores econômicos mostrarem essa melhora”, completa.The post Debandada de estrangeiros e desaceleração à vista: é hora de sair da Bolsa? appeared first on InfoMoney.