O fogo está a mudar de mapa na Europa e já chega a países que julgavam estar a salvo

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Durante décadas, o incêndio florestal foi tratado, na Europa, como uma espécie de problema meridional. Havia países particularmente vulneráveis – Portugal, Espanha, Itália, Grécia – e havia uma fronteira climática, mais ou menos imaginária, a partir da qual o risco diminuía à medida que se avançava para norte. Essa geografia está a tornar-se cada vez menos fiável.O verão de 2026 está a oferecer uma demonstração particularmente violenta dessa mudança. Os incêndios continuam a atingir várias regiões do continente, depois de semanas de calor excecional e precipitação insuficiente, e chegaram a países onde episódios desta dimensão eram historicamente menos frequentes. Na Bélgica, um incêndio nas High Fens, uma área natural de turfeiras junto à fronteira alemã, queimou cerca de 3.000 hectares e foi descrito como o maior incêndio florestal registado no país. Cerca de 500 bombeiros, militares, agricultores e meios aéreos participaram nas operações de combate.A imagem é importante precisamente porque contraria a ideia de que o fogo é uma inevitabilidade exclusivamente mediterrânica.Na Espanha, mais de 40 mil hectares tinham ardido até o início de agosto, enquanto incêndios na Grécia, Croácia e França obrigaram a evacuações e provocaram vítimas. Em Portugal, os fogos continuam também a marcar o verão. Segundo dados divulgados pelo Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, mais de meio milhão de hectares tinham sido afetados por incêndios na Europa em 2026, numa área equivalente a mais do dobro do território do Luxemburgo. O fogo começa muito antes da chamaUm incêndio florestal pode começar com uma ignição banal, provocada por uma atividade humana, uma falha eléctrica ou uma causa natural, mas a dimensão que adquire depende de uma cadeia de condições que se acumulam no território. Quanto mais quente e seca estiver a vegetação, quanto menor for a humidade dos solos e quanto mais fortes forem os ventos, menor é a quantidade de energia necessária para transformar uma ignição num incêndio de grandes dimensões.O Joint Research Centre da Comissão Europeia alertou, este mês, para o agravamento da seca em grandes áreas do continente, depois de uma primavera e de um verão marcados por temperaturas elevadas e precipitação reduzida. As previsões apontavam ainda para condições mais quentes e secas durante parte de setembro, mantendo elevado o risco de incêndio.A ciência climática não diz que todas as ignições são causadas pelas alterações climáticas, nem que todos os incêndios são consequência directa do aquecimento global. Diz algo mais complexo e, por isso mesmo, mais importante: o aquecimento do planeta está a alterar as condições em que os incêndios acontecem, tornando mais provável que uma ignição encontre um território preparado para arder e que um fogo já iniciado adquira uma dimensão extraordinária.Uma análise do World Weather Attribution concluiu, em julho, que a combinação de meses de seca e episódios de calor extremo tinha aumentado significativamente as condições favoráveis a incêndios severos em França e Espanha. É uma distinção fundamental. O clima não acende necessariamente o fósforo, mas pode preparar o mundo à sua volta para que o fósforo deixe de ser apenas um fósforo.Uma Europa mais quente, seca e inflamávelO Copernicus Climate Change Service descreveu julho de 2026 como um período marcado por condições excepcionalmente quentes e secas na Europa ocidental, que contribuíram para a expansão e intensificação dos incêndios.  A tendência não começou este ano. O relatório europeu sobre incêndios do Copernicus assinala que os verões europeus têm registado, nos últimos anos, um aumento do potencial de incêndio, com uma maior ocorrência de fogos de grandes dimensões e uma temporada de incêndios mais longa. O mesmo relatório, baseado também na literatura científica do IPCC, aponta para um aumento do risco de incêndio em várias regiões europeias e, particularmente, para o aparecimento de novas zonas vulneráveis no oeste, centro e norte da Europa.A mudança neste caso consiste também em haver incêndios onde antes eram menos prováveis e durante períodos do ano em que eram menos esperados. É por isso que o caso belga merece atenção. Um país pode continuar a ter muito menos incêndios do que Portugal ou Espanha e, ainda assim, começar a experimentar episódios para os quais as suas estruturas, políticas de prevenção e modelos de ordenamento territorial não foram desenhados.A questão passa então de «onde há incêndios?» para «onde estamos preparados para os combater?».E o mar também está a aquecerHá uma segunda história a acontecer ao mesmo tempo, aparentemente distante dos incêndios mas climaticamente ligada a eles.As águas europeias estão extraordinariamente quentes. Dados do Copernicus Marine Service, relativos a 13 de agosto, mostravam anomalias próximas dos 6 ºC acima da média em algumas zonas do Mediterrâneo ocidental, nomeadamente no golfo de Leão.Uma análise do World Weather Attribution divulgada esta semana encontrou sinais particularmente fortes de aquecimento nas águas europeias e concluiu que as alterações climáticas provocadas pela actividade humana foram o principal factor por detrás das temperaturas oceânicas extraordinárias registadas neste verão. No Mediterrâneo, a temperatura média da superfície do mar chegou aos 27 ºC em julho, o valor mais elevado de que há registo.O mar quente não causa directamente um incêndio numa floresta espanhola ou portuguesa, mas faz parte do mesmo sistema climático que está a produzir extremos simultâneos em terra e no oceano.E esse é talvez um dos aspectos mais inquietantes do verão de 2026: já não estamos perante fenómenos isolados, mas perante vários componentes do sistema climático a moverem-se simultaneamente para valores extremos. Calor. Seca. Incêndios. Águas excepcionalmente quentes. Ondas de calor marinhas.A Organização Meteorológica Mundial tem descrito este quadro, assinalando que temperaturas recorde à superfície da terra e do mar, calor extremo, seca, incêndios e inundações estão a definir o estado do clima durante o verão de 2026.A fronteira do incêndio está a mudarHá, por isso, uma transformação que merece mais atenção do que a sucessão diária de imagens de fumo, aviões Canadair e populações evacuadas.Durante muito tempo, a política europeia de incêndios pôde ser pensada sobretudo a partir do Mediterrâneo. A prevenção, o conhecimento técnico, a gestão florestal e os meios de emergência foram sendo construídos a partir de experiências nacionais muito diferentes, mas com uma concentração particular do risco no Sul. Agora, essa lógica começa a ser insuficiente. Se o risco se desloca para norte, os países que passam a enfrentar incêndios mais severos precisam de adaptar os seus sistemas de prevenção, cartografia de risco, gestão florestal e protecção civil. E precisam de o fazer antes de o primeiro grande incêndio lhes demonstrar aquilo que os modelos climáticos já antecipavam.A própria União Europeia tem vindo a reforçar a cooperação entre Estados através do Mecanismo Europeu de Protecção Civil, precisamente porque os incêndios de grande dimensão podem ultrapassar rapidamente a capacidade de resposta de um único país.A Europa está, portanto, perante uma questão que é simultaneamente ambiental, económica e política. Quanto custa prevenir um incêndio antes de ele começar? Quanto custa adaptar uma floresta? Quanto custa manter equipas, aviões e equipamentos disponíveis durante uma temporada que se prolonga? E quanto custa, finalmente, reconstruir casas, estradas, explorações agrícolas, redes eléctricas e economias locais depois de o fogo passar?O próximo mapa será diferenteO mais fácil é olhar para os incêndios deste verão como uma sucessão de catástrofes independentes. Espanha tem os seus fogos. França tem os seus. Portugal também. A Bélgica teve um incêndio excepcional. A Grécia e a Croácia enfrentaram evacuações. Mas, no fundo, a Europa está a desenhar um novo mapa do risco climático.O fogo continua a ser uma realidade profundamente humana, todavia as condições ambientais em que essas ignições acontecem estão a mudar. O Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia acompanha actualmente a evolução dos incêndios e das condições meteorológicas de risco em toda a União Europeia, precisamente porque a dimensão continental do fenómeno tornou impossível tratá-lo apenas como uma sucessão de emergências nacionais.  2025 tinha sido já considerado pelo Joint Research Centre o ano de incêndios mais destrutivo de que havia registo na União Europeia.Agora, em 2026, a Europa volta a enfrentar uma temporada excepcional. Um verdadeiro sinal de mudança climática expondo alguns países que até há pouco tempo julgavam que alguns fogos nunca chegariam até si.O conteúdo O fogo está a mudar de mapa na Europa e já chega a países que julgavam estar a salvo aparece primeiro em Revista Líder.