Uma chuva extrema pode atingir uma cidade inteira, mas o desastre, não. Entre a água que cai do céu e a casa que alaga existe um território: drenagem ou falta dela, rios canalizados, moradia precária, infraestrutura e renda. Trinta e cinco graus no termômetro não significam a mesma experiência em uma rua arborizada e dentro de uma casa com pouca ventilação. A ameaça climática pode ser compartilhada, mas a possibilidade de se proteger dela é profundamente desigual.Essa é a principal provocação do relatório recém-lançado pelo Greenpeace Brasil, em parceria com o Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (LECE) da UERJ e a Brisa Soluções Ambientais. O documento propõe uma mudança essencial de perspectiva: olhar para a adaptação climática a partir do lugar onde o risco realmente se materializa. E quando fazemos isso, os números revelam uma arquitetura de exclusão.Aproximadamente 70% dos municípios brasileiros apresentam níveis elevados de vulnerabilidade à escassez hídrica. No entanto, olhar apenas para médias municipais esconde a geografia do risco. Entre os 20 municípios que concentram as maiores populações em favelas, como Ananindeua (PA) e Manaus (AM), há uma sobreposição de risco muito alto para deslizamentos, inundações e secas.Rio Negro – Igarapé de Petrópolis, Bacia urbana da Cachoeirinha em Manaus, AM. Foto: Orígenas Coletivo e Arte Ocupa Leia também: 1.Quase metade das crianças está exposta a riscos climáticos 2.Natura e Defesa Civil vão criar núcleos comunitários para eventos climáticos Essa geografia tem cor. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 73% dos moradores de favelas e comunidades urbanas brasileiras são pessoas pretas ou pardas. É nesse ponto que falar em racismo ambiental deixa de ser teoria: o clima encontra uma cidade que já distribuía proteção de maneira desigual. A segregação socioespacial não está desconectada da crise climática; ela é seu fundamento material.O que o relatório documenta é que vulnerabilidade climática e vulnerabilidade social não são fenômenos paralelos, mas a mesma coisa vista de ângulos diferentes. Uma mulher preta morando em uma encosta de Jaboatão dos Guararapes (PE) não enfrenta dois riscos independentes. Enfrenta um risco único, estruturalmente composto: o risco de ser preta, pobre, morando onde a especulação imobiliária a tolera, em um território que o clima se torna cada vez mais letal.O curioso é que entre 2010 e 2023, o Brasil investiu R$ 421 bilhões em ações climáticas, mas apenas 2% desse volume foi destinado à adaptação. Os recursos internacionais repetem a lógica: dos R$ 26,6 bilhões destinados ao país entre 2021 e 2022, apenas 5% focaram exclusivamente na adaptação.Comerciantes retiram entulho e limpam lojas para retomar os negócios no Centro Histórico de Porto Alegre em maio de 2024. Foto: Rafa Neddermeyer | Agência BrasilEnquanto o mundo debate como reduzir emissões de carbono, problema importante, mas que tem horizonte de décadas, os territórios brasileiros já enfrentam eventos extremos que reconfiguram a vida agora. A seca de 2023-2024, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), atingiu aproximadamente 5 milhões de km², correspondendo a cerca de 59% do território brasileiro; a maior extensão registrada em 75 anos.Apesar do Plano Clima 2024-2035 articular 16 planos setoriais e reconhecer a importância da igualdade racial como eixo transversal, apenas 13% dos municípios avaliados possuem um Plano de Adaptação formalizado. Em mais de 90% dessas cidades, a população não tem canais de participação para discutir o tema. Leia também: 1.Renaturalização de rios ajuda cidades na adaptação climática 2.Mais da metade das capitais não tem plano de adaptação climática A adaptação climática está sendo construída sem os adaptantesIsso significa que em cidades como Recife, onde o Ibura Mais Clima já funciona monitorando deslizamentos com tecnologia participativa, ou em Manaus, onde mulheres indígenas manejam florestas há séculos, as decisões sobre como proteger aqueles territórios não passam por quem os conhece. Passam por ministérios, por consultorias internacionais, por planos escritos em Brasília. E quando chegam aos territórios, chegam tarde, descalibrados, sem os recursos necessários.No entanto, no vácuo da política pública, o conhecimento territorial funciona. Bons exemplos brasileiros de Adaptação Baseada na Comunidade (AbC) já produzem impactos socioambientais positivos verificáveis.Foto: Programa Um Milhão de CisternasO Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) alcançou mais de 650 mil famílias no Semiárido, garantindo o armazenamento de mais de 10 bilhões de litros de água e contribuindo para a redução de 47% nas doenças diarreicas em crianças menores de cinco anos entre 2000 e 2023. São vidas salvas por tecnologia social simples; estruturas de captação de água da chuva feitas com materiais locais, construídas por mulheres e homens que precisam resolver o problema agora.Hortas comunitárias urbanas em Salvador, coordenadas por mulheres de bairros periféricos, articulam segurança alimentar, educação ambiental e renda complementar. Do Teto Verde Favela, no Rio de Janeiro, aos jardins de chuva em São Paulo, moradores usam a experiência social do território para desenhar respostas ao clima sem aguardar autorização institucional.Em comunidades de pescadores artesanais, sistemas de monitoramento participativo rastreiam mudanças nas populações de peixes; indicadores diretos de alterações climáticas. Conhecimento territorial traduzido em dados de pesquisa. Saberes indígenas e ribeirinhos transformados em metodologia de adaptação.Apoiar essas soluções não é beneficência, mas um cálculo econômico inteligente. Um estudo do World Resources Institute (WRI) de 2025 aponta que cada dólar investido em adaptação gera US$ 10,50 de retorno em benefícios ao longo de uma década. Mais importante ainda: projetos com participação comunitária efetiva produziram um retorno 40% superior aos focados em soluções técnicas isoladas.A lição que o relatório oferece confirma que as comunidades sabem adaptar-se. Mas isso não as torna responsáveis por resolver crises que não criaram. O Estado não pode terceirizar sua responsabilidade para populações vulneráveis apenas porque essas populações conseguem ser criativas sob pressão.Conscientização sobre os riscos e as ações para reduzi-los aumentaram globalmente, mas medidas de adaptação têm sido insuficientes diante da magnitude do problema. Cena do desastre causado pelo excesso de chuvas em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rego | Agência Brasil Leia também: 1.Financiamento de adaptação equivale a um dia de subsídios a fósseis 2.Mitigar efeitos das mudanças climáticas será cada vez mais caro O que está em jogoA crise climática costuma ser apresentada por meio de curvas de temperatura e projeções continentais. Tudo isso importa, mas ninguém enfrenta uma inundação em um gráfico. O enfrentamento acontece na rua onde o bueiro transbordou, na casa que alagou, e na rede de vizinhos que sabe quem precisa ser salvo primeiro.Um país climaticamente seguro não será construído apenas nas promessas globais, não será pelo anúncio de planos setoriais, nem pelo discurso na COP, ou reafirmando dados do IPCC. Será reconhecido pela sua capacidade concreta de proteger pessoas exatamente onde o clima encontra suas vidas.Povos da floresta e comunidades tradicionais precisam estar no centro das discussões climáticas. Foto: Reinaldo CantoIsso exige três mudanças simultâneas: financiamento direto para iniciativas de base comunitária; participação social real, não consultoria de fachada, nas decisões sobre adaptação; e reconhecimento de que justiça racial e territorial são fundantes de qualquer plano que pretenda funcionar.O relatório não oferece respostas fáceis. Oferece diagnóstico preciso e a pergunta que importa: se comunidades brasileiras já estão adaptando-se com migalhas, o que poderiam fazer com financiamento real? Com participação garantida? Com reconhecimento de que seu conhecimento é ciência?Essa pergunta está viva nos territórios. E continua aguardando respostas.Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.The post O clima é global, mas o risco tem endereço appeared first on CicloVivo.