Os fundos de crédito privado voltaram a entregar bons resultados, mas os gestores ainda não estão dispostos a aumentar a exposição a ativos de maior risco. Mesmo com a maior parte das carteiras no azul, a avaliação é de que os prêmios oferecidos pelas debêntures não são altos o suficiente para compensar uma tomada adicional de risco.A conclusão aparece na pesquisa Perspectiva de Crédito, da Empiricus, feita com cerca de 20 gestoras no início de agosto. Juntas, as instituições administram mais de R$ 1 trilhão em fundos de crédito privado.O levantamento mostra que o mercado de crédito segue funcionando normalmente e que a performance dos fundos melhorou depois de um início de ano mais difícil.Em julho, 93,5% dos fundos focados em debêntures, tradicionais ou incentivadas, tiveram retorno acima do CDI. Entre os fundos multiestratégia, que também podem investir em FIDCs e títulos de dívida em dólar, cerca de 75% superaram o índice de referência.Julho foi o terceiro mês consecutivo de recuperação dos resultados.Por que os gestores não estão aumentando o risco?O bom desempenho, porém, não mudou a estratégia das gestoras. A preferência continua sendo por empresas de maior qualidade de crédito, vencimentos mais curtos, caixa e crédito bancário.A questão não é uma expectativa de nova onda de calotes ou de resgates nos fundos. O problema está na relação entre risco e retorno.Os prêmios pagos pelas debêntures permanecem relativamente estáveis. O Idex-CDI Geral, índice que acompanha os juros oferecidos pelo crédito privado, mostra que os títulos de empresas de maior qualidade estão pagando cerca de 1,4 ponto percentual acima dos títulos públicos equivalentes.Na avaliação captada pela pesquisa, esse nível não é alto o bastante para justificar uma migração mais agressiva para ativos de maior risco.Por isso, as debêntures tradicionais aparecem com baixa alocação entre os gestores consultados. Já as debêntures incentivadas estão em posição neutra.Entre os fundos multiestratégia, os FIDCs aparecem como uma das alternativas de alocação, enquanto caixa e crédito bancário também ganharam espaço.Inadimplência preocupa, mas não há sinal de criseOutro ponto acompanhado pelos gestores é o aumento da inadimplência na economia.A pesquisa da Empiricus mostra, porém, que a maior parte das gestoras não vê sinais de uma nova onda de eventos de crédito entre grandes empresas.Para 54% dos gestores, a alta da inadimplência representa um ajuste normal do ciclo de crédito. Outros 15% avaliam que existe uma deterioração econômica mais ampla, capaz de atingir diferentes setores.Já 31% veem a piora concentrada nas famílias e no consumo, com potencial impacto principalmente sobre segmentos mais cíclicos, como o varejo.Ou seja, a piora dos indicadores de inadimplência está no radar, mas não há, neste momento, uma percepção predominante de que ela vá se transformar em uma deterioração generalizada do crédito corporativo.O que esperar dos fundos de crédito privadoA leitura da pesquisa é de que os fundos de crédito privado continuam tendo espaço nas carteiras, mas sem grandes catalisadores para uma aceleração dos retornos nos próximos meses.Um dos fatores que contribuem para a cautela é a proximidade das eleições de outubro, que mantém os gestores em compasso de espera diante das incertezas do cenário econômico e político.Nesse ambiente, a expectativa é de retornos mais previsíveis, vindos principalmente dos juros contratados dos ativos que já estão nas carteiras, e não de ganhos extraordinários com a valorização dos títulos.Para o investidor, o cenário descrito pela pesquisa é de um mercado em que ainda é possível obter bons retornos com crédito privado, mas em que os gestores preferem não aumentar o risco apenas para buscar alguns pontos percentuais adicionais.A estratégia, por enquanto, é preservar a qualidade das carteiras e esperar que os prêmios oferecidos pelo mercado voltem a compensar melhor o risco adicional.