O Costume Institute do Metropolitan Museum of Art anunciou, em 31 de julho, que a exposição de 2027 será dedicada a John Galliano. Sob o título “John Galliano: Horizons”, o britânico se torna o terceiro estilista vivo a ganhar uma mostra individual na instituição, depois de Yves Saint Laurent (1983) e Rei Kawakubo (2017). Contudo, o anúncio gerou controvérsias em torno da celebração da genialidade de um criador que carrega um histórico de declarações antissemitas e racistas.Vem entender!John Galliano será homenageado no Met Gala 2027 O gênio antes da quedaAntes de se tornar sinônimo de escândalo, Galliano era sinônimo de espetáculo. Filho de um encanador gibraltino e de uma professora espanhola de flamenco, cresceu no sul de Londres cercado pelo gosto da mãe pela teatralidade e pelos vestidos. Segundo o próprio estilista relatou em entrevistas, essa convivência moldou sua estética desde cedo. Leia também Ilca Maria EstevãoMet Gala anuncia John Galliano como tema da edição de 2027 Ilca Maria EstevãoPatrocínio de Bezos e Lauren Sánchez compromete futuro de Met Gala Ilca Maria EstevãoAntissemitismo e demissão da Dior: o passado polêmico de John Galliano Ilca Maria EstevãoZara dá novo passo em direção ao luxo em parceria com John Galliano Sua coleção de formatura na Central Saint Martins, inspirada no hedonismo do período pós-Reinado do Terror francês, foi comprada integralmente pela loja Browns antes mesmo de sua graduação — um feito raro para um estudante.John Galliano no Metropolitan Museum of Art A partir daí, com o apoio de Anna Wintour, Galliano se firmou em Paris ao longo dos anos 1990 e foi nomeado diretor criativo da Givenchy, tornando-se o primeiro estilista britânico a comandar uma grande casa de alta-costura francesa. Permaneceu pouco mais de um ano na maison, período que funcionou como uma espécie de prova de conceito, suficiente para que a LVMH o realocasse para a Dior, em 1996, consolidando a fase mais celebrada de sua carreira.Estilista britânico no desfile da Givenchy, em 1996 À frente da Dior, onde permaneceu até 2011, Galliano transformava os desfiles em verdadeiros espetáculos. Em sua primeira temporada de alta-costura pela maison, apresentou uma proposta então revolucionária: uma coleção unissex, décadas antes de o conceito se tornar uma tendência de mercado. O estilista fundiu referências do militarismo napoleônico, do imaginário vitoriano e da cultura indiana à estética dos clubes londrinos dos anos 1980. Também é dele a criação da Dior Saddle Bag, uma das bolsas mais icônicas do mercado de luxo, popularizada por Carrie Bradshaw em Sex and the City.Bolsa criada por Galliano se tornou ícone fashion 2011: o início da quedaPor trás da teatralidade dos desfiles da Dior, no entanto, havia uma rotina de trabalho brutal. Relatos de colaboradores e o panorama da carreira do estilista apresentado no documentário Ascensão e Queda — John Galliano (2023) detalham noites inteiras no ateliê, com Galliano e seu braço direito, Steven Robinson, revisando looks até a exaustão antes de cada coleção.Documentário aborda a carreira polêmica do designer Foi nesse contexto de privação de sono e pressão constante que Galliano começou a recorrer a diferentes substâncias para se manter de pé e também mergulhou no consumo excessivo de álcool, hábito que se tornaria recorrente ao longo dos anos seguintes. A morte de Robinson, em 2007, é apontada por muitos como o momento em que esse equilíbrio já frágil começou a desmoronar de vez, contribuindo para o estado em que Galliano se encontrava em 2011.Steven Robinson era amigo de Galliano e foi o braço direito do estilista durante muitos anos O ponto de ruptura ocorreu poucos dias antes da Semana de Moda de Paris, quando Galliano foi filmado no café La Perle proferindo a frase “Adoro Hitler” e dirigindo insultos antissemitas e racistas a um casal que estava próximo. O estilista foi demitido da Dior em março de 2011 e, naquele mesmo ano, condenado por insultos públicos baseados em origem, religião, raça ou etnia. A Justiça francesa rejeitou o argumento de que ele estaria emocionalmente fragilizado pela morte do amigo.Após episódio de antissemitismo, Galliano ficou afastado dos holofotes por anos ReabilitaçãoDois anos depois, em 2013, Anna Wintour foi responsável por emplacá-lo em uma residência temporária no ateliê de Oscar de la Renta. Já em 2014, Galliano assumiu a direção criativa da Maison Margiela, onde permaneceu por dez anos e voltou a ser aclamado pela crítica de moda por seus desfiles teatrais, que remetiam às criações apresentadas durante sua passagem pela Dior. Em 2026, o britânico firmou uma parceria criativa de dois anos com a varejista espanhola Zara.Anna Wintour impulsionou carreira de Galliano Homenagem pelo MetAntes de bater o martelo sobre o tema da exposição do Met Gala 2027, Anna Wintour e o curador Andrew Bolton consultaram lideranças judaicas, incluindo a Anti-Defamation League e a Union for Reform Judaism. As instituições deram aval ao projeto após reuniões diretas com o próprio Galliano ao longo do último ano. O museu garante que a mostra não vai romantizar a biografia do estilista: haverá uma seção dedicada ao episódio de 2011, e o curador afirmou que a exposição tratará de como o mérito artístico deve ser analisado ao lado da responsabilidade ética.Interior do evento Met Gala em 2026 A escolha rapidamente causou comoção nas redes, com parte do público apontando um “timing ruim”, diante do aumento de episódios de antissemitismo na Europa e nos EUA. No debate, internautas questionam se é justo conceder a Galliano o mesmo tipo de honraria reservada a Saint Laurent e Kawakubo, os únicos outros estilistas homenageados pelo Met ainda em vida.Metropolitan Museum of Art, em Nova York A jornalista Dana Thomas, em publicação no The New York Times, resgatou um histórico de comportamentos problemáticos que, segundo ela, foi ignorado pela imprensa de moda. Entre os episódios citados está a expulsão de Galliano do hotel Ritz, em Londres, depois de se despir dentro de um elevador e rosnar para os hóspedes, afirmando ser um “leão”.4 imagensFechar modal.1 de 4Estilista é conhecido por criar visuais dramáticos e chamativosVictor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty Images2 de 4Criações e desfiles de Galliano eram considerados geniaisSerge BENHAMOU/Gamma-Rapho via Getty Images3 de 4O britânico é conhecido por sua trajetória marcada por polêmicas e excentricidadeVictor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty Images4 de 4O ritmo de trabalho do estilista impulsionou alguns de seus víciosMichel Dufour/WireImage/Getty Images Como o Met escolhe quem homenagearAlém de toda a controvérsia gerada pela homenagem a Galliano, outro ponto levantado é até que ponto a decisão do Met se baseia em critérios relevantes para a moda, a história, a cultura e a sociedade ou se existem influências comerciais por trás da curadoria. O Met Gala é, antes de tudo, um evento beneficente que financia a exposição do Costume Institute, departamento de moda do Metropolitan Museum of Art, e ajuda a levá-la às manchetes.Decoração interna da edição de 2024, Sleeping Beauties: Reawakening Fashion Desde 2006, Andrew Bolton é responsável pela curadoria do evento. Conhecido por costurar narrativas amplas sobre tempo, sustentabilidade, morte e arte, Bolton busca captar o espírito de cada época e transformá-lo em um tema relevante para o público contemporâneo do museu.Temas da exposição e do evento geralmente são conceituais e amplos Historicamente, a maioria das exposições é temática, como Camp, Sleeping Beauties ou, neste ano, Costume Art, ou dedicada a estilistas já falecidos. Dedicar uma mostra a um criador vivo é uma decisão rara justamente porque expõe o museu a outro tipo de risco: quando o homenageado já morreu, a instituição lida com seu legado; quando está vivo, também precisa lidar com sua reputação em tempo real.O tema da exposição de 2026 do Met Gala foi Costume Art O Met ainda não revelou os patrocinadores da edição de 2027, e alguns já questionam se as marcas vão querer se associar a Galliano. A Zara já é um dos nomes cogitados: a parceria de dois anos firmada com o estilista em março estreou no tapete vermelho do evento em 2026, com Stevie Nicks vestindo a primeira peça da colaboração. O movimento faz parte da estratégia da Inditex para sofisticar a imagem da varejista e ajudou a normalizar o retorno de Galliano um ano antes de ele se tornar tema oficial da mostra.Stevie Nicks Varejista espanhola Zara está se reposicionando para se afastar do modelo tradicional de fast fashion e mirar o mercado de luxo acessível Separação entre artista e obraA polêmica também expõe um problema maior da indústria cultural. A linha entre “artista imperdoável” e “artista redimido” nunca foi consistente, mas costuma acompanhar o quanto o mercado ainda depende daquele talento. Chris Brown é um paralelo fora da moda: após agredir Rihanna em 2009, foi condenado e passou anos sob forte desconfiança pública, mas continuou lançando álbuns e manteve uma base de fãs fiel o suficiente para lotar estádios. Nos dois casos, houve um período de pausa, silêncio estratégico e, posteriormente, reentrada no mercado.Em 2014, o cantor foi condenado por agressão A diferença é que, no caso do Met, a homenagem será acompanhada de uma abordagem institucional sobre as controvérsias envolvendo o estilista. A decisão coloca em debate como a instituição pretende conciliar o reconhecimento de sua contribuição para a moda com a responsabilidade de abordar seu histórico de declarações antissemitas e racistas.O Costume Institute é o departamento de moda do Metropolitan Museum of Art, em Nova York Um baile que vem gerando polêmicasO Met Gala também tem sido alvo de polêmicas recentes. Em maio deste ano, a edição de 2026 foi parcialmente ofuscada por um boicote motivado pelo patrocínio de Jeff Bezos e Lauren Sánchez Bezos. A reação se manifestou por meio de cartazes e projeções espalhados pelo entorno do museu, que pediam o boicote ao evento e associavam a Amazon ao financiamento de tecnologias utilizadas pelo ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos, além de fazerem críticas às condições de trabalho na empresa.Cartaz em protesto ao Met Gala de 2026 O padrão observado nos dois episódios é a associação entre decisões relacionadas ao Met Gala e controvérsias que acabam integrando a repercussão do evento. A escolha de Galliano, por sua vez, amplia o debate sobre como o Met pretende conciliar o reconhecimento de sua contribuição para a moda com a abordagem de seu histórico controverso.4 imagensFechar modal.1 de 4 Jeff Bezos e Lauren Sánchez BezosKevin Mazur/MG26/Getty Images2 de 4"Taxem os ricos"Spencer Platt/Getty Images3 de 4Protestos em Nova YorkSpencer Platt/Getty Images4 de 4Protestos contra Bezos e TrumpSpencer Platt/Getty Images