O que rios, florestas e animais podem revelar sobre a próxima pandemia

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A próxima pandemia pode deixar sinais antes mesmo de os primeiros pacientes aparecerem. Uma morte incomum entre animais, uma alteração no ambiente ou a circulação de um microrganismo em uma região podem indicar que algo está mudando na relação entre seres humanos, animais e natureza.Esse é um dos princípios por trás do conceito de Saúde Única, ou One Health, que considera a saúde humana, a saúde animal e a saúde do meio ambiente como partes de um mesmo sistema. Para a infectologista Luana Araújo, esses elementos estão ligados e são influenciados por fatores como mudanças climáticas, desmatamento, poluição, urbanização e circulação de pessoas.O que é Saúde Única e por que ela importa para futuras pandemias?Segundo Luana Araújo, vivemos em sistemas complexos nos quais diferentes fatores interagem e não produzem efeitos isolados. Mudanças no ambiente, por exemplo, podem alterar as condições de circulação de agentes infecciosos e aumentar a exposição das pessoas a microrganismos que antes estavam mais distantes das populações humanas.Ao explicar o conceito de Saúde Única, a especialista resume que “a saúde humana, a saúde animal e a saúde do meio ambiente são uma coisa só”. Para ela, quando uma dessas partes é desequilibrada, as demais também sofrem as consequências.O monitoramento de rios e outros ambientes pode ajudar a identificar alterações que merecem investigação antes do surgimento de surtos entre humanos – Imagem: pingpongcha_photo / ShutterstockA expansão do Aedes, por exemplo, mostra como mudanças ambientais podem alterar a distribuição de doenças. Araújo afirma que a dengue, antes considerada uma doença tropical, passou a ser endêmica em partes do sul da Europa e também aparece no sul dos Estados Unidos.O desmatamento representa outro ponto de atenção. Segundo a infectologista, o avanço da fronteira agrícola aumenta a exposição humana a microrganismos para os quais não há defesas conhecidas e muitos dos quais ainda não são conhecidos pela ciência.Animais podem dar os primeiros sinais de uma nova ameaçaSe uma nova ameaça pode surgir de um microrganismo ainda não identificado, acompanhar o que acontece com os animais pode ajudar a perceber alterações antes que elas apareçam como um aumento de casos entre seres humanos. Para o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), isso exigiria uma rede permanente de vigilância nos diferentes biomas brasileiros.Vecina defende que essa rede também conte com informações de quem vive nessas regiões. Ele cita indígenas, ribeirinhos e outros moradores como pessoas que podem perceber mudanças incomuns no mundo animal antes que elas sejam identificadas por sistemas tradicionais de monitoramento.A vigilância em áreas naturais pode ajudar a identificar alterações no ambiente e investigar possíveis sinais de circulação de microrganismos – Imagem: lucky boy studio / ShutterstockQuando começa, por alguma razão, a morrer algum tipo de bicho, quem mora na região tem uma condição de ser acionados para descobrir que está acontecendo alguma coisa diferente no mundo animal. Quando acontece alguma coisa no mundo animal, tem algum tipo de microorganismo atuando.Gonzalo Vecina Neto, sanitaristaPara o sanitarista, esse acompanhamento deveria alcançar os seis biomas brasileiros — Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pampa — e incluir vigilância sobre animais e plantas. A ideia é acompanhar alterações na natureza que possam exigir investigação das autoridades e dos laboratórios.Como um alerta na natureza chega ao laboratórioPerceber uma alteração na fauna ou no ambiente é apenas o primeiro passo. Depois disso, é necessário investigar o que está acontecendo e identificar rapidamente o agente envolvido. Nesse processo entram técnicas de biologia molecular, automação laboratorial, testes rápidos e sequenciamento genético.Para o patologista clínico Carlos Alberto Aita, houve avanços importantes desde a pandemia de covid-19 nas técnicas de biologia molecular para identificação rápida de novos patógenos, além da automação dos laboratórios e do desenvolvimento de testes rápidos.Segundo Aita, a capacidade de identificar agentes infecciosos com rapidez, qualidade e precisão já faz parte da rotina dos laboratórios clínicos. Ele também destaca que o monitoramento não depende apenas de testes específicos: exames gerais ajudam a acompanhar a condição de saúde dos pacientes.As redes integradas para monitoramento dos dados permitem que, logo após uma pequena quantidade de notificações, seja possível atuar rapidamente para minimizar a disseminação de novos casos.Carlos Alberto Aita, patologista clínicoA análise genética ajuda a identificar e acompanhar agentes infecciosos, conectando a vigilância de campo à investigação laboratorial – Imagem: New Africa / ShutterstockEssa integração permite conectar o que é observado no ambiente à investigação laboratorial. Um evento incomum pode gerar notificações, orientar a coleta e a análise de amostras e, a partir daí, levar à identificação de um agente e ao acompanhamento de sua circulação.O desafio é transformar sinais em resposta rápidaDetectar uma mudança na natureza só é útil para a saúde pública se houver capacidade de investigar o que está acontecendo. Por isso, Vecina defende não apenas a vigilância nos biomas, mas também uma rede de centros de sequenciamento de microrganismos distribuída pelo país.Segundo o sanitarista, o Brasil ainda concentra sequenciadores em algumas universidades e precisa ampliar essa capacidade para diferentes regiões. Ele também defende investimentos contínuos no desenvolvimento de tecnologias voltadas ao tratamento e à assistência em saúde.Aita aponta outra frente desse esforço: manter os laboratórios atualizados e formar profissionais capazes de trabalhar com novas metodologias e com os dados produzidos por essas redes. Para ele, é essencial investir na atualização tecnológica de laboratórios de referência e laboratórios clínicos, na criação de redes estruturadas de análise de dados e na formação contínua das equipes.A vigilância baseada em Saúde Única, portanto, começa antes de uma doença chegar ao hospital. Ela depende da capacidade de observar alterações em animais e no ambiente, identificar rapidamente o que pode estar por trás delas e conectar essas informações a laboratórios e sistemas de vigilância capazes de orientar uma resposta.O post O que rios, florestas e animais podem revelar sobre a próxima pandemia apareceu primeiro em Olhar Digital.