“Você não pode confiar em Zuckerberg com crianças”, diz ex-executivo da Meta

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O ex-diretor de engenharia da Meta Arturo Béjar afirmou, nesta quarta-feira (19), que o CEO da empresa, Mark Zuckerberg, criou uma cultura na qual a segurança de crianças e adolescentes ficava em segundo plano diante do crescimento e do engajamento de usuários no Facebook e no Instagram.Béjar fez a acusação durante seu segundo dia de depoimento em julgamento histórico que pode estabelecer novos limites para a responsabilidade das redes sociais pelos efeitos de suas plataformas sobre usuários jovens. O processo é movido por coalizão de 29 estados dos Estados Unidos contra a Meta.Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey acusam a empresa de ter desenvolvido Facebook e Instagram de maneira a prender jovens nas plataformas, contribuindo para problemas como ansiedade, depressão e até suicídio. Os 29 estados também afirmam que a Meta violou leis federais ao coletar e utilizar de forma indevida dados pessoais de crianças menores de 13 anos.O julgamento começou na terça-feira (18), em um tribunal federal de Oakland, na Califórnia (EUA), e deve durar cerca de seis semanas. Zuckerberg está entre as testemunhas esperadas no processo.“Se Mark torna algo prioridade, montanhas se movem”Béjar, que trabalhou na Meta entre 2009 e 2015 e posteriormente atuou como consultor independente da empresa entre 2019 e 2021, disse que Zuckerberg tinha forte influência sobre as decisões relacionadas aos produtos;Segundo ele, a estrutura hierárquica da companhia fazia com que mudanças no design das plataformas fossem implementadas rapidamente quando Zuckerberg determinava que determinado assunto era prioritário;“Se Mark torna algo uma prioridade, montanhas se movem em meses”, afirmou Béjar;O ex-executivo também contestou uma declaração feita por Zuckerberg em outubro de 2021, depois que a ex-funcionária e denunciante Frances Haugen acusou a Meta de saber que seus produtos eram prejudiciais para crianças e de conhecer maneiras de torná-los mais seguros, mas não agir por priorizar os lucros;Na ocasião, Zuckerberg afirmou que a empresa utilizava constantemente pesquisas para melhorar seus produtos e torná-los mais seguros;Béjar classificou a declaração como falsa. “É tão falso, cada parte disso. Você simplesmente não pode confiar em Mark Zuckerberg com crianças”, disse.Filha do ex-executivo encontrou conteúdo misóginoDurante o depoimento, Béjar também relatou uma experiência envolvendo sua própria filha, que tinha 16 anos quando criou uma conta no Instagram em 2021.Segundo ele, a adolescente queria usar a plataforma para encontrar um espaço em que mulheres pudessem conversar sobre carros. Com o tempo, porém, ela passou a receber comentários misóginos, inclusive relacionados aos seus seios.Béjar afirmou que acompanhava o impacto que a experiência provocava na filha. “Fiquei de olho em como isso era angustiante para ela. Ela conseguiu muitos seguidores, ao preço de sofrer danos”, declarou.Durante o interrogatório feito pelo advogado da Meta, Brian Stekloff, Béjar reconheceu que não tinha conhecimento dos riscos que a filha enfrentaria quando a ajudou a criar a conta.“Se Mark torna algo uma prioridade, montanhas se movem em meses”, afirmou Béjar – Imagem: FotoField/ShutterstockLeia mais:Cerco aos adolescentes aperta, e Meta usa influenciadores para se defenderPatente da Meta mostra óculos inteligentes com reconhecimento facialIA da Meta pode “ler pensamentos”? Não é bem assimAcusação de priorizar lucroEm seu depoimento, Béjar também afirmou que a Meta priorizava o engajamento dos usuários — e, consequentemente, o lucro — em detrimento da segurança. Um dos exemplos apresentados por ele foi a ferramenta que incentiva usuários a fazer pausas no uso das plataformas. O recurso é uma das medidas de segurança citadas pela Meta em sua defesa.Béjar afirmou que a ferramenta era “projetada para falhar”, porque não vem ativada como configuração padrão e seus lembretes podem ser facilmente ignorados.Ele também disse que a Meta possuía tecnologia capaz de identificar usuários que poderiam ter menos de 13 anos e exigir uma verificação de idade. Segundo o ex-executivo, a ferramenta poderia atingir milhões de usuários.Ainda de acordo com Béjar, a empresa teria adotado uma espécie de política de “não pergunte, não conte” sobre a presença de crianças menores de 13 anos nas plataformas, porque manter esses usuários seria financeiramente vantajoso no longo prazo. “Onde estão as crianças mais novas é onde os usuários estarão no futuro”, afirmou.Meta contesta acusaçõesA Meta rejeita as acusações de que tenha desenvolvido Facebook e Instagram com o objetivo de tornar as plataformas viciantes para crianças.No primeiro dia do julgamento, o advogado da empresa Paul Schmidt afirmou que não existe ligação comprovada entre o uso de redes sociais e a falta de bem-estar dos adolescentes. A defesa também argumenta que Zuckerberg compartilha o objetivo de melhorar os serviços da companhia, e não de torná-los perigosos.O processo pode resultar em penalidades e mudanças no funcionamento do Facebook e do Instagram. Os estados querem, entre outras medidas, eliminar recursos como curtidas e rolagem infinita, estabelecer limites de tempo para usuários mais jovens e reforçar as restrições destinadas a impedir que crianças menores de 13 anos utilizem as plataformas.O caso é considerado um dos maiores testes jurídicos já enfrentados pelas redes sociais em relação aos efeitos de seus produtos sobre crianças e adolescentes. A Meta enfrenta milhares de processos semelhantes nos Estados Unidos.O post “Você não pode confiar em Zuckerberg com crianças”, diz ex-executivo da Meta apareceu primeiro em Olhar Digital.