O que uma cidade perde

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Na semana passada, assisti a uma campanha publicitária que não consegui esquecer. Uma enorme bola de cabelos atravessava as ruas de Nova York. Chamava-se Tumblehair. Reunia, numa única imagem, os fios que uma cidade inteira perde sem perceber. Um no travesseiro. Outro preso à roupa. Alguns no ralo depois do banho. Bilhões, quando somados.Não foi a estranheza que ficou comigo. Foi a ideia. Transformar pequenas perdas numa presença impossível de ignorar.Fiquei pensando que as cidades também perdem assim. Uma ausência de cada vez. O que uma cidade perde enquanto acredita que está apenas mudando?Naquela noite choveu. O cheiro da primeira chuva subiu da terra. Dormi em paz.Ao abrir os olhos, não lembro a que horas foi, percebi que havia alguma coisa no meio da avenida. De longe, pensei que fosse uma escultura. Urban Art talvez, como a bola de cabelos humanos.Quando me aproximei, vi que era um novelo. Não de fios. De cidade.Raízes enroscavam-se em bancos de praça. Galhos atravessavam janelas. Trilhos desapareciam sob trepadeiras. Um portão de ferro prendia-se a um pedaço de calçada junto com terra, pedras, tubulações, placas de rua enma sei mais quantos objetos urbanos. Tudo enredado.Tive a impressão de que cada perda tivesse encontrado outra para não permanecer sozinha.Os carros diminuíam a velocidade. As pessoas fotografavam. Os agentes de trânsito desviavam o trânsito.Enquanto eu observava, o novelo cresceu. Quase imperceptivelmente. Um pedaço de calçada soltou-se do chão e juntou-se a ele.Depois ouvi água. Primeiro um fio. Depois um córrego. Não vinha da chuva. Escorria como se ainda conhecesse um caminho que o asfalto esqueceu.Vieram peixes pequenos. Uma jabuticabeira. Um tanque de lavar roupa. Um banco de escola. Um balanço junto com a gangorra do playground aqui perto.Uma senhora passou a mão sobre um portão enferrujado e começou a chorar. Um homem jurou reconhecer o cinema onde encontrou a mulher de sua vida. Outro apontava para um campinho de várzea.Ninguém concordava sobre o que via. Mas todos reconheciam alguma coisa.Foi então que percebi. O novelo não crescia com árvores. Nem com casas. Nem com rios. Crescia com memórias.Cada vez que alguém dizia “eu me lembro”, alguma coisa se enroscava nele. Uma sombra. Uma varanda. O nome de uma rua. O caminho feito a pé. O cheiro de pão vindo de uma padaria que já não existia.No fim da tarde, alguns políticos instalaram um púlpito diante do novelo. Junto com ele, distribuíra santinhos e sorriam em busca de votos. Falaram em renaturalização dos córregos. Em ampliar a cobertura vegetal. Em recuperar o patrimônio. Em devolver a cidade às pessoas.E, enquanto falavam, o novelo continuava crescendo. Uma raiz desprendeu-se do solo. Depois a sombra de uma árvore. Depois uma janela antiga.Atrás do púlpito, a água corria em silêncio. Pela primeira vez me ocorreu que algumas cidades anunciam como futuro aquilo que já possuíram.Ao anoitecer começaram a surgir coisas que ninguém conseguia fotografar. O riso de crianças brincando na rua. Uma conversa entre vizinhos. O sino de uma igreja. O tempo necessário para esperar uma árvore crescer.Olhei novamente para o novelo. Pela primeira vez ele deixou de me parecer um monstro. Talvez estivesse apenas lembrando. Talvez uma cidade também se esqueça. E, quando já não consegue carregar tantas ausências espalhadas, comece a enrolá-las. Devagar. Como fazemos com um fio para que não se perca.Voltei para casa antes de escurecer.Na manhã seguinte, o cruzamento estava vazio. Passei pela calçada da minha rua. O quadrado de terra, local em que a prefeitura autorizou a retirada da árvore, continuava ali. Havia barro na sola do meu sapato.Naquela noite, abri novamente o vídeo da campanha. A bola de cabelos continuava atravessando Nova York. Fechei o vídeo antes do fim.Desde então, nunca mais consegui olhar para aquela imagem sem pensar que toda cidade fabrica, silenciosamente, o seu próprio novelo de ausências. Só não sabemos em que manhã ele decidirá ocupar a rua.Se você tiver alguma sugestão de pauta ou dúvida, acesse meu Instagram @helenadegreas