O crescimento da indústria de games abriu espaço para profissionais que vão muito além do desenvolvimento de jogos. Produção audiovisual, transmissão, criação de conteúdo, eventos e relacionamento com marcas são algumas das áreas que passaram a integrar um mercado cada vez mais profissionalizado, e também mais competitivo.O tema foi discutido no painel “Como se tornar um profissional no disputado mercado de games”, realizado na arena de conteúdo da SET Expo. Participaram da conversa The Darkness, criador de conteúdo, Thiago Bueno e Silvio Pinto, fundadores da Engage XP, reunindo diferentes experiências dentro da indústria.Um dos pontos levantados durante o encontro foi a velocidade das transformações do setor. Segundo os participantes, o horizonte de planejamento diminuiu e pensar em estratégias para os próximos seis meses pode ser mais realista do que tentar prever como o mercado estará em dois anos.De improviso à profissionalizaçãoA realidade era bastante diferente nos primeiros anos dos esports e da produção de conteúdo gamer no Brasil.Os participantes lembraram que o segmento chegou a operar de maneira improvisada, com eventos utilizando conexões compartilhadas e competições inteiras sujeitas a problemas provocados até mesmo por uma atualização inesperada de um jogo.The Darkness, que atua como streamer e criador desde 2012, contou que entrou no setor sem planejamento e precisou aprender sozinho diferentes etapas da produção. O objetivo era elevar gradualmente a qualidade das transmissões.Thiago Bueno também relatou uma entrada pouco convencional. Um dos momentos que o fez perceber o potencial econômico daquele universo aconteceu ao vender um item virtual por R$ 50 mil. Inicialmente, chegou a acreditar que se tratava de um golpe.A partir daí, acompanhou a evolução dos eventos de anime e games e a chegada de projetos comercialmente mais complexos. Segundo ele, cotações maiores e investimentos mais estruturados começaram a aparecer por volta de 2019.Broadcast de games exige conhecimento específicoImagem: Engage XP/ Divulgação A profissionalização também trouxe novos desafios técnicos.Silvio Pinto entrou no setor fazendo a ponte entre profissionais do broadcast tradicional e as necessidades específicas das transmissões de games. Segundo ele, simplesmente transportar os conhecimentos da televisão para os esports não é suficiente.Em um dos eventos citados durante o painel, foram utilizadas mais de 60 câmeras, enquanto uma transmissão de futebol poderia trabalhar com cerca de 20.Outros fatores também tornam a produção mais complexa. Taxas altas de quadros por segundo são particularmente importantes para o público gamer, enquanto os grafismos precisam acompanhar jogos que podem reunir centenas de personagens e informações simultaneamente.Para Silvio, aproximar os dois universos é justamente uma das oportunidades para os próximos anos.O mercado de broadcast ainda não enxerga o tamanho do consumo gamer para entrar como parceiro. Ainda é muito embrionário. Quem entrar primeiro com humildade vai ganhar muito.Não existe fórmula para virar creatorApesar da evolução técnica, os equipamentos profissionais não garantem audiência.Os participantes destacaram que existem criadores capazes de construir grandes comunidades com estruturas simples, enquanto outros possuem equipamentos sofisticados e não conseguem alcançar o mesmo resultado.Encontrar uma comunidade e entender como conversar com ela aparece, portanto, como um dos elementos centrais para quem pretende produzir conteúdo.Thiago resumiu essa lógica durante o painel:É preciso ser mais interessante do que ser interesseiro.Na avaliação do profissional, antes de produzir um conteúdo é necessário compreender com quem, para quem e por que se está falando.Essa relação também precisa ser considerada pelas marcas. Um dos problemas apontados no painel são campanhas que entregam aos creators briefings excessivamente roteirizados, sem considerar a linguagem do canal ou a relação construída com sua audiência.Creator também precisa entender a responsabilidade da própria audiênciaAlessandro, The Darkness, chamou atenção para outro aspecto da profissão: o peso que a fala de um criador pode adquirir conforme sua comunidade cresce.Depois de trabalhar contratando creators para empresas de tecnologia, ele passou para o outro lado do mercado e já conhecia parte das expectativas das marcas. Em uma de suas primeiras experiências, percebeu a influência da própria audiência ao direcionar público para o e-commerce de uma loja de informática.Com o passar dos anos, essa relação também muda. O público cresce junto com o creator, enquanto novas gerações passam a consumir aquele conteúdo.Isso aumenta a responsabilidade sobre o que é dito. Segundo a discussão do painel, criadores podem acabar assumindo até mesmo uma espécie de papel de aconselhamento dentro de suas comunidades, ainda que essa não seja sua função original.Como começar a trabalhar com games?Para quem pretende entrar no setor atualmente, o conselho de The Darkness é não abandonar imediatamente a principal fonte de renda para apostar em uma carreira como creator. Produzir conteúdo inicialmente como hobby permite experimentar formatos enquanto a audiência é construída.Não existe garantia de crescimento rápido. Um clipe pode viralizar e transformar uma carreira, enquanto outros criadores podem levar anos para conquistar espaço.Thiago destacou que diferentes formações profissionais podem encontrar oportunidades na indústria, desde que exista disposição para aprender e evoluir continuamente. Conhecimentos vindos de empresas e mercados tradicionais também podem ser valorizados dentro do setor.A inteligência artificial aparece como mais uma transformação nesse processo. Durante o painel, ela foi definida como uma ferramenta capaz de potencializar o conhecimento de quem já domina determinada atividade, mas não como substituta do conhecimento profissional.Para os participantes, a combinação entre experiência de setores tradicionais e conhecimento da cultura gamer pode abrir novas oportunidades. Mas essa aproximação depende de algo que apareceu repetidamente durante o debate: disposição para aprender com um mercado que continua mudando rapidamente.O post Mercado de games exige profissionais multidisciplinares e adaptação constante, dizem especialistas na SET Expo apareceu primeiro em Olhar Digital.