Ao se hospedar em um hotel de Lisboa, em Portugal, um casal de turistas norte-americanos se deparou com um inseto capaz de transmitir a doença de Chagas. Esse episódio, de agosto de 2025, representou o primeiro registro de um barbeiro vivo encontrado na Europa e resultou em um estudo publicado neste mês na revista científica Parasites & Vectors, com participação do pesquisador Jader de Oliveira, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Araraquara, no interior de São Paulo.Apesar de o bicho não estar infectado pelo parasita Trypanosoma cruzi, causador da doença, a descoberta acende um alerta. “A Europa não possuía registros dessa espécie. Anteriormente, em 2019, um espécime foi encontrado na Espanha, mas ele tinha origem na Ásia e não se tratava de uma espécie transmissora da doença. O principal alerta agora é a necessidade de vigilância constante para entendermos como essas dispersões passivas estão acontecendo”, afirmou Jader. Leia também São PauloUnesp suspende homologação de resultados de novos concursos. Entenda São PauloReitora da Unesp defende aporte fixo para universidades: “Autonomia” São PauloFocado em homens, programa da Unesp visa combater machismo e assédios São PauloPesquisa da Unesp usa nanotecnologia para tratamento contra candidíase O pesquisador identificou a espécie como Hospesneotomae protracta, nativa do sudoeste dos Estados Unidos e do norte do México, especialmente de regiões desérticas da Califórnia, Arizona, Novo México e Texas. Análises genéticas confirmaram a identificação feita inicialmente por características morfológicas.A participação de Jader no artigo foi decisiva para solucionar o caso. “Demonstra a relevância internacional do conhecimento produzido no Brasil sobre triatomíneos [insetos popularmente conhecidos como barbeiros]. O inseto era dos Estados Unidos, a equipe era formada majoritariamente por pesquisadores norte-americanos e, ainda assim, recorreram ao conhecimento desenvolvido na Unesp para identificar a espécie”, disse o cientista.O barbeiro da espécie Hospesneotomae protracta é nativa de regiões áridas e semiáridas do sudoeste dos Estados Unidos e no México Uma das principais hipóteses para explicar como o barbeiro chegou à Europa teria sido o transporte do inseto até Portugal. “Essa espécie é relativamente pequena e acostumada a permanecer escondida em frestas e cavidades. Então, acredito que foi somente um indivíduo adulto que se deslocou da Califórnia em alguma bagagem ou compartimento de carga comercial”, destacou Jader.A Europa não é uma região endêmica para a doença de Chagas, mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que milhares de pessoas infectadas pelo parasita vivem atualmente no continente devido aos fluxos migratórios internacionais. Para o cientista, a descoberta em Lisboa reforça a importância de que o monitoramento não ocorra apenas nas regiões em que os insetos surgem naturalmente.“Foi o conhecimento acumulado ao longo de muitos anos aqui na FCF que permitiu identificar rapidamente esse inseto e compreender a dimensão do que havia acontecido. Sem isso, talvez o caso passasse despercebido”, reconheceu o pesquisador da Unesp.