Entre o mar e as videiras: o legado milenar dos vinhos das ilhas da Itália

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Poucos países possuem uma relação tão íntima entre o vinho e o mar quanto a Itália. Muito antes da unificação italiana, quando a península ainda era um mosaico de reinos, repúblicas e cidades-estado, suas ilhas já serviam como entrepostos comerciais para fenícios, gregos, cartagineses e romanos. Esses povos não apenas levavam vinho em suas embarcações, mas também transportavam mudas de videiras, técnicas agrícolas e conhecimentos de vinificação que acabariam moldando uma das mais antigas tradições vitivinícolas do mundo. Se a Sicília se tornou o grande símbolo dos vinhos insulares italianos, ela está longe de representar sozinha essa extraordinária herança. Ao longo de toda a costa italiana, pequenas ilhas preservaram castas autóctones, métodos agrícolas ancestrais e vinhos que traduzem, de forma quase poética, a influência do Mediterrâneo.Nas ilhas italianas, a videira quase sempre cresce em condições desafiadoras. Solos vulcânicos, graníticos ou calcários, escassez de água doce, encostas abruptas, ventos constantes carregados de sal e forte insolação obrigaram gerações de agricultores a desenvolver técnicas de cultivo que hoje constituem verdadeiros patrimônios culturais. Em praticamente todas elas, a mecanização é impossível. As videiras continuam sendo cuidadas manualmente, muitas vezes em terraços sustentados por muros de pedra erguidos há séculos. Essa viticultura quase heroica explica, em boa medida, por que a produção dessas ilhas permanece relativamente pequena, mas de qualidade excepcional.Entre todas, Pantelleria talvez seja o exemplo mais emblemático dessa convivência entre o homem e uma natureza extrema. Situada entre a Sicília e a costa africana, mais próxima da Tunísia do que de Roma, a ilha possui origem vulcânica e é permanentemente açoitada pelos ventos do Mediterrâneo. Desde tempos fenícios, suas videiras precisaram ser protegidas em pequenas depressões abertas no solo de lava, dando origem ao célebre sistema conhecido como “alberello pantesco”, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A protagonista absoluta é a Zibibbo, nome local da Moscato d’Alessandria, provavelmente introduzida pelos árabes durante sua presença na ilha. Após a colheita manual, parte dos cachos permanece exposta ao sol durante vários dias para concentrar açúcares e aromas antes da fermentação, originando o célebre Passito di Pantelleria. São vinhos de enorme complexidade aromática, onde damasco seco, figos, tâmaras, mel, casca de laranja, ervas mediterrâneas e especiarias convivem em admirável equilíbrio. Harmonizam com foie gras, queijos azuis, doces à base de amêndoas e frutas secas, embora sejam igualmente magníficos degustados sozinhos. Um dos grandes representantes encontrados no Brasil é o Ben Ryé, da Donnafugata.A Sardenha, segunda maior ilha do Mediterrâneo, possui uma identidade completamente distinta. Sua história vitícola antecede inclusive a ocupação romana, sendo profundamente influenciada pelos fenícios e, posteriormente, pelos espanhóis durante séculos de domínio aragonês. Seus solos graníticos e calcários, o clima quente suavizado pelo vento Mistral e a vegetação típica do maquis mediterrâneo oferecem condições ideais para castas perfeitamente adaptadas ao ambiente insular. A Cannonau, considerada por muitos estudiosos uma das expressões mais antigas da Garnacha, produz tintos elegantes, aromáticos e longevos. Já a Vermentino encontrou na ilha talvez sua expressão mais refinada, originando brancos minerais, florais e de extraordinária frescura. Nuragus, Monica, Carignano e Torbato completam um patrimônio varietal exclusivamente mediterrâneo. A colheita combina trabalho manual nas encostas e mecanização nas áreas mais planas, enquanto a vinificação procura preservar equilíbrio, frescor e tipicidade, normalmente utilizando tanques de aço inoxidável para os brancos e amadurecimento moderado para os tintos. Frutos do mar, cordeiro assado, bottarga, queijos de ovelha e embutidos locais encontram nesses vinhos parceiros naturais. Um excelente exemplar disponível no Brasil é o Vermentino di Sardegna Costamolino, da Argiolas.Ao norte da Sicília ergue-se o arquipélago das Eólias, batizado em homenagem a Éolo, deus dos ventos na mitologia grega. As ilhas vulcânicas de Lipari, Salina e Vulcano apresentam paisagens dramáticas, onde vinhedos se espalham por encostas íngremes sustentadas por antigos terraços de pedra. A Malvasia delle Lipari domina a produção e, frequentemente, é complementada pela Corinto Nero. Assim como em Pantelleria, parte das uvas é submetida ao tradicional appassimento, secando naturalmente antes da vinificação para concentrar aromas e açúcares. O resultado são vinhos doces de enorme elegância, marcados por notas florais, frutas cítricas cristalizadas, damascos e mel, embora versões secas da Malvasia também venham despertando crescente interesse internacional. Harmonizam tanto com sobremesas delicadas quanto com queijos curados e foie gras. No mercado brasileiro é possível encontrar, ainda que esporadicamente, a Malvasia delle Lipari da Caravaglio.No Golfo de Nápoles, Ischia guarda uma das histórias mais antigas da viticultura italiana. Foi justamente ali que colonizadores gregos estabeleceram, no século VIII a.C., uma das primeiras colônias helênicas do Ocidente, levando consigo videiras e técnicas de cultivo que posteriormente se difundiriam pela península. Seus solos vulcânicos extremamente férteis, aliados às brisas marítimas constantes, favorecem principalmente as castas Biancolella e Forastera, responsáveis por brancos elegantes e minerais, enquanto Piedirosso e Guarnaccia originam tintos leves e delicados. Os vinhedos ocupam pequenas encostas, tornando inevitável a colheita manual. A vinificação privilegia fermentações em aço inoxidável para preservar a pureza aromática das uvas. Os vinhos apresentam grande afinidade gastronômica com peixes grelhados, mariscos, massas leves e culinária mediterrânea. Entre os rótulos encontrados no Brasil destaca-se o Ischia Biancolella da Casa D’Ambra.Capri talvez seja mais conhecida por seus penhascos e pela célebre Gruta Azul do que por seus vinhos. Entretanto, desde o período romano, quando o imperador Augusto transformou a ilha em residência imperial e Tibério ali governou durante anos, pequenas áreas vinícolas abasteciam a corte instalada sobre os rochedos. Hoje, os poucos vinhedos sobreviventes cultivam principalmente Falanghina, Greco, Biancolella e pequenas parcelas de Piedirosso. Os solos calcários e vulcânicos, constantemente ventilados pelo mar Tirreno, favorecem vinhos extremamente frescos, delicados e salinos. As fermentações ocorrem, em regra, em tanques de aço inoxidável, privilegiando a expressão varietal. Ostras, lulas, camarões, peixes grelhados e saladas mediterrâneas representam harmonizações quase obrigatórias. O Capri Bianco da Scala Fenicia figura entre os poucos rótulos ocasionalmente importados para o Brasil.Mais ao norte, a ilha de Elba leva consigo uma das histórias mais célebres da Europa, por ter servido de exílio a Napoleão Bonaparte em 1814. Muito antes disso, porém, etruscos e romanos já exploravam seus solos ricos em minerais e cultivavam videiras em suas encostas voltadas para o mar. A Ansonica domina os vinhos brancos, enquanto Sangiovese, Procanico e Aleatico completam o quadro varietal. Este último dá origem ao prestigiado Aleatico Passito dell’Elba, elaborado com uvas parcialmente desidratadas antes da fermentação, produzindo vinhos doces intensamente aromáticos, com notas de rosas, frutas vermelhas maduras, especiarias e chocolate. Os brancos harmonizam perfeitamente com pescados, enquanto o passito acompanha sobremesas à base de chocolate amargo ou frutas vermelhas. Um dos melhores exemplares encontrados no Brasil é o Aleatico Passito dell’Elba da Acquabona.Quase desconhecida fora da Itália, Giglio talvez seja a expressão mais pura da chamada viticultura heroica. Seus vinhedos distribuem-se em minúsculos terraços escavados sobre rochas graníticas voltadas para o mar, onde praticamente todo o trabalho continua sendo realizado à mão. A vegetação de arbustos aromáticos da mata mediterrânea perfuma naturalmente o ambiente, enquanto a maresia participa discretamente da identidade dos vinhos. Predomina a Ansonica, conhecida em outras regiões como Inzolia, cultivada com rendimentos muito baixos. A vinificação é deliberadamente pouco intervencionista, buscando preservar a pureza da fruta e a impressionante mineralidade proporcionada pelos solos graníticos. São vinhos delicados, elegantes e persistentes, perfeitos para acompanhar lagostas, camarões, peixes grelhados e moluscos. Embora raríssimos, exemplares da Altura Vigneto aparecem ocasionalmente no mercado brasileiro por meio de importadores especializados.Conhecer os vinhos dessas ilhas significa compreender que a viticultura italiana não nasceu apenas nos grandes vales continentais ou nas regiões hoje mais famosas, mas também nesses pequenos fragmentos de terra espalhados pelo Mediterrâneo, onde cada safra continua sendo produzida com uma combinação admirável de tradição, engenhosidade e respeito à natureza. São vinhos que carregam consigo a memória dos navegadores fenícios, dos colonizadores gregos, dos agricultores romanos e das comunidades que, ao longo de séculos, aprenderam a transformar condições aparentemente adversas em uma das mais fascinantes expressões do vinho europeu. Ao descobri-los, o apreciador percebe que existe uma Itália vinícola muito além da Sicília: uma Itália insular, histórica e profundamente mediterrânea, cuja autenticidade permanece preservada em cada garrafa.  Salut!