O CME Group, maior mercado de derivativos do mundo, quer usar dinheiro tokenizado para reduzir uma ineficiência que ainda acompanha grandes instituições financeiras: a necessidade de deixar capital parado enquanto transferências de margem, colateral e liquidação aguardam os horários e ciclos do sistema bancário tradicional.Em entrevista ao Portal do Bitcoin, Giovanni Vicioso, head global de produtos de criptomoedas do CME Group, afirmou que a solução desenvolvida em parceria com o BMO e o Google Cloud permitirá que clientes atendam chamadas de margem e obrigações de liquidação em tempo real.Segundo ele, o objetivo é fazer com que o dinheiro possa circular continuamente dentro desses processos, em vez de depender de janelas bancárias.“Ao trabalhar com BMO e Google Cloud para tokenizar dinheiro no CME Clearing, vamos permitir que nossos clientes cumpram exigências de margem e obrigações de liquidação em tempo real, liberando capital que, de outra forma, teria de esperar pelos ciclos bancários tradicionais”, afirmou Vicioso.O projeto utiliza o Google Cloud Universal Ledger (GCUL), infraestrutura de registro distribuído desenvolvida pelo Google Cloud. A parceria começou a ser testada pelo CME ainda em 2025, inicialmente com foco em pagamentos de atacado e tokenização de ativos.Em março deste ano, o BMO entrou na iniciativa como primeiro banco a oferecer a solução de dinheiro tokenizado do CME sobre o GCUL. O desenho prevê que clientes institucionais convertam dólares em um instrumento digital que possa ser utilizado para operações com produtos sujeitos a margem no CME. A oferta foi planejada para chegar ao mercado no segundo semestre de 2026, dependendo de aprovação regulatória.Na prática, a diferença aparece principalmente fora do horário bancário. Uma instituição que precise movimentar recursos para atender uma exigência de margem durante a noite ou no fim de semana pode enfrentar limitações mesmo quando o mercado em que está negociando continua funcionando. Com o dinheiro tokenizado, a intenção é permitir que o valor seja transferido 24 horas por dia.Para o CME, isso ganha importância à medida que os próprios mercados caminham para períodos maiores de negociação. Desde maio, por exemplo, futuros e opções de criptomoedas do grupo passaram a ser negociados 24 horas por dia, sete dias por semana, com apenas uma janela semanal de manutenção. No primeiro fim de semana do novo modelo, mais de 7,2 mil contratos foram negociados, equivalentes a cerca de US$ 50 milhões em valor nocional.Tokenização passa a atacar a infraestrutura por trás das negociaçõesO projeto mostra uma mudança importante na maneira como grandes instituições vêm tratando a tokenização. Em vez de se limitar à criação de versões digitais de ações, títulos ou fundos, a tecnologia começa a ser aplicada justamente ao dinheiro e ao colateral que sustentam o funcionamento dos mercados.Margem é o valor que participantes precisam manter como garantia para cobrir riscos de suas posições. Em mercados de derivativos, mudanças bruscas de preço podem gerar chamadas adicionais de margem, exigindo que instituições enviem mais recursos à clearing house.Quando o ativo usado para cumprir essa obrigação depende de transferências bancárias tradicionais, parte do dinheiro precisa ser posicionada antecipadamente para evitar que uma instituição fique sem acesso aos recursos justamente quando precisar deles.É esse capital imobilizado que o CME pretende reduzir.A própria companhia afirma que o dinheiro tokenizado permitirá movimentar valor continuamente para três funções centrais: margem, colateral e liquidação. O BMO também pretende desenvolver depósitos tokenizados para usos mais amplos, incluindo pagamentos entre empresas, movimentações de tesouraria e aplicações com dinheiro programável.Isso não significa, pelo menos neste estágio, substituir o dólar bancário por uma criptomoeda descentralizada. O modelo está sendo construído dentro de uma infraestrutura permissionada e ligada a instituições financeiras reguladas.Ainda assim, a lógica aproveita uma das características que fizeram stablecoins ganhar espaço no mercado cripto: a possibilidade de movimentar uma representação digital do dinheiro sem ficar restrito aos horários tradicionais do sistema bancário.Vicioso vê essa aproximação como parte de uma tendência mais ampla. Segundo ele, cresce a demanda por mercados 24/7, ativos tokenizados e contratos inteligentes, enquanto a interoperabilidade entre empresas de finanças tradicionais e de finanças descentralizadas deve ser um dos movimentos importantes a acompanhar nos próximos anos.O executivo descreveu esse cenário como uma combinação cada vez maior entre TradFi e DeFi, sem necessariamente prever que uma estrutura substituirá a outra.Regulação ainda é principal barreira para instituiçõesApesar do avanço tecnológico, Vicioso considera que o maior obstáculo para instituições aumentarem sua exposição a ativos digitais ainda está fora da tecnologia.“Em todo o mundo, o maior desafio para as instituições é administrar a incerteza em torno dos marcos legais”, afirmou.Segundo ele, a maior clareza regulatória observada nos Estados Unidos vem ajudando a estabelecer confiança, protocolos de privacidade e infraestrutura para que grandes participantes avancem nesse mercado. Na avaliação do executivo, uma trajetória semelhante em outras jurisdições tende a ampliar a adoção global dos ativos digitais.O movimento ocorre ao mesmo tempo em que o CME amplia rapidamente sua presença no mercado cripto. Em 2025, os futuros e opções de criptomoedas da companhia movimentaram US$ 3 trilhões em valor nocional, segundo o próprio grupo.Neste ano, a empresa levou a negociação desses derivativos para o regime 24/7 e aumentou o número de ativos oferecidos. Depois de produtos ligados a Bitcoin e Ethereum, o CME avançou para criptomoedas como Solana, XRP, Cardano, Chainlink e Stellar e anunciou neste mês futuros de Bitcoin Cash e Uniswap, com lançamento previsto para outubro, sujeito à revisão regulatória.Vicioso, porém, disse que essa expansão não significa que todos os produtos que prosperaram no mercado cripto nativo necessariamente encontrarão demanda entre os clientes institucionais do CME. Ele citou como exemplo os futuros perpétuos, responsáveis por enorme parcela das negociações em plataformas cripto.Segundo o executivo, os clientes institucionais do CME ainda não demonstraram apetite por esse tipo de derivativo. Caso essa demanda apareça, porém, a companhia está preparada para avaliá-la.A tokenização do dinheiro segue uma lógica diferente: em vez de simplesmente reproduzir um produto criado pelo mercado cripto, o CME pretende usar a tecnologia para atacar uma limitação de sua própria infraestrutura. Se funcionar como planejado, o ganho estará menos em criar um novo ativo para negociação e mais em fazer com que o capital usado para sustentar essas negociações consiga se mover na mesma velocidade de mercados que já não param nos fins de semana.Se você quer investir em criptomoedas com segurança, o Mercado Bitcoin oferece um benefício especial aos nossos leitores: use o cupom PORTAL250 no cadastro e ganhe R$ 50 de bônus em Bitcoin ao comprar R$ 250 em ativos. 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