A inteligência artificial pode fazer uma equipe produzir mais sem necessariamente fazer a empresa crescer. Essa foi uma das principais provocações de Pedro Sobral, especialista em tráfego pago, durante o D2C Summit, evento da Nuvemshop realizado em São Paulo nesta quarta-feira (30).O contraste aparece também nos dados. Pesquisa global da McKinsey mostra que 80% dos entrevistados perceberam ganhos de produtividade com IA, mas apenas 37% disseram que a tecnologia teve impacto positivo no resultado operacional das empresas.Para Sobral, o problema está em começar pela ferramenta, e não pela necessidade do negócio.“Muitas vezes você não ficou mais produtivo, você simplesmente ficou mais ocupado”, afirmou durante a apresentação “O novo jogo do tráfego pago: como usar IA para ganhar escala com estratégia”.Conheça a IA para Líderes, da XP Educação, e prepare-se para aplicar inteligência artificial com visão estratégica.Antes da IA, descubra o gargaloA inteligência artificial já faz parte da operação de muitas empresas. No Brasil, 50% das companhias utilizam a tecnologia, o equivalente a cerca de 12 milhões de negócios, segundo estudo da Strand Partners para a Amazon Web Services (AWS).O estágio de adoção, porém, ainda é desigual: 58% das empresas estão em um nível básico de uso, enquanto 15% chegaram ao estágio avançado, em que a IA é utilizada para transformar ou criar modelos de negócio.Para Sobral, esse cenário reforça a necessidade de mudar a pergunta. Em vez de “onde posso colocar IA?”, a empresa deveria começar por “o que está impedindo meu negócio de crescer?”.“Eu posso colocar inteligência artificial em absolutamente todos os lugares do meu negócio. Mas eu tinha que me perguntar: qual que é o meu gargalo? O que que está me impedindo de crescer?”, disse.A lógica é simples: primeiro identificar a restrição; depois avaliar se a IA pode ajudar a resolvê-la.Os dados da Deloitte apontam para outro desafio dessa adoção. Apenas 23% das empresas brasileiras pesquisadas conseguiram levar 40% ou mais de seus projetos-piloto de IA para a operação.Leia também: “É a coisa mais perigosa da qual humanos já chegaram perto”, diz Bill Gates sobre IAMais tráfego não significa mais crescimentoSobral usou o e-commerce para mostrar por que aumentar a aquisição nem sempre resolve um problema de crescimento.Entre o anúncio e a compra, existem várias etapas: clique, carregamento do site, navegação, página do produto, carrinho, checkout e pagamento. Em cada uma delas, parte dos potenciais clientes pode abandonar a jornada.O especialista compara a operação a um “balde furado”: a empresa coloca recursos e tráfego de um lado, mas perde parte das oportunidades ao longo do processo.“Às vezes o seu problema não está em mais visibilidade. O seu furo está em outro lugar”, afirmou.Se o principal problema estiver na conversão, no ticket médio, no checkout, no frete, no pagamento ou no atendimento, aumentar o investimento em mídia pode ampliar o volume de pessoas chegando ao negócio sem resolver a etapa em que as vendas estão sendo perdidas.O mesmo vale para o pós-venda. Uma empresa pode ter uma boa aquisição, mas limitar seu crescimento por problemas de entrega, atendimento, relacionamento ou recompra.“Depois de um tempo não adianta eu só colocar mais água para dentro. Eu preciso otimizar isso”, disse.Produtividade não é fazer mais. É chegar mais perto da metaPara Sobral, o conceito de produtividade também precisa ser ligado ao resultado esperado.“Produtividade é tudo aquilo que te aproxima da sua meta”, afirmou.A definição ajuda a explicar por que a IA pode criar uma falsa sensação de avanço. Produzir mais anúncios, textos, imagens, relatórios ou análises aumenta o volume de trabalho, mas não necessariamente melhora o resultado do negócio.A pesquisa da McKinsey mostra essa diferença: enquanto 80% dos entrevistados relatam ganhos de produtividade pessoal com IA, apenas 37% percebem impacto positivo no EBIT de suas organizações.Por isso, segundo Sobral, o desafio não é simplesmente fazer mais em menos tempo.“Não é sobre eu fazer mais. É sobre eu colocar o tempo no lugar certo, a minha energia no lugar certo”, afirmou.Leia mais: Robôs “treinadores” são a nova tendência da IA no mercado de esporte; veja vídeoComo identificar o que realmente trava o negócioDepois de definir a meta, a empresa precisa descobrir qual ponto da operação mais limita seu avanço.Durante a palestra, Sobral apresentou oito possíveis pontos de restrição em negócios digitais: nicho e público; produto, oferta e marca; aquisição; experiência de compra e recompra; arquitetura de receita; gestão; e visão sistêmica.A ideia não é tentar corrigir tudo ao mesmo tempo.“Você pode ter muitos problemas, mas nem todo problema é um gargalo”, afirmou.Um problema é algo que poderia funcionar melhor. O gargalo é aquilo que, naquele momento, mais restringe o desempenho do sistema.Uma loja, por exemplo, pode interpretar a baixa quantidade de vendas como um problema de aquisição. Mas a investigação pode mostrar que a comunicação não está chegando ao público certo, que a oferta não está adequada ao posicionamento ou que o produto não atende à demanda esperada.A recomendação é investigar a causa antes de agir, perguntando sucessivamente “por quê?” até chegar ao ponto que realmente está comprometendo o resultado.Depois, vem uma segunda questão: se esse problema fosse resolvido amanhã, o resultado global do negócio melhoraria de forma significativa?Se a resposta for não, talvez aquele não seja o gargalo prioritário.Leia também: Qual a melhor IA para programação? Veja as opções para cada objetivoOnde a IA entra nessa equaçãoÉ nesse momento que a inteligência artificial pode ganhar uma função mais estratégica.Se o gargalo estiver na produção de conteúdo, a IA pode acelerar determinadas etapas. Se estiver na análise de campanhas, pode ajudar a interpretar dados. Se estiver na experiência do cliente, pode apoiar atendimento e personalização.Mas a tecnologia não define, sozinha, onde esses recursos devem ser aplicados.“Se eu coloco tempo, se eu coloco esforço no gargalo, eu estou multiplicando todo o meu sistema. Agora, se eu coloco tempo, se eu coloco esforço fora do gargalo, eu estou multiplicando a bagunça”, afirmou Sobral.A questão, portanto, não é quantas ferramentas de IA uma empresa consegue implementar, mas em quais processos elas podem gerar impacto real.O risco de ficar mais ocupado com IAA inteligência artificial reduziu o tempo necessário para uma série de tarefas. Criar imagens, produzir textos, analisar informações, pesquisar concorrentes e organizar dados ficou mais rápido.O problema é que velocidade de execução não é sinônimo de resultado.“Você vai sair daqui talvez com uma lista interminável de coisas que você tem que fazer, que vão te manter ocupado pelos próximos seis meses, que vão te manter com uma sensação de produtividade”, afirmou Sobral.Em um cenário em que produzir mais ficou mais fácil, a vantagem pode estar menos em encontrar a próxima ferramenta de IA e mais em identificar qual problema precisa ser resolvido primeiro.“A pior coisa que você pode ter é a sensação de que você está sendo produtivo, mas não está caminhando em direção da sua meta”, resumiu.Para líderes que querem ir além do uso pontual da tecnologia, a IA precisa entrar na estratégia, nos processos e nas decisões do negócio.The post “IA pode deixar sua empresa mais ocupada, não mais eficiente”, afirma especialista appeared first on InfoMoney.