Carros movidos exclusivamente a etanol representam um avanço para o biocombustível ou um retrocesso diante dos modelos flex e elétricos?Para representantes do Pecege e da Evolua Etanol, a alternativa pode ampliar as opções do consumidor e estimular a cadeia produtiva. Já na avaliação de Filipi Cardoso, especialista de agro do Bradesco — Pesquisa Econômica, o fator decisivo será a vantagem financeira para o motorista.O assunto foi discutido durante o painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, da 9ª Conferência Nova Cana. Uma pergunta da audiência colocou em debate se eventuais incentivos do governo a veículos exclusivos a etanol representariam um passo atrás.“Eu acho que não seria um retrocesso, mas é mais uma opção”, afirmou João Rosa, sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos.Na avaliação dele, oferecer um modelo abastecido somente com o biocombustível amplia as possibilidades de escolha e pode incentivar uma atividade que gera emprego, renda e arrecadação, especialmente nos municípios ligados à produção.Pecege: o consumidor precisa ter opçãoRosa defendeu que o debate considere os efeitos econômicos da cadeia do etanol e a liberdade de decisão do comprador.“Eu acho que a gente tem que dar a opção para o consumidor escolher o que ele quer”, disse.Para o executivo, municípios cuja economia está ligada ao setor têm razões para estimular o uso do combustível, já que parte dos benefícios dessa atividade retorna à própria região.Ele ponderou, porém, que o carro flex já oferece uma ferramenta importante para aumentar a demanda. Segundo a estimativa citada por Rosa no painel, apenas um terço dos usuários abastece com etanol, enquanto os outros dois terços utilizam gasolina.Assim, além de desenvolver veículos exclusivos, o setor tem o desafio de conquistar motoristas que já podem escolher o biocombustível, mas continuam optando pelo combustível fóssil.A continuidade dos modelos 100% a etanol, na visão do executivo, dependeria da aceitação comercial. Se a proposta não encontrar compradores, tende a perder força. Caso seja bem-sucedida, pode estimular outras montadoras a seguir o mesmo caminho.Bradesco: o bolso vai decidirCardoso colocou a conta do consumidor no centro da discussão. Para o especialista do Bradesco, os incentivos públicos podem influenciar a escolha, mas o motorista tende a optar pela alternativa que ofereça maior vantagem financeira.Essa lógica, segundo ele, vale para diferentes tecnologias: elétricos, híbridos e veículos abastecidos exclusivamente com etanol ou gasolina.“Eu acho que o bolso é o que vai ditar no final como que esse setor vai caminhar”, afirmou.O economista também destacou um aspecto fiscal. Na avaliação dele, a eletrificação da frota reduz as vendas de combustíveis e a arrecadação associada a esse consumo, uma questão que precisa entrar no debate sobre políticas de incentivo.Já um veículo movido exclusivamente a etanol mantém a demanda pelo combustível e os tributos ligados ao abastecimento. A observação se refere à arrecadação sobre combustíveis, sem representar uma comparação completa dos impostos envolvidos em cada tecnologia.Para o motorista, contudo, Cardoso avalia que a decisão continuará passando pelo impacto da escolha no orçamento.Evolua: ‘Retrocesso é 100% combustível fóssil’Alexandre Zebulun, diretor comercial da Evolua Etanol, reconheceu que veículos com diferentes possibilidades de abastecimento e recarga estão associados à ideia de modernidade. Ainda assim, defendeu a oferta de modelos exclusivos a etanol como uma oportunidade de ampliar o mercado do biocombustível.“Retrocesso é 100% combustível fóssil, na minha opinião”, afirmou.Para o executivo, colocar no mercado um veículo que estimule as vendas de etanol é uma iniciativa favorável ao setor.