Vídeos falsos usando voz e imagem de figuras conhecidas dispararam nas redes sociais nas últimas semanas, especialmente com a chegada das eleições. Casos recentes mostram a força da inteligência artificial (IA) nesse movimento – ela é capaz de inventar declarações políticas, alterar áudios e criar cenas tão realistas que enganam facilmente quem está rolando a tela do celular.Essa tática explora a influência de pessoas populares para dar credibilidade a conteúdos inventados. Dessa forma, nomes de grande alcance passam a integrar manipulações que combinam elementos reais e falsos para enganar o público.As deepfakes avançadas manipulam rostos e vozes com alta perfeição, dificultando muito a verificação de informações falsas pelo eleitor. – Crédito: Imagem gerada por IAA IA a serviço do debate político enganosoUm dos exemplos envolve Caetano Veloso e Neymar Jr. No caso do cantor, circula no TikTok uma gravação criada para parecer que ele disse que “Lula salvou este país do ódio” e defendeu a continuidade do governo em 2026. Trata-se de uma montagem enganosa, pois o cantor não deu essa declaração.A falsificação explorava elementos verdadeiros para ganhar aparência de autenticidade. Caetano realmente participou, em 2026, de um material de campanha de Lula no qual artistas aparecem dizendo “Bora, Lula!”. No vídeo falso, entretanto, a imagem do cantor foi reaproveitada e recebeu um novo áudio, produzido com auxílio de IA, com palavras que ele nunca pronunciou. A própria assessoria de Caetano confirmou à DW que o conteúdo era falso.Com Neymar, a estratégia foi semelhante, mas com viés político oposto. Um vídeo manipulado fazia o jogador afirmar que estava acompanhando uma suposta perseguição contra Jair Bolsonaro e que Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes estariam “com medo da força do presidente”. A declaração também nunca foi feita pelo jogador. O vídeo aproveitou a imagem do atleta para atribuir a ele uma manifestação política que não ocorreu.Nesse caso, também havia um elemento real que ajudava a dar aparência de autenticidade à falsificação. Neymar declarou voto em Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 e, em 2026, apareceu em uma fotografia verdadeira autografando uma camisa da Seleção Brasileira para Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e candidato à Presidência. A imagem real, no entanto, não comprova que o jogador tenha feito a declaração política apresentada no vídeo falso.A combinação entre fatos verdadeiros e conteúdo fabricado é um dos aspectos que tornam esses casos particularmente difíceis de identificar. Quem já sabe que Caetano participou de uma campanha de Lula ou que Neymar teve uma relação pública com Jair Bolsonaro pode considerar o vídeo “plausível” antes mesmo de verificar sua origem. A mistura dificulta a checagem porque o conteúdo falso se apoia em fatos que o público já sabe serem verdadeiros.Infográfico mostra como conteúdos falsos ganham credibilidade ao misturar fatos reais, manipulações por IA e elementos inventados. – Crédito: Imagem gerada por IAFraudes comerciais, fotos falsas e a regulamentação do TSEO uso de imagens e vozes de pessoas conhecidas não se limita à propaganda política. Tony Ramos também foi vítima da deepfake, conforme noticiado pelo Olhar Digital. Em participação recente no programa Roda Viva, da TV Cultura, o ator contou que sua imagem havia sido usada em um vídeo falso ao lado de Ana Maria Braga para vender um medicamento. Segundo o relato, sua fala foi dublada e usada para dar aparência de autenticidade a uma publicidade que ele não havia feito.Também circulou nos últimos dias uma imagem falsa de Alexandre de Moraes e Edson Fachin, também ministro do STF. A publicação sugeria que eles estivessem discutindo, mas a imagem foi gerada por IA, segundo plataformas de checagem de fatos. O episódio mostra que a manipulação não depende necessariamente de vídeo: uma fotografia também pode construir uma situação inexistente e produzir uma narrativa enganosa.A Resolução 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que conteúdos sintéticos produzidos ou manipulados por IA devem ser identificados quando usados na propaganda. A norma também proíbe, na propaganda eleitoral, deepfakes que criem, substituam ou alterem a imagem ou a voz de pessoas para favorecer ou prejudicar candidaturas. No começo de setembro, o TSE ainda fixou critérios para definir esse tipo de conteúdo.Segundo o órgão, deepfake é o conteúdo sintético gerado ou alterado por inteligência artificial ou tecnologia equivalente, com alto grau de realismo, capaz de criar, reproduzir ou modificar imagem, voz ou declaração de qualquer pessoa – viva, falecida ou fictícia. Pelo entendimento fixado, a proibição expressa da ferramenta vale para conteúdos configurados como propaganda eleitoral.A IA não eliminou as técnicas antigas de manipulação. Vídeos reais continuam sendo retirados de contexto, cortados ou combinados com outros áudios para criar situações que nunca aconteceram. Checagem do UOL Confere publicada nesta quarta-feira (30) revelou a manipulação em um vídeo antigo que mostra um homem atacando um padre no Rio de Janeiro, em 2022.Na gravação original, a agressão ocorreu após um desentendimento pessoal; na versão adulterada que circulou esta semana, o áudio original foi substituído por uma fala sobre soberania nacional. A edição simulava que o religioso havia sido agredido por motivação política – corte fora de contexto que acumulava mais de 100 mil visualizações no Facebook até a publicação da matéria.Cuidados simples para reconhecer conteúdos manipulados, evitar golpes e interromper a disseminação de informações falsas nas redes sociais. – Crédito: Imagem gerada por IAAumento de deepfakes impulsiona desinformação e golpes no BrasilDados do Primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, publicado pela Agência Lupa em fevereiro, mostram que os conteúdos falsos gerados ou manipulados com IA identificados nas checagens da organização passaram de 39, em 2024, para 159, em 2025 – alta de 308%. E um estudo recém-divulgado pela Ekō, organização internacional de responsabilidade corporativa, identificou ao menos R$1,1 milhão pagos por 26 perfis para impulsionar anúncios eleitorais que, segundo a pesquisa, violavam regras da Meta e a legislação brasileira, incluindo deepfakes sem identificação.A mesma combinação de imagem manipulada, conteúdo político e aparência de notícia também pode ser usada para algo além da desinformação: aplicar golpes financeiros. Recentemente, imagens geradas por IA e a simulação de um portal de notícias sugeriam que o empresário Luciano Hang, proprietário das lojas Havan, teria sofrido um “atentado” a mando do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, atual candidato ao governo de SP pelo PT.A história apelava para a rivalidade política para direcionar o público a um site falso com promessa de lucros de até R$10 mil por dia, no qual os usuários eram induzidos a fazer depósitos ou fornecer dados pessoais.Com a inteligência artificial, criminosos conseguem manipular rostos e vídeos, criando conteúdos falsos que podem se passar facilmente por autênticos nas redes sociais. – Crédito: Tero Vesalainen/ShutterstockWilder Martins, especialista em cibersegurança da EXA, desenvolvedora de soluções contra ameaças virtuais, reforça que a tecnologia atualmente simula a realidade com perfeição, cria links e sites falsos, muito semelhantes aos originais. “Por isso, a principal barreira de defesa mudou: a pergunta não deve ser mais apenas ‘isso parece verdadeiro?’, mas sim ‘por que estão me pedindo para clicar em um link, fornecer um dado sensível ou fazer uma transferência?’”.Como identificar conteúdos manipulados e evitar armadilhas Segundo Martins, a mesma estrutura pode ser adaptada para diferentes temas que ganham relevância durante o período eleitoral. A maior circulação de informações políticas cria novas oportunidades para criminosos explorarem nomes de candidatos, autoridades, instituições e veículos de comunicação. Entre as possibilidades estão mensagens sobre título de eleitor, biometria, local de votação, pesquisas eleitorais, falsas multas, arrecadações de campanha e conteúdos manipulados com voz ou imagem de figuras públicas.“Se a mensagem cria uma emergência (seja para evitar um bloqueio, garantir um direito ou cobrar um pagamento), pare imediatamente”, alerta o especialista. “Esse é o gatilho clássico da fraude. A sua principal defesa é não seguir o atalho oferecido pelo golpista. Feche a mensagem e acesse ferramentas e softwares de verificação, distribuídas de forma paga e gratuita, como a EVA [inteligência artificial da EXA que analisa conteúdos suspeitos pelo WhatsApp] para confirmar a informação antes de realizar qualquer transação”.Com o avanço da IA, identificar uma fraude apenas pelos sinais visuais ou sonoros ficou mais difícil. Falhas que antes entregavam algumas manipulações são menos evidentes, e a verificação precisa ir além da aparência do conteúdo. Em vez de procurar apenas defeitos visuais, a orientação é checar o rastro do conteúdo: confirmar se a pessoa realmente deu aquela declaração em canais oficiais, verificar se veículos de imprensa noticiaram o fato e desconfiar de vídeos polêmicos que circulam sem origem clara.O post Caetano, Neymar e Tony Ramos: IA transforma famosos em armas de desinformação e golpes financeiros apareceu primeiro em Olhar Digital.