Que capital humano para o futuro? 

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A vida em sociedade tem vindo a organizar-se em “bolsas de conveniência”, alavancadas por algoritmos que conhecem os nossos comportamentos, antecipam preferências e seleccionam a informação apresentada. Esta personalização tem vantagens, mas encerra também riscos: os algoritmos podem vigiar, isolar e extremar emocionalmente os seus utilizadores, criando ambientes de confirmação permanente das próprias convicções e reduzindo a exposição ao debate construtivo.  O défice de empatia A este fenómeno acresce uma percepção crescente de défice de empatia, sobretudo evidente no período pós-COVID. A desmaterialização do relacionamento presencial – mais teletrabalho, mais utilização de écrans, do trabalho ao lazer, preferência pela comunicação escrita em detrimento da comunicação de viva voz, acesso a entretenimento infinito e excesso de doom-scrolling, – tem criado condições favoráveis para o enfraquecimento das competências relacionais. Não se trata de rejeitar a tecnologia ou o trabalho remoto. Trata-se de reconhecer que determinadas competências humanas exigem prática. Escutar, interpretar uma expressão facial, perceber um silêncio, negociar uma divergência, gerir uma emoção ou criar confiança são capacidades que se desenvolvem através da interacção. O paradoxo é particularmente visível nos meios urbanos: pessoas rodeadas por centenas ou milhares de outras pessoas, que experienciam solidão, isolamento e uma reduzida percepção de pertença e protecção grupal. As competências do futuro poderão ser (também) as do passado  Neste contexto, algumas competências assumirão uma importância crescente:  Comunicação e relacionamento interpessoal, incluindo escuta activa, empatia, assertividade e capacidade de criar confiança. Gestão das emoções (próprias e alheias), sobretudo em situações de pressão, conflito ou incerteza. Negociação e construção de acordos, transformando divergências em soluções possíveis e sustentáveis. Resiliência, entendida como capacidade de enfrentar obstáculos, aprender com os erros e manter o foco na construção de soluções. Autonomia cognitiva perante o “facilitismo” da Inteligência Artificial, uma competência nova e decisiva.Esta última merece particular atenção. Os agentes de IA irão facilitar de forma significativa as tarefas de análise e processamento de informação e o delineamento de soluções possíveis, mas não deverão substituir a intervenção humana na reflexão ponderada, na avaliação ética das consequências e na construção balanceada de soluções. Se quisermos manter uma formatação humana das organizações e da sociedade, a resistência ao facilitismo “oferecido” pela IA será uma competência-chave na construção do futuro! Manter a capacidade de pensar com profundidade e sentido crítico, lidar com a dúvida, tolerar a angústia da possibilidade, questionar respostas aparentemente certas e tomar decisões por sipróprio serão competências essenciais no controlo dos eventuais desmandos da IA. O novo capital humano será, assim, menos uma questão de acumular conhecimento e mais uma questão de preservar e desenvolver aquilo que nos permite ser humanos entre humanos: relacionar, compreender, negociar, decidir e assumir responsabilidade pelas escolhas. Num futuro cada vez mais automatizado, talvez a verdadeira vantagem competitiva não esteja em fazer mais depressa aquilo que uma máquina já consegue fazer, mas em continuar a fazer bem aquilo que exige presença, consciência, empatia, discernimento, sentido crítico, memória e determinação para decidir, aceitando os riscos e as dúvidas inerentes.  Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo Que capital humano para o futuro?  aparece primeiro em Revista Líder.