O que aconteceria a uma sociedade centrada na tecnologia e nos bens materiais se a ciência demonstrasse que a consciência sobrevive, afinal, à morte física? Esta foi a pergunta basilar que guiou a conversa entre o humorista António Raminhos e Luís Portela, presidente da Fundação BIAL, na Leadership Summit Portugal. A Conversa Depois do Amanhã foi o momento final da 10ª edição da cimeira que aconteceu no dia 24 de setembro de 2026, no Casino Estoril.Mas debater a continuidade da consciência é mais do que um dilema filósofico. Traz também à tona reflexões sobre as prioridades humanas. Para Portela, a possibilidade de uma continuidade para além da vida física obrigaria a repensar a relação com os bens, com o poder e com os outros. Uma hipótese em que acredita, mas que, como reconheceu no final da conversa, ainda não está cientificamente demonstrada – ainda que existam já muitas provas a seu favor.Luís Portela, presidente da Fundação BIALDo «ter» e do «parecer» ao aperfeiçoamento«A sociedade hoje vive muito focada na materialidade das coisas, muito focada no ter, muito focada no parecer», observou Luís Portela. Na sua perspetiva, uma demonstração científica da sobrevivência da consciência provocaria uma mudança de paradigma. Aquilo que se acumula durante a vida perderia centralidade perante a ideia de que os bens ficam para trás, enquanto a responsabilidade pelos próprios atos poderia adquirir outro significado.O propósito deixaria, então, de estar apenas na sobrevivência e passaria a orientar-se para o aperfeiçoamento. Portela descreveu esse caminho como a vontade de «ser hoje melhores do que éramos ontem» e de criar condições para melhorar no dia seguinte.Essa transformação teria consequências na relação com os outros seres humanos, mas também com os animais e a natureza. O objetivo, defendeu, seria aprender a viver «com os outros seres, humanos e não humanos, e não contra».Veja a conversa compelta:Luís Portela, António Raminhos – Depois do AmanhãConsciência e experiências de quase morte: entre a investigação e a convicçãoQuestionado por Raminhos sobre se acredita que a ciência chegará a esclarecer a natureza da consciência, Portela respondeu afirmativamente. Para sustentar essa convicção, evocou investigações sobre experiências de quase morte e relatos de crianças que dizem recordar supostas vidas passadas.Referiu, em particular, o trabalho iniciado por Ian Stevenson na Universidade da Virgínia, dedicado à recolha desses testemunhos e à procura de correspondências com pessoas e acontecimentos anteriores. O médico interpreta estes estudos como indícios que justificam o aprofundamento da investigação. Descreveu ainda relatos de pessoas que afirmam ter observado o próprio corpo a partir do exterior ou recordado acontecimentos ocorridos durante situações clínicas críticas.Ao longo da intervenção, Portela apresentou a independência da consciência em relação ao cérebro como uma possibilidade que considera sustentada por indícios. No encerramento, fez, contudo, uma distinção importante entre a sua interpretação desses relatos e uma conclusão estabelecida: «Não está cientificamente demonstrado, há um caminho a fazer nesse sentido.»António Raminhos, humorista, conduziu a conversa«Eu nem sei quem é que sou nesta vida, para que é que vou saber noutra?»Raminhos perguntou a Portela se alguma vez tinha feito uma regressão (técnica que conduz a pessoa a um estado de relaxamento profundo ou transe hipnótico para aceder a memórias de infância ou de supostas existências anteriores) e contou que, quando lhe propuseram experimentar, recusou. «Eu nem sei quem é que sou nesta vida, para que é que vou saber noutra? É mais uma vida para me atrapalhar», brincou.Portela, por sua vez, relatou ter feito formação na área e ter sido submetido à experiência antes de aprender a proporcioná-la a outras pessoas. Descreveu a vivacidade das imagens e a sensação de participar em acontecimentos de outras épocas, como se os estivesse a viver. Também aqui estabeleceu uma diferença entre a intensidade da experiência pessoal e a investigação: reconheceu que a regressão está menos estudada cientificamente. «A ciência tem a obrigação de esclarecer tudo»Raminhos quis perceber de onde vem a resistência a estas questões: medo, ego ou dificuldade em aceitar a perda de controlo? Portela atribuiu-a sobretudo ao conservadorismo da sociedade e da própria academia. Na sua leitura, a mudança encontra resistência, mas isso não deve impedir a investigação de fenómenos ainda por esclarecer. «A ciência tem a obrigação de esclarecer tudo», afirmou, defendendo a continuidade dos estudos «sob o rigor do método científico».Para o presidente da Fundação BIAL, ciência e espiritualidade devem ser encaradas como dimensões complementares. A primeira pode contribuir para esclarecer questões que, ao longo da história, foram colocadas no domínio dos mistérios ou das crenças; a segunda introduz uma reflexão sobre os valores e o sentido da existência.Portela argumentou que o desenvolvimento científico e tecnológico dos últimos séculos se concentrou na materialidade, deixando para trás outras dimensões da experiência humana. Associou esse desequilíbrio à necessidade de olhar novamente para «os grandes valores, o ser, a essência do ser».Inteligência artificial: o risco está no uso que fazemos delaO horizonte de 2056, proposto pela cimeira, trouxe a conversa de volta à tecnologia. Que mensagem deixaria Luís Portela a alguém que ouvisse aquele diálogo daqui a 30 anos? «Não há que ter receio do desenvolvimento tecnológico», respondeu.Comparando a atenção hoje dedicada à inteligência artificial com a que, noutras décadas, foi dirigida à energia atómica, Portela defendeu que a preocupação deve recair sobre a utilização das ferramentas. O risco, na sua perspetiva, está no mau uso que os seres humanos possam fazer delas.Por isso, o progresso tecnológico precisaria de ser acompanhado por uma evolução na responsabilidade e nos valores. Conhecer melhor a consciência seria, para Portela, uma forma de compreender o potencial humano e de aprender a desenvolvê-lo, individual e coletivamente. A mensagem final regressou à relação com os outros. Mais do que uma previsão sobre máquinas ou descobertas, deixou o desejo de uma vida «em harmonia, em sabedoria e em amor». Aceda à galeria de imagens completa aqui.Todos os conteúdos da cimeira estão disponíveis na Líder TV.O conteúdo O que muda se houver vida depois da morte? Luís Portela e António Raminhos respondem aparece primeiro em Revista Líder.