Há progresso tecnológico, mas também assistimos a retrocessos em muitas das conquistas que demos por adquiridas nas últimas décadas. O World Economic Forum no seu Global Risks Report 2026 identifica um mapa de riscos cada vez mais complexo: dos confrontos geoeconómicos à escalada de conflitos armados, da polarização social e política à desinformação e à recessão económica, do aumento de eventos meteorológicos extremos, amplificados pelas alterações climáticas, ao crescimento exponencial da Inteligência Artificial. Apesar de perderem prioridade no curto prazo, as questões ambientais continuam a ser as mais severas num horizonte de dez anos, ocupando metade dos dez primeiros lugares da lista. À multiplicação dos riscos soma-se a fragilização da nossa capacidade coletiva de lhes responder. Enquanto antigos mecanismos de cooperação desmoronam, governos erguem muros. Passámos da colaboração à desconfiança, do senso comum à ignorância, da compreensão à intolerância. É neste cenário turbulento que os líderes são chamados a agir, sujeitos a uma nova gravidade, tão desconhecida quanto incerta. E navegar sob novas leis exige apreender novas realidades e reaprender aquilo que julgávamos saber. Foi isso que a NASA descobriu quando começou a enviar humanos para o espaço: a excelência na Terra não se traduzia automaticamente em órbita. Em gravidade zero, os nossos instintos deixam de ser fiáveis, o que parece estável fica à deriva e a orientação tem de ser reaprendida. Tal como a NASA, também nós não podemos assumir que os velhos paradigmas são suficientes para navegar num contexto que mudou. Liderar nesta nova gravidade exige visão de longo prazo e capacidade de adaptar as decisões de curto prazo, antecipando riscos, sem deixar que a incerteza paralise a ação. E poucos riscos tornam este desafio tão evidente como as alterações climáticas. Sem uma resposta urgente, o PIB global poderá encolher até 22% até 2100. Em contrapartida, o investimento em mitigação e adaptação pode gerar retornos cinco a seis vezes superiores. Adiar não é prudência, mas escolher pagar uma fatura mais cara depois. Mas esta nova ‘gravidade’ não é apenas ambiental. É também tecnológica. A Inteligência Artificial abre possibilidades extraordinárias, mas traz riscos igualmente significativos. Em 2014, o cientista Stephen Hawking alertava para o enorme potencial da inteligência artificial, mas também para os seus riscos. Recentemente, Bill Gates resumiu o dilema afirmando: “A IA será ou o maior nivelador jamais inventado, ou a pior fonte de injustiça.” O futuro dependerá das escolhas que fizermos. Por isso esta década não deveria ser recordada apenas como a «década das crises». Tem de ser lembrada como a época em que usamos o conhecimento e as ferramentas para transformar e servir o futuro. Neste novo centro de gravidade, o setor empresarial assume um papel determinante. Hoje, cerca de dois terços das 100 maiores entidades económicas do mundo são empresas. Com esta escala de influência vem uma responsabilidade acrescida. Pelo seu peso económico, capacidade de inovação e criação de emprego, as empresas demonstram que competitividade, sustentabilidade e responsabilidade são indissociáveis e fundamentais para gerar confiança, desenvolvimento económico e coesão social. Durante décadas, medimos o seu valor, sobretudo, pela sua capacidade de produzir, crescer e gerar resultados. Hoje sabemos que as organizações mais resilientes são aquelas que, além de capital financeiro, souberam construir um capital de confiança, conquistado com tempo, responsabilidade e consistência. E essa confiança reflete-se na forma como encaramos a sustentabilidade: menos como obrigação e mais como inovação. Onde as pessoas estão no centro. Onde existe transparência e clareza. Onde o desperdício se torna matéria-prima. Onde a energia é limpa e descentralizada. Onde a circularidade deixa de ser exceção para se tornar princípio de desenho. Já na tecnologia, a IA pode ajudar a optimizar processos, a tomar melhores decisões, a antecipar riscos, mas quanto mais poderosa se torna mais relevante se deverá ser o discernimento, a ética e os valores que orientam a sua utilização. Hoje, construir organizações competitivas, sustentáveis e inclusivas pode parecer o nosso «moonshot». Mas a pergunta certa não é se é possível, mas, sim, se estamos dispostos a fazer o que é necessário para o alcançar. Este novo ecossistema exige-nos duas coisas: a humildade para desaprender o que sabíamos e a destreza para aprender em movimento. Precisamos de cruzar a velocidade da inteligência artificial com a sabedoria da natureza. Precisamos de desenvolver ainda mais a empatia, o sentido de comunidade e tudo aquilo que nos une e torna verdadeiramente humanos. Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo A nova gravidade do mundo exige líderes capazes de aprender em movimento aparece primeiro em Revista Líder.