Crédito mais caro abre espaço para operações estruturadas no agro

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O crédito mais caro e a maior seletividade dos bancos estão abrindo espaço para empresas especializadas montarem operações estruturadas de financiamento para o agronegócio. A  CPR (Cédula de Produto Rural é um dos principais instrumentos usados nesse tipo de operação.Embora seja um instrumento conhecido do setor, a diferença é que agora a CPR vem sendo usada em operações de maior porte e mais customizadas, nas quais o banco olha não apenas para a capacidade de pagamento, mas também para a estrutura do negócio e as garantias oferecidas.Os tíquetes podem superar R$ 20 milhões e os prazos, em alguns casos, chegam a cinco anos. Segundo Pedro Boldrin, da Agrocrédito São Pedro, o custo médio das operações estruturadas pela empresa está em torno de CDI mais 2 pontos percentuais. Leia Mais Crédito rural para agricultura empresarial soma R$ 28,2 bilhões em julho Crédito rural chega a R$ 433 bilhões na agricultura empresarial até maio Cooperativas agrícolas dobram participação no PIB do agronegócio A empresa atua como estruturadora: não coloca capital próprio nas operações, mas organiza as informações sobre o produtor, estrutura as garantias e busca entre os bancos parceiros aquele disposto a assumir o risco.A mudança ocorre em um ambiente de juros elevados, no qual o custo do dinheiro passou a pesar mais diretamente na viabilidade dos projetos rurais. Para operações de maior porte, não basta encontrar uma fonte de recursos, é preciso definir prazo, garantia, estrutura de pagamento e um risco compatível com o retorno esperado da atividade.A análise de crédito também se tornou mais ampla. Além de balanços e demonstrações financeiras, entram na avaliação informações sobre fornecedores, revendas de insumos, operações de barter, histórico de relacionamento e a situação da propriedade. Em alguns casos, a análise considera ainda relações entre diferentes CPFs e CNPJs ligados ao mesmo grupo econômico.“Quem conhece o cliente é quem está ao lado dele e não o banco na Faria Lima”, afirma Boldrin.Particularidades do setorA lógica é especialmente relevante em atividades nas quais o ciclo financeiro e a volatilidade dos preços podem mudar rapidamente. No hortifrúti, por exemplo, o produtor pode ter um volume elevado de capital investido antes mesmo da colheita e ficar exposto a movimentos bruscos de oferta e preço.Segundo Boldrin, os custos de produção de batata e cebola podem ficar na faixa de R$ 80 mil a R$ 90 mil por hectare, enquanto o alho pode chegar a R$ 200 mil a R$ 250 mil por hectare. Ao mesmo tempo, uma alteração na oferta pode provocar mudanças expressivas nos preços em pouco tempo. Ele cita situações em que uma saca de determinado produto sai de cerca de R$ 35 para R$ 120 após uma quebra de produção.É justamente esse perfil de atividade, com alto capital empregado, risco climático e forte oscilação de preços, que leva algumas operações a serem estruturadas de maneira diferente do crédito rural tradicional. O custo financeiro precisa ser compatível com a margem esperada do negócio.A Agrocrédito São Pedro, que atua principalmente com produtores de hortifrúti no Triângulo Mineiro, movimenta atualmente cerca de R$ 650 milhões por ano em operações de crédito, segundo Boldrin. A empresa afirma trabalhar com seis a sete instituições financeiras, mas a composição mudou ao longo do tempo.As cooperativas de crédito chegaram a representar cerca de 70% das operações em 2023 e 2024, segundo a empresa. Em 2026, o Santander responde por aproximadamente 90% dos negócios estruturados pela companhia, de acordo com Boldrin.A concentração mostra também como a oferta de crédito depende da política de cada instituição e de sua disposição para assumir determinados riscos. Para empresas que atuam como estruturadoras, a função é justamente aproximar o produtor de uma fonte de recursos compatível com seu perfil.CPR ou CRAA CPR ganhou espaço nesse tipo de operação porque permite combinar diferentes formas de garantia e estruturar o pagamento de acordo com o negócio. Dependendo da operação, podem ser utilizados como garantia a produção, imóveis rurais, máquinas e outros ativos.O instrumento, porém, não elimina o risco para o produtor. O advogado especializado em direito empresarial e agronegócio André Aidar afirma que a análise de uma CPR deve considerar não apenas a taxa de juros, mas também quais bens estão vinculados à operação e em que condições eles podem ser executados em caso de inadimplência.Outro ponto é a diferença entre CPR física e financeira. Na primeira, a obrigação está vinculada à entrega do produto. Na segunda, o compromisso é financeiro, com pagamento em dinheiro conforme as condições estabelecidas no contrato. Em ambos os casos, uma quebra de safra não significa automaticamente o desaparecimento da dívida.A alternativa à CPR pode ser a emissão de títulos no mercado de capitais, como o CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio). Na avaliação de Boldrin, porém, o CRA tende a fazer mais sentido para empresas maiores, que precisam levantar volumes elevados para expansão, aquisição de terras ou reorganização de dívidas.Para operações menores ou recorrentes, ele afirma que os custos de estruturação do mercado de capitais podem reduzir a atratividade da alternativa. A CPR, nesse caso, permite uma negociação mais direta com o banco e maior possibilidade de adaptação às características do negócio.O banco por trás da operaçãoA atuação das empresas especializadas cria uma camada intermediária entre produtor e instituição financeira. O trabalho não é simplesmente encontrar uma taxa menor, mas transformar as informações do negócio rural em uma operação que o banco consiga avaliar e precificar.Isso ganha importância porque o balanço financeiro nem sempre mostra toda a exposição de um produtor. Um mesmo grupo pode ter empresas diferentes, dívidas com fornecedores, operações de barter e compromissos assumidos em diferentes partes da cadeia.Para quem estrutura o crédito, mapear essas relações pode mudar a percepção sobre o risco. A visita à propriedade e o conhecimento das relações comerciais locais passam a fazer parte da análise tanto quanto os documentos financeiros.O modelo também ajuda a explicar por que o conhecimento específico do setor se tornou um ativo em um mercado de crédito mais seletivo. Quem acompanha a atividade consegue avaliar, por exemplo, se uma dívida está associada a um investimento produtivo, a uma necessidade pontual de capital de giro ou a uma deterioração financeira mais profunda.Juros mudam a conta do produtorCom a taxa básica de juros em patamar elevado, operações que antes apresentavam margem suficiente podem deixar de fazer sentido econômico. Uma operação cujo custo financeiro se aproxima de 17% ao ano, por exemplo, exige uma atividade capaz de gerar retorno superior a esse custo para que o endividamento seja sustentável.Por isso, segundo Boldrin, a empresa tem priorizado atividades de maior valor agregado e maior capacidade de geração de margem, em vez de concentrar o crédito em culturas de grandes volumes e margens mais apertadas.No caso dos grãos, a conta pode ser particularmente sensível ao custo do dinheiro. Como o preço é determinado em mercados amplos e o produtor tem menos capacidade de repassar custos, o aumento dos juros pode consumir uma parcela importante da margem.No hortifrúti, a dinâmica é diferente, mas o risco também é elevado. Além do clima, o produtor está sujeito à perecibilidade e a oscilações muito rápidas de oferta e demanda. Uma quebra de produção pode elevar preços, mas uma oferta maior pode provocar o movimento inverso justamente quando o produtor precisa vender.A combinação de capital intensivo, risco climático e volatilidade de preços faz com que a análise do crédito precise acompanhar o ciclo produtivo, e não apenas uma fotografia do balanço da empresa.Um mercado mais especializadoO movimento também mostra uma transformação na forma como o crédito rural é distribuído. Com bancos mais seletivos e dinheiro mais caro, cresce a importância de agentes capazes de organizar operações antes que elas cheguem ao sistema financeiro.Nesse modelo, a empresa especializada não substitui o banco nem assume necessariamente o risco financeiro da operação. Ela estrutura o crédito, organiza as garantias e reúne informações que podem reduzir a assimetria entre quem conhece o negócio rural e quem fornece o dinheiro.Para Boldrin, esse conhecimento de campo é parte central do modelo. A empresa começou concentrada no hortifrúti e pretende ampliar o volume de operações nos próximos anos, mas mantendo uma análise mais seletiva dos tomadores. A expectativa, segundo ele, é elevar o volume anual de operações para cerca de R$ 1 bilhão em 2027.