A taxa de desocupação no Brasil e o número de pessoas ocupadas voltaram a bater recorde, em meio à desaceleração da economia, o que impõe desafios ao Banco Central na política monetária de calibração da Selic. O alto número de pessoas empregadas significa renda adicional circulando, o que pressiona a inflação de serviços, a mais resiliente para segurar o ciclo de corte de juros.Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, divulgados nesta terça-feira (29), a taxa de ocupação recuou de 5,6% para 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o que é o menor patamar da série histórica iniciada em 2012. A população ocupada alcançou 103,5 milhões de pessoas, o que representa um nível de ocupação de 58,9%. Economia desacelera, mas contratações seguem Os dados do mercado de trabalho mostram resiliência, mas caminham em descompasso com o Produto Interno Bruto (PIB), cujo ritmo de expansão trimestral encolheu de 1,1% no primeiro trimestre para 0,5% no segundo. Para Gustavo Assis, CEO da Asset, é importante observar a divergência entre o ciclo da atividade e o ciclo do emprego, o que é coerente com a política monetária restritiva, que primeiro se reflete no PIB. “A tendência é que o próximo sinal venha menos de uma disparada imediata do desemprego e mais de desaceleração das contratações e dos salários”, afirma.Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, também pontua a análise dos dados com o ajuste das empresas à desaceleração econômica. Ele destaca que, primeiro, as empresas costumam cortar horas extras e comissões, o que altera o rendimento das famílias, para depois demitir.A demanda por trabalho ainda é suficiente para absorver a expansão da força de trabalho [quando mais pessoas atingem a idade para trabalhar], mas o crescimento da ocupação se torna menos disseminado entre os setores”, avalia Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, reafirmando que os dados de agosto sugerem que a política monetária está em curso.O quadro deve seguir assim até dezembro. Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, acrescenta que o resultado atual consolida a visão de curtíssimo prazo: “O dado de hoje reforça a perspectiva de mercado de trabalho apertado até o fim do ano”.A XP destaca que o total de empregos formais expandiu-se 1,8% na comparação anual, enquanto o emprego informal registrou queda de 0,1% no mesmo período. “De modo geral, os dados de agosto reforçaram o cenário de mercado de trabalho aquecido, mas também trouxeram novos sinais de arrefecimento no emprego”, avalia a XP. A previsão é de que o desemprego suba para 5,6% ao final de 2026 e alcance 6,5% no final de 2027. Apesar do estoque elevado de ocupados, já existem sinais de acomodação. O crescimento das contratações no trimestre esteve concentrado na indústria e na construção civil, enquanto o emprego privado com carteira assinada não apresentou variação estatisticamente significativa. Isso sugere que o impulso na geração de vagas está se tornando menos disseminado entre os diversos setores da economia.Renda cresce acima da produtividadeA renda continua sendo o vetor do consumo, segundo os economistas. O rendimento médio real habitual avançou 3,7% em doze meses, chegando a R$ 3.777, impulsionando a massa real de rendimentos para R$ 385,6 bilhões — uma alta anual de 4,8%. A consultoria 4Intelligence aponta que um dos fatores centrais para o aumento dos rendimentos formais neste ano são os reajustes e acordos de convenções coletivas de trabalho que, em sua grande maioria, alcançaram ganhos acima da inflação. A análise da casa indica que os rendimentos continuarão em trajetória positiva em 2026 e 2027 não apenas pela evolução da atividade, mas também pela política de valorização do salário mínimo.“Isso significa que a renda total do trabalho está avançando quase cinco vezes mais rápido que o número de trabalhadores”, alerta Letícia Moschioni, sócia da Finscale.Maior renda não limita endividamentoEm contrapartida, essa força da renda convive paradoxalmente com a deterioração da saúde financeira nos lares. Arnaldo Lima, líder de RI e economista da Polo Capital, destaca que o endividamento atingiu 49,9% da renda das famílias em julho, e o comprometimento da renda saltou 1,4 ponto percentual em um ano, atingindo 28,7%. Leia também: Endividamento das famílias volta a subir e repete recorde de 49,9% em julho, diz BCO reflexo direto apareceu na inadimplência das pessoas físicas, que subiu para 6,0% em agosto, segundo destacou Lima. No crédito livre, que é mais sensível aos juros, a taxa de inadimplência chegou a 8,0%, acompanhada por juros médios de 61,7% ao ano, afirma.“O quadro coloca a política econômica diante de uma combinação desafiadora: de um lado, um mercado de trabalho forte, com ganhos reais de renda e potenciais pressões sobre serviços; de outro, famílias cada vez mais comprometidas financeiramente e sujeitas a juros elevados. Nesse contexto, uma agenda de aumento da produtividade ganha especial importância”, avalia Lima.Desafios para o corte de jurosEssa combinação de mercado de trabalho forte e renda em expansão impõe desafios para a política monetária. A inflação de serviços, setor intensivo em mão de obra, acumula alta de 5,47% em 12 meses. Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a principal preocupação é que o atual nível de emprego e salários mantenham a inflação de serviços pressionada, o que restringe o espaço do Banco Central para acelerar a queda da Selic, atualmente em 13,75%.Diante desse cenário, os economistas apontam a necessidade de reformas estruturais, com foco no aumento da produtividade. Assim seria possível elevar o PIB potencial e permitir que a atividade e os salários cresçam de forma sustentável, reduzindo a dependência da manutenção de juros reais elevados. “Em 2027, a discussão tende a migrar de quantidade de empregos para eficiência da mão de obra”, avalia Caio Mazzuchelli, CEO da You Lead.The post Ocupação e massa de renda recordes com desemprego a 5,3% pressionam inflação e Selic appeared first on InfoMoney.