Campo Novo dos Parecis ainda é uma paisagem desconhecida pelos turistas do Brasil. A região marcada pela paisagem do agronegócio, tem ilhas de biodiversidade protegidas pelos povos indígenas, que mantém em seus territórios a cultura e a natureza preservadas. Visitar essas aldeias é uma experiência única: em meio a mergulhos em águas verdes cristalinas, um mergulho nas histórias e saberes dos povos originários.São 6 aldeias abertas à visitação, com paisagens e histórias diferentes, mas em cada uma delas o mesmo cuidado com o território e respeito aos antepassados e seus ensinamentos. “Nós estamos conectados com a natureza e seus elementos. A terra é o nosso corpo, a água é a nossa emoção, o fogo é a nossa mente e o ar é o nosso espírito. Precisamos respeitar e honrar esses elementos, com fazemos com nós mesmos”, explica o Cacique Rony, chefe da Aldeia Wazare.A aldeia Wazare nasceu justamente do desejo que Rony tinham de diminuir a distância entre indígenas e as pessoas da cidade. Ele foi o primeiro indígena da sua turma de faculdade, usava pinturas corporais, tinha o cabelo longo e sofreu com o preconceito durante os anos de estudo.Cacique Rony, recebe turistas na sua casa, a Aldeia Wazare. Foto: Natasha OlsenDecidiu que a melhor maneira de combater o preconceito e as ameaças sofridas por ele e pelos povos indígenas seria apresentar as aldeias, o modo de diva e a cultura de quem vive nas aldeias para quem vive na cidade. A ideia não fez muito sucesso entre os mais velhos de sua família e então ele decidiu mudar para o Território Haliti-Paresi e criar uma aldeia com sua esposa Valdirene, seus filhos e seus irmãos.QUER SABER MAIS SOBRE O POVO PARECI? O INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL TEM TODAS AS INFORMAÇÕES AQUI.Conhecer a vida dentro de uma aldeia é transformador. Quem está acostumado com o barulho das grandes cidades nota o silêncio de vozes humanas e uma sinfonia de cantos de pássaros, barulho de vento e de água. Tudo em equilíbrio. Na Aldeia Wazare, o grito só é permitido durante os rituais ou quando é urgente pedir socorro. Placas em inglês e português explicam para o turista que lá os barulhos da natureza são apreciados e, por isso, caixas de som e voz alta precisam ficar do lado de fora.A fronteira entre o território indígena e o agronegócio da região é clara. De um lado a monocultura de algodão, milho ou soja. De outro, árvores de diversas espécies e uma linha verde de diferentes tonalidades avisa que estamos entrando na casa dos povos originários do Brasil.A fronteira entre a terra indígena e o agronegócio é clara. Foto: Natasha Olsen Leia também: 1.Governo brasileiro anuncia demarcação de 14 Terras Indígenas 2.Demarcar Terras Indígenas melhora saúde da população O cultivo acontece dentro dos territórios, mas dentro de um limite. Na Aldeia Wazare, por exemplo, o cultivo de grãos pela cooperativa local ocupa menos de 2% da terra indígena. O resto é conservado. A criação de peixes e de frango caipira também é uma atividade que garante renda e alimentos.“Com os tanques de peixes, não precisamos mais tirar nenhum peixe do rio. O que produzimos vai para a nossa alimentação e o que é vendido é repartido entre as pessoas que trabalham no cultivo”, explica o cacique. O valor que chega com o turismo também é compartilhado. Rony conta que 60% do etnoturismo é investido na estrutura da aldeia para receber turistas 40% são dividido entre as famílias envolvidas diretamente nas atividades.O Rio Verde que cruza a aldeia é um lugar de convivência e de longos banhos em águas cristalinas – atividade que as crianças amam, mas que só é permitida depois dos estudos. A escola local recebe estudantes do ensino infantil e fundamental. Lá, além da alfabetização e da grade escolar tradicional, as crianças aprendem a língua materna e tem como referências pedagógicas a vida que os cerca. Um jogo de memória traz figuras dos animais e os nomes de cada um deles no idioma indígena. Os números são aprendidos em português, paresi e em inglês.Vista aérea da Aldeia Wazare. Foto: Ricardo CustódioTudo isso aos olhos atenciosos de Valdirene, esposa do cacique e uma importante liderança. Ela é pedagoga e responsável pela educação das crianças da aldeia – e faz questão de ensinar muito mais do que o conteúdo escolar. “Eu sempre converso com eles sobre a importância de valorizar o lugar de onde viemos, nossa cultura e nossa identidade. Quando sair da aldeia, a criança deve ter orgulho de ser quem é”, conta.Essa conexão com os alunos e alunas tem trazido bons resultados. Na estante da escola, fotos de quem já estudou com Valdirene e hoje conquistou o diploma universitário mostram que a dedicação aos estudos e a gratidão à origens seguiu com cada um deles.Além da família de Rony, outras 24 pessoas vivem na Aldeia Wazare. As atividades com os turistas podem durar de 2 horas a 6 horas, sempre em equilíbrio com a rotina do lugar. “Não queremos ser escravizados pelo sistema econômico do turismo, vamos garantir nosso descanso, as crianças seguem estudando. O turismo não pode interferir no dia a dia da aldeia”, ressalta o cacique.A professora Valdirene mostra com orgulho sua escola para os visitantes. Foto: Natasha OlsenParaísos e descobertasParticipei de uma experiência completa com Rony e sua família, que inclui um passeio pela aldeia, brincadeira com as crianças, banho de rio, refeição e alguns rituais. A convite da Fecomércio do Mato Grosso, um grupo de jornalistas do Brasil e do exterior visitou 3 aldeias da região de Campo Novo dos Parecis, município que foi escolhido como a Capital do Etnoturismo do Mato Grosso.Começamos nossa experiência na Aldeia Wazare aprendendo a cantar e dançar, recitando um refrão na língua indígena que significa “Gratidão a Natureza, Gratidão a Deus e Gratidão a Minha Vida”. O cacique nos ensinou a dança, batendo o pé no chão e reproduzimos o que é um ritual de boas-vindas quando diferentes povos se encontram.O mesmo ritual foi repetido na floresta depois, dessa vez em forma de benção. Mas antes Rony, seus filhos e a esposa nos apresentaram o seu modo de viver e nos convidaram para um banho de rio e para uma visita a sua casa.Ritual indígena na Aldeia Wazare. Foto: Natasha OlsenNas casas das aldeias, chamadas de Háti pelos Parecis, a porta é baixa porque quando entramos fazemos uma reverência a família que vive ali. As portas são orientadas de acordo com o nascer e o pôr do sol – entramos Leste, onde o sol nasce, e saímos pelo Oeste, onde o sol se põe. Essa orientação simboliza também o ciclo da vida e aí vem outra tradição: as pessoas são enterradas no interior da Hati como uma maneira de seguirem sendo cuidadas e próximas da família.QUER VISITAR A ALDEIA WAZARE? ENTRE EM CONTATO PELO INSTAGRAM @aldeia_wazare Leia também: 1.Floresta da Tijuca ganha turismo de base comunitária 2.14 destinos brasileiros ganham prêmio internacional de turismo sustentável Futebol de cabeça? Quando se chega à Aldeia Quatro Cachoeiras, as crianças são as primeiras que se destacam. Todas vestidas e pintadas, têm o sorriso fácil e se aproximam dos turistas para dar as boas-vindas. A felicidade estampada no rosto pode vir do fato de que têm no ancião da aldeia um parceiro de brincadeiras.O cacique Narciso não sabe ao certo sua idade, já que não foi registrado assim que nasceu. Acredita ter “mais ou menos 94 anos”, mas mantém o espírito jovem: é ele que faz com o látex da mangabeira a bola usada no futebol de cabeça. Esse é um esporte muito popular entre as aldeias crianças e jovens Parecis e que faz parte dos Jogos Indígenas, disputados entre as aldeias.Cacique Narciso confecciona bolas com látex da mangabeira para as crianças jogarem. Fotos: Natasha OlsenA produção da bola impressiona. Uma parte da seiva da árvore vai para uma frigideira e forma uma circunferência de massa grossa e firme. Narciso assopra essa circunferência até que ela fique inchada como uma bexiga e então começa a enrolar a bola em uma fina camada de látex de mangabeira, espalhada e seca em um banco comprido. Muitas voltas depois, está pronta a bola, feita com fôlego, paciência e o látex de uma árvore.O futebol de cabeça é diferente de qualquer outro esporte. Não são cabeçadas normais. Os jogadores mergulham e dão cabeçadas na bola rente ao chão e o objetivo é que a bola encubra ou passe pelo time adversário – jogadas que exigem coragem e habilidade. Narciso acompanha tudo de perto, sempre com um sorriso no rosto e palavras de incentivo aos pequenos atletas. Leia também: 1.Trilha do Pico do Corcovado é reaberta com monitores indígenas 2.Rugby leva povos indígenas do Brasil para o campo em Paris As crianças mais jovens começam o futebol de cabeça enquanto o ônibus escolar com os jovens chega na aldeia. Foto: Natasha OlsenO cacique e as crianças menores eram os primeiros na trilha que levava à cachoeira e ao rio que banha a aldeia. “O Rio Sacre é o único totalmente limpo por aqui, isso porque ele começa dentro do nosso território. A nascente também está na terra indígena, dentro da floresta, então não tem mercúrio, não tem veneno, não tem lama de erosão e não tem agrotóxico, não tem erosão. Pode beber essa água”, conta Narciso.Quando perguntado sobre o que sente quando vê turistas visitarem sua casa, ele diz que sente orgulho. “Tenho orgulho da cachoeira, da água limpa. Tenho orgulho das crianças e fico muito feliz quando as pessoas vêm ver tudo pessoalmente. O turismo ajuda a gente a manter a nossa terra”.Cacique Narciso contempla a cachoeira do Rio Sacre. Foto: Natasha OlsenEstar nas águas verdes e cristalinas do Rio Sacre faz a gente entender esse orgulho. Descobrir essa paisagem, no meio de uma região dominada por plantações que se estendem por centenas de quilômetros, mostra o que diversos estudos já comprovaram: são os povos indígenas os que mais preservam a natureza em suas terras. E esse compromisso ancestral de cuidar bem do seu território acaba beneficiando toda a humanidade.QUER VISITAR A ALDEIA QUATRO CACHOEIRAS? ENTRE EM CONTATO PELO INSTAGRAM @aldeia4cachoeirasRio Sacre. Foto: Natasha OlsenSalto UtiaritiPara os indígenas, a terra, a água e a vida em suas terras são muito mais do que recursos. Estão conectados com a sua história e são memória viva dos seus antepassados. E entendemos isso de um jeito especial quando chegamos ao Salto Utiariti, uma cachoeira impressionante de cerca de 90 metros de altura, que espalha água e arco-íris em todo o seu entorno.O local está preparado para receber turistas, com uma grande planície que beira o rio, de onde é possível avistar a cachoeira por vários ângulos, se proteger do sol e reunir a família em áreas cobertas. O artesanato e a pintura corporal são oferecidos pelo povo Parecis a quem chega por lá.Foto: Márcio MacedoMais do que isso, conversando com Adylson Muzuywane, conhecemos o que aquela queda d’água significa. Ele conta que, no passado, uma das aldeias do povo Parecis deixou de acreditar no Deus Enore e por isso foram punidos. A aldeia foi atacada por espíritos, mas dois irmãos conseguiram fugir. O menino e a menina ganharam a proteção da floresta por serem puros. Cansados de fugir da perseguição imposta ao seu povo, pediram para se transformar em cachoeiras e continuar em paz no território. A menina se transformou na cachoeira Salto Belo e o menino no Salto Utiariti.Até hoje os irmãos permanecem juntos, porque se reencontram na junção do rio Sacre e do rio Papagaio, mantendo a família unida no território Parecis.Salto Utiariti. Foto: Natasha OlsenDepois de entender o significado desse universo de água do Salto Utiariti, um guia nos leva para a parte de baixo da cachoeira, por uma trilha bem íngreme e onde é impossível ficar seco. Uma nuvem de água vinda da queda d’agua envolve todo o lugar – não é preciso entrar na água para garantir um banho delicioso. A visão que se tem do Salto Utiariti da parte de baixo é inesquecível.QUER VISITAR O SALTO UTIARITI? ENTRE EM CONTATO PELO ONSTAGRAM @saltoutiaritiUma ladeia por dia, memórias para uma vida inteiraVisitamos 3 das 8 aldeias abertas ao turismo na região de Campo Novo dos Parecis. As aldeias ficam próximas à cidade, que conta com diferentes opções de hospedagem. Para garantir uma experiência sem pressa e cheia de aprendizado, o ideal é reservar um dia todo para cada uma das aldeias.Foto: Natasha OlsenOs agendamentos podem ser realizados diretamente com as lideranças indígenas pelo perfil do Instagram ou por meio de agências de turismo que oferecem pacotes especiais de etnoturismo na região. Além das três aldeias visitadas, é possível conhecer a Aldeia Chapada Azul, a Aldeia Ponte de Pedra, a Aldeia Salto da Mulher, a Aldeia Sacre II Salto Belo e a Aldeia Rio Sacre.O mais importante é ir com o coração e mente abertos para que a conexão com nossos povos originários e seus territórios exuberantes seja profunda, como deve ser.O Cacique Rony e Valdirene rna porta da sua casa, Háti. Foto: Natasha OlsenVisitar as aldeias nos ensina como é possível habitar um território e encontrar equilíbrio com as outras formas de vida que dividem o planeta com a gente. As Terras Indígenas são os lugares do mundo em que a natureza se mantém preservada e isso traz benefícios para toda a humanidade.Dependemos de uma conexão real e respeitosa com o planeta para garantir um futuro possível. O etnoturismo é uma maneira de apoiar os povos indígenas na manutenção e cuidado dos seus territórios e uma oportunidade de aprendizado incrível, que vem junto com momentos inesquecíveis. Leia também: 1.Guia impulsiona turismo em aldeias indígenas de SP 2.Pico da Neblina, o mais alto do Brasil, reabre para turistas Cachoeira no Rio Sacre. Foto: Natasha OlsenThe post Quer mergulhar em águas cristalinas e na cultura indígena? appeared first on CicloVivo.