Premiado e contestado: como um escritor levou o Nobel ao centro de uma crise

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Eventuais polêmicas relacionadas ao Nobel costumam girar em torno de quem ganha o prêmio da paz. Isso não impede que outras escolhas sejam envoltas em crises. Em 2018, pela primeira vez em décadas, a Academia Sueca não escolheu um Nobel de Literatura.A instituição, que escolhe o vencedor desde 1901, adiou a premiação depois que um escândalo expôs abuso sexual, vazamento de informação sigilosa para apostas e uma falha estrutural: o estatuto de 132 anos que tornava as cadeiras vitalícias e nem sequer previa renúncia.No ano seguinte, tentando se redimir, a Academia entregaria dois prêmios de uma vez — e escolheria um vencedor ainda mais controverso, para coroar a sequência de erros.Peter Handke, escolhido em 2019, é o autor de A Angústia do Goleiro Diante do Pênalti e Insulto ao Público, além do livro A Journey to the Rivers: Justice for Serbia, pelo qual ele foi acusado de minimizar os crimes cometidos pelas forças sérvias durante as guerras da antiga Iugoslávia.Ele discursou no funeral de Slobodan Milošević, o ditador sérvio que morreu enquanto respondia, sem veredicto, por genocídio e crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia.Questionado sobre a posição, em entrevista ao semanário alemão Die Zeit, em novembro de 2019, Handke disse: “Nem uma palavra do que escrevi sobre a Iugoslávia pode ser denunciada, nenhuma. É literatura.” Ele negou ter qualquer simpatia pelo ditador sérvio e reclamou da cobertura da imprensa ocidental.Prêmio Nobel em criseA escolha de Handke foi o desfecho mais controverso de uma crise iniciada em 2017, quando um jornal sueco publicou relatos de 18 mulheres que acusavam de assédio e agressão sexual Jean-Claude Arnault, casado com Katarina Frostenson, poeta e membra da Academia.Frostenson foi arrastada para a crise porque a investigação descobriu que a Academia financiava o clube cultural do casal, do qual ela era coproprietária, criando um conflito de interesses. Arnault acabou condenado por estupro.A denúncia obrigou a própria Academia a investigar os laços de Arnault com a instituição — e a apuração encontrou um segundo problema. Em abril de 2018, veio à tona que ele havia sido acusado de vazar o nome de sete vencedores do Nobel desde 1996, quebrando o sigilo das deliberações. A suspeita era que os vazamentos serviam para apostar no nome do vencedor antes da revelação oficial.A crise se alastrou rápido. Membros deixaram de participar da Academia, mas os assentos continuavam ocupados no papel: pelo regimento, só morte ou expulsão abriam vaga, nunca a saída por escolha própria.Após o protesto, a Academia ficou com dez membros ativos de 18 no total. O regimento exigia 12 membros para determinadas decisões, como a eleição de novos acadêmicos.Diante disso, ela anunciou o adiamento do prêmio daquele ano. Para destravar o impasse, o rei da Suécia, Carl XVI Gustaf, alterou o estatuto da Academia, datado de 1895, permitindo a renúncia formal dos membros.Depois, novas regras permitiram que a Coroa dispensasse, em determinadas circunstâncias, o quórum de 12 acadêmicos para a eleição de novos integrantes.Um problema leva ao outroCom a crise parcialmente resolvida, a Academia decidiu fazer dupla premiação, com o prêmio de 2018 para Olga Tokarczuk e o de 2019 para Handke.Albânia, Bósnia, Croácia, Kosovo e Turquia boicotaram a cerimônia de premiação em protesto à escolha de Handke.Dias antes da cerimônia, numa coletiva de imprensa, ele foi questionado por um jornalista sobre o genocídio de Srebrenica.O escritor mudou de assunto, disse que preferia uma carta anônima ofensiva às perguntas dos jornalistas e afirmou: “Meu povo são os leitores, não vocês.”Na tentativa de fechar o capítulo mais constrangedor de sua história, a Academia escreveu mais algumas páginas antes de fechá-lo de vez — ou ao menos até o próximo escândalo.