Nem Lula nem Flávio Bolsonaro têm estratégia fiscal clara para próximo mandato, diz Goldman Sachs

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Às vésperas da eleição, nem Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem Flávio Bolsonaro (PL) apresentaram uma estratégia fiscal clara e detalhada para o próximo mandato, avalia o Goldman Sachs. Para o banco, o vencedor terá como desafio econômico mais urgente enfrentar a fragilidade das contas públicas e conter a trajetória de alta da dívida.Em relatório recente, os economistas Alberto Ramos e Panteleymon Semka afirmam que as diferenças entre as agendas dos dois candidatos não afastam a necessidade de explicar como será feito o ajuste.O Money Times também fez uma matéria mostrando as diferentes propostas dos candidatos à presidência mostrando detalhadamente o que cada planeja sobre o assunto. “Embora os investidores continuem concentrados nas vulnerabilidades fiscais brasileiras, nenhum dos dois principais candidatos apresentou uma estratégia fiscal clara e detalhada para o próximo mandato presidencial”, escrevem.O diagnóstico do banco combina déficits nominais — que incluem o pagamento de juros da dívida — superiores a 8% do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos quatro anos, endividamento elevado e uma regra fiscal que os analistas consideram permeável e sem credibilidade.Nas projeções do Goldman, a dívida bruta do governo geral chegará a 83,1% do PIB em 2026 e avançará para 86,9% em 2027. O déficit nominal deverá atingir 8,7% do PIB neste ano e 8,1% no próximo.A dificuldade para mudar essa trajetória, segundo os economistas, está na combinação de despesas rígidas, receitas vinculadas a finalidades específicas e uma carga tributária já elevada. Esse cenário reduz a margem de manobra do próximo governo.O que o Goldman espera de Lula e Flávio BolsonaroApesar da ausência de uma estratégia fiscal detalhada, o Goldman enxerga caminhos distintos para a condução da economia em cada governo.Em um eventual quarto mandato de Lula, o banco espera, no máximo, medidas modestas para conter o crescimento dos gastos primários — despesas que não incluem os juros da dívida — e iniciativas para elevar a carga tributária.“Isso ocorreria sem abandonar a convicção profundamente arraigada de que o setor público e as empresas estatais devem continuar sendo motores importantes do crescimento e do investimento”, afirmam os economistas.Já em uma Presidência de Flávio Bolsonaro, os analistas esperam menor risco fiscal e uma agenda mais favorável ao setor privado e às reformas.Nesse cenário, o banco projeta um esforço para reduzir o tamanho do Estado por meio de privatizações e concessões, limitar o papel das estatais, incluindo os bancos públicos, cortar gastos federais e buscar uma regra fiscal mais forte.Essas são as expectativas do Goldman para cada candidatura. A avaliação do banco, porém, é que ainda falta aos dois candidatos detalhar como enfrentarão o desequilíbrio das contas públicas.Ajuste fiscal pode abrir espaço para juros menoresPara o Goldman, uma resposta convincente ao problema fiscal também poderia ampliar o espaço para a redução dos juros.“Em nossa avaliação, o mercado e os investidores recompensariam clareza, determinação, medidas ortodoxas e senso de urgência no enfrentamento dessas vulnerabilidades”, escrevem Ramos e Semka.Segundo eles, isso abriria um caminho mais amplo e prolongado para a normalização da política monetária. O relatório projeta a Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026 e em 12% no encerramento de 2027.O próximo presidente, entretanto, terá de administrar o ajuste em uma economia que perde força. O Goldman prevê crescimento do PIB de 2% neste ano e de 1,2% em 2027, além de inflação de 5,1% e 4,5%, respectivamente.No médio prazo, o desafio será elevar o potencial de crescimento do país, limitado, na avaliação dos analistas, pelo baixo investimento, pela baixa produtividade e pelos elevados impostos e custos de energia.Congresso será decisivo para tirar propostas do papelA vitória nas urnas será apenas uma etapa. O Goldman espera que o Congresso continue fragmentado, autônomo e inclinado à centro-direita, obrigando qualquer um dos candidatos a construir uma ampla coalizão para governar.Um Legislativo dominado por partidos de centro deverá limitar tanto aumentos de impostos quanto grandes expansões de gastos permanentes sem financiamento. Ao mesmo tempo, o banco prevê disposição reduzida para aprovar reformas de maior alcance e enfrentar medidas impopulares.Em troca de apoio, esses partidos provavelmente cobrarão espaço no ministério, controle de recursos orçamentários e cargos em agências reguladoras e estatais, segundo o relatório.Por isso, a capacidade de negociação será determinante para transformar as intenções de ajuste em medidas concretas.“Para os mercados e os investidores, o verdadeiro veredicto virá depois da votação, quando as promessas fiscais encontrarem a realidade política e econômica”, concluem os economistas.