Um experiente soldado brasileiro descreveu à CNN Brasil o caos e a confusão da linha de frente na guerra entre Ucrânia e Rússia como parecidas com as cenas apocalípticas do filme “Mad Max”.“Os soldados ucranianos tentam segurar suas posições, às vezes em tocas, como possível. Mas eles são fustigados o tempo todo. Atacados por artilharia, por morteiros e especialmente por drones”, disse o militar, que pediu para ser identificado apenas como Soldado C para proteger sua verdadeira identidade.“Agora, a partir do momento que os russos acham uma brecha na linha de frente, eles mandam um assalto em maior escala ainda. Eles atacam a pé, com quadriciclo, moto e tudo o que tiverem. Parece uma cena de “Mad Max”” (filme de ação de temática pós-apocalíptica criado pelo diretor George Miller), afirmou.“Eles vêm em grande quantidade e aí a Ucrânia também reage. Aumenta a quantidade de drones, a quantidade de morteiros, de explosões. Muitos russos morrem nesse processo, mas eles mantêm a operação. Eles avançam. Eles não param”, disse.É justamente por conta dessa estratégia quase suicida de mandar soldados da linha de frente para tentar tomar posições a qualquer custo, conhecida pelos militares como “moedor de carne”, que o número de baixas entre os russos é muito maior do que entre os ucranianos.Soldado C tem 30 anos e já serviu no Exército Brasileiro e também na Legião Estrangeira, unidade de elite do exército francês, onde recebeu treinamento para muitas das operações especiais que desempenha hoje na Ucrânia.Ele está no país há pouco mais de um ano e já participou de diversas operações militares em vários países.O militar afirma que decidiu se alistar no exército ucraniano por dois motivos principais: não concordar com a invasão russa e também por ser essa a sua profissão. Leia Mais Ucrânia matou dezenas de russos em ataque a quartel-general, diz Zelensky Drones e resistência a ataques: Américo Martins mostra situação na Ucrânia Drones ucranianos atingem refinaria e depósito de combustível na Rússia “Eu vim para a Ucrânia porque minha profissão é essa. Claro que tem também a injusta agressão da Rússia contra o país. Eu, não concordando com o motivo pelo qual a Rússia invadiu a Ucrânia e sendo essa minha profissão, pensei: por que não?”, disse.Essa dinâmica, segundo o Soldado C, acontece em um ambiente extremamente confuso e imprevisível, conhecido como “kill zone”. Trata-se de uma faixa de território contestada, onde nenhum dos lados tem controle total e onde o risco é constante.“O teatro de operações é dividido em linhas, mas na prática tudo é muito confuso. A chamada “gray zone” e a linha zero são áreas contestadas. Você precisa estar atento o tempo todo, porque a ameaça de drone é constante”, explicou.De acordo com ele, a superioridade russa em capacidade material permite manter vigilância permanente sobre as posições ucranianas. “O russo consegue manter drones no ar o tempo todo, seja de vigilância, seja ofensivo. Então é difícil, muito difícil.”Nesse cenário, qualquer deslocamento se torna uma operação de alto risco. “Você anda oito, dez quilômetros e demora muito. Você se desloca um pouco e precisa parar. Escutou um drone, você congela. Não pode se mexer”, disse.Esse aspecto do conflito lembra inclusive jogos de videogame, já que os operadores desses drones estão muitas vezes a quilômetros de distância e guiam suas armas voadoras com a ajuda de microcâmeras instaladas neles, algumas até com sensores de calor e visão noturna.O terreno das operações também é cheio de incertezas e ameaças quase invisíveis. “Você pode estar indo para uma posição que deveria estar ocupada por aliados, mas não está. E tem muita mina. Já tive amigo que pisou em mina a 30 centímetros de mim”, relatou.A vida dos soldados, segundo ele, se resume a resistir sob pressão constante. Hoje, diferentemente do início da guerra, os grandes sistemas de trincheiras praticamente desapareceram.“No lugar disso, você tem posições isoladas, como tocas. O soldado vive dentro de um buraco. Ele come ali, dorme ali e quase não sai. Sair é muito arriscado por causa da vigilância de drones”, afirmou.O reabastecimento, muitas vezes, depende de tecnologia. “Hoje, a maioria do ressuprimento é feita por drone. Você sai da posição só quando precisa muito, pega o suprimento e volta rápido.”Em alguns casos, os soldados ficam meses presos nessas posições. “Tem gente que ficou seis meses, um ano. A extração é muito complicada. Você depende do clima, de neblina, de vento”, disse. No verão, a operação fica ainda mais difícil porque os drones inimigos passam a ter maior visibilidade.O maior risco, segundo ele, acontece quando pequenos grupos de soldados russos conseguem se infiltrar sem serem detectados. “Às vezes você é avisado pelo rádio: tem movimento perto da sua posição. Não é amigo. Aí você já sabe que pode ter gente chegando.”Essa pressão constante recai, muitas vezes, sobre soldados sem experiência militar prévia. “Quem está segurando a posição muitas vezes não é um super soldado. É um cara normal, recrutado na rua, que não teve escolha e precisa lutar pelo seu país”, afirmou.Isso torna o cenário ainda mais dramático. Segundo o soldado C, esses recrutas são os verdadeiros heróis dessa guerra por sofrerem muito, mas também por defender o seu país.