IA avança na gestão de recursos e já influencia decisões de investimentoA inteligência artificial (IA) vem ganhando espaço na indústria de gestão de recursos e deixando de ser apenas uma ferramenta para aumentar a produtividade das equipes. Em algumas gestoras, a tecnologia já faz parte do próprio processo de investimento, sendo utilizada para desenvolver modelos quantitativos, analisar grandes volumes de dados e identificar oportunidades de mercado.Entre essas gestoras está a AZ Quest Bayes. Em sua carta mensal mais recente, a casa afirma que a inteligência artificial não funciona apenas como uma ferramenta de apoio, mas integra toda a estrutura de investimento da casa.Essa transformação foi retratada na primeira edição da pesquisa IA na Gestão de Recursos, realizada pela XP. O levantamento ouviu 71 gestoras que, juntas, representam mais de R$ 5 trilhões em ativos sob gestão (cerca de metade da indústria brasileira de fundos).Segundo o estudo, embora a maior parte das casas ainda concentre o uso da inteligência artificial em atividades operacionais, como automação de processos e elaboração de relatórios, um grupo menor de gestoras já utiliza a tecnologia diretamente na busca por geração de alfa, ou seja, de retornos acima do mercado.IA já faz parte do processo de investimentoSegundo a AZ Quest Bayes, a utilização de inteligência artificial só foi possível porque a gestora construiu, ao longo de anos, uma infraestrutura baseada em automação, que representa o alicerce sobre o qual as aplicações mais sofisticadas de inteligência artificial vêm sendo construídas.Um dos exemplos apresentados pela casa envolve o uso de múltiplos agentes de inteligência artificial no desenvolvimento de códigos utilizados nos modelos de investimento.Quando surge um novo projeto, diferentes modelos de IA trabalham de forma independente para resolver o mesmo problema. Depois, uma nova inteligência artificial compara todas as respostas, identifica divergências, avalia a consistência de cada solução e atribui um grau de confiança aos resultados. Somente após essa etapa o gestor recebe um relatório consolidado e toma a decisão final.Segundo a gestora, esse sistema de verificação cruzada reduziu o tempo necessário entre a formulação de uma hipótese, seu desenvolvimento, os testes e a implementação dos modelos.Machine learning e IA generativa ampliam a capacidade de análiseA inteligência artificial também está presente na seleção dos indicadores utilizados pelas estratégias quantitativas da casa. Em vez de depender apenas de métodos estatísticos tradicionais, a AZ Quest Bayes utiliza algoritmos de machine learning para identificar relações não lineares entre variáveis, reconhecer padrões temporais e classificar empresas de forma adaptativa.Outro uso destacado pela gestora envolve a análise fundamentalista. Desde 2021, a equipe incorporou ferramentas de IA generativa ao processo de research. Hoje, mais de 20 mil teleconferências de resultados de empresas já foram processadas.As falas dos executivos são transformadas em representações matemáticas capazes de identificar mudanças de tom, recorrência de determinados temas e alterações na narrativa das companhias ao longo do tempo. Segundo a gestora, esse tipo de informação pode antecipar sinais que ainda não aparecem nos indicadores financeiros tradicionais.Próximo passo é desenvolver modelos próprios de IAAlém das aplicações já em funcionamento, a AZ Quest Bayes afirma estar desenvolvendo um modelo proprietário baseado na arquitetura conhecida como transformer, tecnologia utilizada em sistemas modernos de inteligência artificial generativa.O objetivo é integrar informações estruturadas, como balanços financeiros e indicadores, com dados não estruturados, como textos e transcrições de reuniões corporativas, criando o que a gestora chama de “assinaturas matemáticas” das empresas.A casa também trabalha em sistemas capazes de combinar informações sobre risco, liquidez e diferentes regimes econômicos para sugerir alocações mais adequadas a cada cenário de mercado.Infraestrutura pode se tornar diferencial competitivoNa avaliação da AZ Quest Bayes, o acesso aos dados tende a se tornar cada vez mais democratizado, reduzindo sua capacidade de diferenciação entre as gestoras. O verdadeiro diferencial competitivo, segundo a casa, estará na construção de ecossistemas proprietários capazes de integrar tecnologia, ciência de dados e inteligência artificial em modelos que aprendem continuamente.A gestora acredita que esse processo cria uma vantagem difícil de replicar, já que depende não apenas dos modelos utilizados, mas também de anos de desenvolvimento de bases de dados, arquitetura tecnológica e cultura de pesquisa quantitativa.Segundo a AZ Quest Bayes, a expectativa é que, nos próximos três a cinco anos, a IA deixe de atuar apenas como ferramenta de apoio e passe a exercer papel central na descoberta de sinais de investimento e na construção de portfólios.