O que faz de uma viagem uma “Odisseia”?

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“A Odisseia” é um antigo poema épico grego que narra a história de Odisseu, o rei de Ítaca, que passou dez anos lutando na Guerra de Troia apenas para passar outros dez anos tentando voltar para casa.O fato de ele levar uma década para percorrer aproximadamente 560 milhas náuticas entre Troia e Ítaca não se deve à tecnologia rudimentar de navegação da época (registros de viagens na literatura antiga indicam que esse trajeto levaria cerca de uma semana, ou talvez até duas sob ventos desfavoráveis). Ao longo da narrativa de Homero, Odisseu é repetidamente impedido de alcançar seu objetivo pela ira dos deuses, pelas forças da natureza e pela própria fragilidade humana. Leia Mais "A Odisseia": relembre história que inspira novo filme de Christopher Nolan Estreia de "A Odisseia" faz aumentar reprodução de audiolivro em 500% "A Odisseia", de Nolan, promete reviver o interesse pelo mundo antigo Para quem está enferrujado nos clássicos, vale uma rápida recapitulação: durante a viagem para Ítaca, a tripulação de Odisseu come frutos que os fazem esquecer seu objetivo de voltar para casa. Depois, eles ficam presos em uma caverna com um Ciclope de um olho só e canibal.Quando finalmente chegam perigosamente perto de casa, são novamente desviados da rota pelos ventos. Encontram mais monstros antropófagos. Os companheiros de Odisseu são transformados em porcos. O herói desce ao mundo dos mortos e precisa realizar um sacrifício de sangue. Em seguida, enfrenta as Sereias e os monstros marinhos Cila e Caríbdis. Ao final da jornada, todos os seus homens morrem e, como se não tivesse sofrido o suficiente, Odisseu ainda passa anos mantido por Calipso como seu escravo sexual.Ainda assim, a palavra “odisseia”, como é usada atualmente, não transmite exatamente o sofrimento exaustivo e miserável vivido por Odisseu e seus companheiros. Em vez disso, o termo costuma evocar uma jornada marcada por aventuras ousadas, espírito de exploração romântica e curiosidade diante do desconhecido.Basta pensar em exemplos da cultura contemporânea, como a missão espacial Mars Odyssey, da Nasa, ou a competição estudantil de criatividade Odyssey of the Mind (Odisseia da Mente). A Honda Odyssey, lançada nos anos 1990, foi anunciada como “a minivan para pessoas que, no fundo, não são do tipo que dirige minivans”. Já o executivo do Vale do Silício, John Sculley, usou a palavra “Odisseia” no título de sua autobiografia de 1987, que narra sua trajetória de CEO da PepsiCo a CEO da Apple.Embora a jornada homônima de Odisseu seja famosa por seus inúmeros desvios e reviravoltas, a evolução da palavra “odyssey” na língua inglesa é surpreendentemente simples, explica John Kelly, ex-editor de dicionários e autor do blog de etimologia “Mashed Radish”. Odisseia, derivada do latim Odyssea, vem do título grego antigo Odusseia, que significa literalmente “a história de Odisseu”.Quanto ao próprio nome Odisseu, Kelly observa que sua verdadeira origem é incerta, mas o próprio poema oferece uma etimologia popular: “odiado por deuses e homens”. Em “A Odisseia”, Odisseu conta que seu avô lhe deu esse nome porque estava destinado tanto a sofrer quanto a fazer os outros sofrerem.À medida que “A Odisseia” se consolidou como uma das obras fundamentais do cânone literário ocidental, o termo passou para o inglês inicialmente como uma referência direta ao poema de Homero.O “Oxford English Dictionary” registra sua primeira aparição no século XI, no manual espiritual “Enchiridion”, do monge Byrhtferth, em que aparece em inglês antigo como Odissia. O uso seguinte registrado ocorreu no século XVI, quando o poeta inglês Edmund Spenser escreveu, em uma carta a Sir Walter Raleigh, que seu próprio poema épico, “The Faerie Queene”, havia sido inspirado em “A Odisseia” .Foi apenas no final do século XIX que “odisseia” passou a significar, de forma mais ampla, uma longa jornada repleta de desvios e aventuras, explica Kelly. O romancista escocês Robert Louis Stevenson empregou a palavra em seu livro “Raptado”, publicado em 1886.Quando o protagonista, David, descreve sua perigosa travessia pelas Terras Altas da Escócia a um advogado, o homem responde: “Esta é uma grande epopeia, uma grande odisseia sua.” Em poucos anos, odisseia deixou de ser um nome próprio e passou a ser um substantivo comum, aplicado tanto a viagens literais quanto a jornadas metafóricas.Seja para descrever uma aventura emocionante ou uma sucessão de provações dolorosas, os diversos usos da palavra “odisseia” compartilham a ideia de um trajeto longo e cheio de desvios, afirma David Elmer, professor de literatura grega na Universidade Harvard. “O núcleo semântico da palavra diz menos respeito à experiência subjetiva do viajante e mais às características da própria jornada”, explica.Para Alexander Forte, professor assistente de Estudos Clássicos na Universidade de Nova York, uma característica essencial de uma “odisseia” é ser uma viagem que vale a pena contar depois. Ela pode ser marcada por acontecimentos inesperados ou por longos desvios, mas o importante é que quem a viveu sobreviveu para contar a história.Como Homero e outros poetas da Antiguidade viam as viagens de Odisseu? Forte aponta para a palavra grega antiga nostos, que significa “retorno ao lar” e era usada para designar poemas épicos sobre a volta de um herói. “Ela reúne muitas das associações complexas que a palavra inglesa return (‘retorno’) possui”, diz. “Pode significar um retorno feliz, mas também um retorno extremamente árduo ou triste.”Uma obra tão vasta quanto A Odisseia inevitavelmente inspira interpretações variadas. E, embora este autor esteja particularmente atento aos inúmeros obstáculos enfrentados por Odisseu, suas viagens não são desprovidas de prazer e emoção.A narrativa dominante em A Odisseia gira em torno do desejo de Odisseu de voltar para casa, mas há indícios de que ele também aprecia a própria jornada, observa Sheila Murnaghan, professora de grego da Universidade da Pensilvânia.Quando Odisseu e seus homens descobrem uma caverna na ilha dos Ciclopes, repleta de rebanhos e queijos, seus companheiros querem pegar os mantimentos e partir imediatamente. Já Odisseu, movido pela curiosidade, insiste em permanecer para conhecer o habitante da caverna. Mais tarde, depois de passar um ano desfrutando dos prazeres da ilha da feiticeira Circe, são seus homens que o pressionam a finalmente seguir viagem rumo a Ítaca.“Os leitores de ‘A Odisseia’ de Homero frequentemente sentem que o desejo desesperado de Odisseu de voltar para casa não conta toda a história. Também existe nele alguém que sente uma verdadeira sede de aventura e de viagens“, afirma Murnaghan.Ela cita como exemplo obras posteriores, como o Inferno, de Dante, e o poema Ulysses, de Alfred Tennyson, que retratam Odisseu (ou Ulisses, como é conhecido em latim) como uma figura inquieta, incapaz de resistir ao chamado da aventura.A forma como as pessoas compreendem hoje a palavra “odisseia” talvez tenha relação com a maneira como o público moderno entra em contato com a obra original.Quando a maioria dos estudantes lê  pela primeira vez na escola — ou quando o público assiste a uma adaptação cinematográfica, como a de Christopher Nolan —, diz Kelly, é natural que fique encantada com as aventuras fantásticas e as criaturas mitológicas apresentadas na história.“Fico me perguntando se abordamos a obra de maneira muito diferente daquela dos antigos”, comenta. “Talvez o ouvinte grego da Antiguidade, ou o leitor romano do poema épico, estivesse mais interessado na personalidade de Odisseu: o que posso aprender sobre a virtude? O que significa ser um homem? O que significa ser um guerreiro, um herói, um marido, um pai?”Kelly conclui: “Sim, muitos de nós ainda tiramos lições sobre o que acontece quando somos excessivamente astutos ou arrogantes. Mas acho que boa parte das pessoas só quer mesmo chegar logo à parte do Ciclope”.“A Odisseia”: veja quem é quem em filme épico de Christopher Nolan