A luta das mulheres negras latino-americanas e caribenhas por autonomia e direitos também se conecta ao uso da bicicleta, uma ferramenta que amplia as possibilidades de circular, ocupar e transformar os territórios com mais liberdade, segurança e dignidade.No dia 25 de julho, quando celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, somos convidados a olhar para as experiências dessas mulheres e para as barreiras que ainda limitam seu direito à cidade. Em diferentes territórios da América Latina, mulheres negras estão entre as pessoas mais afetadas pelas desigualdades sociais, econômicas e ambientais. E essas desigualdades também se manifestam na forma como elas se deslocam.A precariedade do transporte público, as longas distâncias entre casa e trabalho, a falta de infraestrutura segura e a ausência de espaços públicos acessíveis fazem com que circular pela cidade seja, muitas vezes, um desafio. Para quem vive nas periferias, deslocar-se não é apenas uma questão de mobilidade. É uma condição para acessar trabalho, educação, saúde, cultura, lazer e oportunidades.Essa relação entre mobilidade, gênero e raça também vem ganhando espaço no debate sobre planejamento urbano. Em 2026, o Ministério das Cidades destacou que mulheres, pessoas negras e pessoas com deficiência estão entre as maiores usuárias do transporte público no país, reforçando a importância de pensar a mobilidade a partir das diferentes experiências de quem se desloca pelas cidades.Oficina de mecânica para bicicletas. Foto: Instituto AromeiazeroÉ nesse contexto que a bicicleta pode ser entendida como uma ferramenta de autonomia e transformação. Mais do que um meio de transporte, ela pode representar liberdade, economia de tempo e dinheiro, geração de renda e novas possibilidades de ocupar os territórios.Mas o acesso à bicicleta também é atravessado por desigualdades. Muitas meninas negras não têm a oportunidade de aprender a pedalar durante a infância. A falta de acesso ao equipamento, a sobrecarga do trabalho doméstico e do cuidado, a ausência de espaços seguros e o medo da violência são algumas das barreiras que afastam essas mulheres da bicicleta. Leia também: 1.Bike Parada Não Rola: projeto recolhe bicicletas abandonadas 2.Sobre lobos, bicicletas e qualidade de vida Quando chegam à vida adulta, outras dificuldades se somam: ruas sem infraestrutura adequada, trajetos longos e a precariedade dos sistemas de transporte. Assim, o direito de pedalar também se relaciona diretamente com o direito de circular e viver plenamente a cidade.Essa conexão já aparece em iniciativas concretas espalhadas pelo país. Em 2026, o Prêmio Bicicleta Brasil, promovido pelo Ministério das Cidades, reconheceu 72 iniciativas voltadas à promoção do uso da bicicleta.No Instituto Aromeiazero, acreditamos que a bicicleta pode ser uma ferramenta de transformação social. Ao ampliar as possibilidades de deslocamento, ela contribui para que mais pessoas tenham autonomia sobre seus caminhos e fortaleçam sua relação com os territórios onde vivem.O número de mulheres no curso Viver de Bike vem crescendo a cada turma. Foto: Instituto AromeiazeroEssa perspectiva ganha ainda mais força quando olhamos para as mulheres negras. A bicicleta pode ajudar a romper barreiras estruturais que historicamente limitam sua mobilidade e seu acesso a oportunidades. Pode ser instrumento de trabalho, de geração de renda, de cuidado, de encontro e de liberdade.Falar sobre mobilidade, portanto, também é falar sobre equidade. Não basta pensar em cidades sustentáveis apenas a partir da redução de emissões ou da construção de ciclovias. É preciso olhar para quem consegue, de fato, acessar essas soluções e para quais territórios elas chegam.Uma cidade mais sustentável é também aquela em que todas as pessoas podem circular com segurança e autonomia. É aquela em que a mobilidade ativa não é privilégio de poucos, mas uma possibilidade concreta para quem vive diferentes realidades e territórios. Leia também: 1.Mulheres das periferias transformam mobilidade em oportunidade 2.Mulheres emitem 26% menos gases de efeito estufa, diz estudo O movimento de mulheres negras nos ensina que a autonomia também passa pelo direito de ocupar espaços, construir caminhos e transformar realidades. A bicicleta, nesse sentido, se soma a essa luta como uma ferramenta simples, acessível e potente.Neste 25 de julho, olhar para a mobilidade a partir das experiências das mulheres negras é reconhecer que construir cidades mais justas e sustentáveis passa, necessariamente, por ampliar o direito de todas as pessoas de pedalar, circular e ocupar a cidade.Porque quando uma mulher pode escolher como se deslocar, por onde passar e quais caminhos seguir, ela amplia também suas possibilidades de viver e transformar o lugar onde está.Conteúdo enviada por Camila Dias, comunicadora e colaboradora do Instituto AromeiazeroColunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo. The post Mulheres negras, bicicleta e o direito de ocupar a cidade appeared first on CicloVivo.