A crescente discussão sobre os impactos da computação quântica na segurança digital tem chamado a atenção de empresas, governos e especialistas em tecnologia. Embora o tema tenha ganhado destaque recentemente em razão dos possíveis riscos para as criptomoedas, os efeitos dessa evolução vão muito além do mercado financeiro e podem atingir toda a infraestrutura digital utilizada atualmente para proteger dados, comunicações e transações eletrônicas.Os algoritmos criptográficos empregados hoje para garantir a segurança de sistemas bancários, hospitais, indústrias, órgãos públicos e empresas de diversos setores poderão, no futuro, tornar-se vulneráveis à capacidade de processamento dos computadores quânticos. Essa área, conhecida como criptografia pós-quântica (Post-Quantum Cryptography – PQC), já é alvo de estudos há anos por várias organizações ao redor do mundo. Agora, com a definição dos algoritmos quânticos, começa a fase de troca da criptografia, o que remete a investimentos.A preparação para essa transição deve começar antes que a tecnologia esteja amplamente disponível. A migração para novos padrões de segurança tende a ser um processo gradual e complexo, que envolve identificar onde a criptografia é utilizada, priorizar sistemas críticos, atualizar aplicações e garantir que a infraestrutura tecnológica esteja preparada para futuras mudanças.“O Brasil é um dos países que mais sofre ataques cibernéticos do mundo, sendo o principal alvo na América Latina. Sendo assim, precisamos acompanhar outros países e blocos que estão fazendo essa migração. Do contrário, setores críticos da nossa infraestrutura estarão suscetíveis a ataques. Além disso, muitas empresas já estão sob regras internacionais, especialmente as que atuam ou possuem sedes em outros países”, explica Anderson Santos, pesquisador e especialista em Criptografia Pós-Quântica do Venturus.Dados roubados hoje para serem lidos no futuroOutro ponto que vem ganhando relevância é o conceito conhecido como “Store Now, Decrypt Later” (“Armazene agora, decifre depois”). A estratégia consiste em capturar hoje informações protegidas por criptografia para armazená-las e, no futuro, descriptografá-las quando tivermos computadores criptograficamente relevantes. Na prática, dados considerados seguros atualmente podem permanecer expostos caso tenham valor estratégico por muitos anos, como informações financeiras, propriedade intelectual, pesquisas, projetos industriais, registros governamentais e dados pessoais sensíveis.Diante desse cenário, especialistas defendem que a discussão não deve se limitar às criptomoedas. Empresas que possuem ações negociadas nos Estados Unidos, por exemplo, terão que atender requisitos de segurança impostos pelos norte-americanos. A computação quântica representa uma transformação mais ampla na forma como a segurança digital será estruturada, exigindo que empresas desenvolvam sistemas mais flexíveis, capazes de acompanhar a evolução dos padrões internacionais de proteção de dados.“Setores diretamente relacionados às infraestruturas críticas, como financeiro, energia e saúde, precisam de uma atenção maior, pois uma ameaça a este cenário se tornando concretizada pode impactar milhões de vidas humanas. Antecipar-se a esse cenário significa estar à frente dos concorrentes e também pronto para uma nova era da cibersegurança”, complementa Anderson.Além de representar um desafio para a segurança digital, a computação quântica também abre oportunidades para pesquisa, desenvolvimento e inovação. Organizações que iniciarem esse planejamento com antecedência tendem a estar mais preparadas para proteger seus ativos digitais, atender futuras exigências regulatórias e acelerar a adoção de novas tecnologias.O post Seus dados podem já estar sendo roubados para serem lidos no futuro apareceu primeiro em Olhar Digital.