O ódio não é só contagioso: é uma moeda. Como o euro, precisa de ser aceite por toda a gente para poder circular à vontade.Já nem precisamos do papel das notas: aceitamos que aqueles números no écran são dinheiro. E porquê? Porque os outros também aceitam que aqueles dígitos eletrônicos servem para receber e gastar.Mas o que aconteceria se, de repente, todos exigíssemos aqueles números todos em notas? Ou em ouro?O ódio precisa do mesmo acordo silencioso: a nossa moeda política agora é o ódio.O ódio faz mal a quem o sente: isto está mais do que provado. O ódio ocupa a cabeça e a cabeça fica sem lugar para as coisas que fazem bem. O ódio gasta a nossa sensibilidade. O coração deixa de registar as ternuras e miudezas de que precisa para estar aberto à beleza e à bondade.Odiar quem nos odeia é fazer o jogo deles. É o que os extremistas querem. Querem odiar-nos e, como tal, agradecem quaisquer motivos para odiar-nos que nós lhes possamos dar.É como o jogo da sardinha: é preciso que a outra pessoa aceite jogar e estique as mãos que vão levar a chapada. Quanto mais forte for a chapada que nos dão, maior a facilidade com que lhes daremos uma chapada igualmente forte.É assim com toda a violência e todo a política do ódio: resume-se a queixinhas de “ele é que começou” e “ele é que me bateu primeiro na cara”.Para assistir a estas tristezas, é preciso haver espectadores, e árbitros. E estes não podem odiar. Senão os odiadores nem sequer se procurarão justificar diante deles.A resposta errada ao ódio é o ódio. O conteúdo quase não interessa. E quase não interessa de que lado é que se está.A única coisa que interessa é isolar o ódio. É deixá-lo a brincar sozinho. É responder não com amor, não com a oferta da outra face, mas com frieza, com indiferença às causas daquele ódio, porque o ódio tira a razão a quem a tem. Por isso é que o ódio sabe tão bem e é tão perigoso: é uma vingança instantânea e permanente.Merece a solidão. (Transcrito do PÚBLICO)