Após Ortega acabar com eleições, Nicarágua inicia plano para frear oposição

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A Assembleia Nacional da Nicarágua informou na terça-feira (21) que iniciou os trabalhos para elaborar um plano destinado a implementar as diretrizes anunciadas pelo presidente Daniel Ortega, que descartou a realização de novas eleições no último domingo (19).Em comunicado divulgado pela mídia estatal, o Parlamento afirmou que dará início às “análises necessárias” para elaborar um plano de trabalho alinhado às orientações de Ortega.Segundo a nota, a Assembleia também realizará sessões especiais com o Conselho Supremo Eleitoral para promover os trâmites constitucionais, legais e formais que darão sustentação às futuras reformas. Leia mais Quem é Daniel Ortega e como é classificado o governo da Nicarágua? Entenda OEA diz que Nicarágua abandonou democracia após declarar fim de eleições Rubio diz que Nicarágua vive ditadura após Ortega declarar fim de eleições De acordo com o texto, as mudanças têm como objetivo garantir “a paz, a segurança, a estabilidade e a continuidade das conquistas contra a pobreza”, além de fortalecer o que o governo classifica como “práticas políticas, democráticas, soberanas e livres” dos processos eleitorais nacionais e locais.Veja a íntegra da notaA Assembleia Nacional desta Nicarágua Soberana, Abençoada, Eternamente Dignificada e Livre informa ao povo nicaraguense que, com base nas declarações do Chefe de Estado, Comandante Daniel Ortega, a respeito dos processos políticos da Nicarágua e dos nicaraguenses para assegurar a paz, a segurança, a estabilidade e a continuidade das conquistas contra a pobreza, inicia as análises necessárias para elaborar um plano de trabalho que esteja em conformidade com as diretrizes presidenciais.A Assembleia Nacional realizará sessões especiais com o Conselho Supremo Eleitoral para assegurar os trâmites constitucionais, legais e formais que fundamentam as reformas, para um Estado e caminhos que garantam os fundamentos jurídicos deste aspecto crucial do quadro institucional, e que apoiem as práticas políticas, democráticas, soberanas e livres de nossos processos eleitorais nacionais e locais.A Assembleia Nacional se reúne para cumprir os mandatos recebidos em 19 de julho, 47º aniversário do Triunfo da Democracia e da Liberdade na Nicarágua.A soberania do nosso povo e do nosso país é uma questão que cabe aos nicaraguenses decidir.A Nicarágua triunfaem paz e unidade.Fim das eleiçõesNo domingo (19), Ortega descartou  a possibilidade de realizar novas eleições no país, com o objetivo declarado de impedir que a oposição chegue ao poder. Há anos, opositores denunciam fraudes eleitorais e a falta de liberdades civis.O mandatário afirmou que os opositores estão “à espreita”, sendo que a maioria vive no exílio.“Eles gostariam de vencer as eleições para lucrar com as escolas. Mas que esqueçam isso: aqui não haverá mais eleições, para que não tentem, por esse caminho, tomar o governo e o poder”, declarou durante um ato em Manágua em comemoração ao 47º aniversário da Revolução Sandinista.Ortega, um ex-guerrilheiro de 80 anos que governa a Nicarágua desde 2007, anunciou que a Assembleia Nacional, controlada pelo governismo, trabalhará para aprovar “leis que ergam um muro, um bloqueio contra os golpistas e os traidores da pátria”. E acrescentou: “Por mais dinheiro que os ianques (EUA) lhes deem, eles não conseguirão”.A Nicarágua deveria realizar eleições gerais em novembro, mas as profundas reformas constitucionais — criticadas pela ONU, pela OEA e pela oposição — que entraram em vigor no início de 2025 ampliaram o mandato presidencial para seis anos. Com isso, em tese, as próximas eleições ocorreriam apenas em novembro de 2027.Em reação às declarações de Ortega, o coletivo Nicaragua Nunca Más, que atua a partir da Costa Rica, denunciou que o governo retirou da sociedade civil todos os seus direitos.“A Frente Sandinista tornou-se praticamente um partido único, sem oposição real dentro da Nicarágua”, afirmou Salvador Marenco, coordenador da organização. O ativista citou o fechamento de mais de 5.600 entidades da sociedade civil, a cassação de partidos políticos e o encerramento de veículos de comunicação.“Tudo isso deveria fazer parte do jogo democrático, que já não existe na Nicarágua porque não existe Estado de Direito. Essas palavras não apenas enterram a possibilidade de eleições em 2027, como também reafirmam a impunidade”, declarou.Em janeiro, quando completou um ano da reforma constitucional que também criou o cargo de “copresidente” para Rosario Murillo, vice-presidente e esposa de Ortega, o Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou que o posto foi “inventado”, sem mandato nem legitimidade, “porque ele sabe que não pode vencer” em um processo eleitoral livre.EUA criticam decisãoNa terça-feira, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que a Nicarágua vive uma ditadura e pediu ação da comunidade internacional.“O povo nicaraguense tem o direito de escolher seus próprios líderes por meio de eleições democráticas”, comentou o chefe da diplomacia dos EUA.“Os Estados Unidos conclamam a comunidade internacional a unir forças para demonstrar à ditadura Murillo-Ortega que ela não pode esperar manter relações normais com outras nações enquanto frustra os princípios fundamentais do nosso hemisfério democrático”, adicionou.OEA diz que país abandonou a democraciaA Nicarágua abandonou a democracia, disse o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Albert Ramdin, na terça-feira.“Eliminar eleições é negar definitivamente o direito soberano do povo de escolher seu governo. Eleições livres, justas e periódicas não são opcionais; são um elemento essencial da democracia representativa”, disse Ramdin em publicação na rede social X.“Os direitos democráticos do povo nicaraguense permanecem inalienáveis, e esta secretaria-geral continuará a defendê-los”, adicionou.O chefe da OEA destacou também que a “erosão da democracia” em qualquer país das Américas e ataques às instituições democráticas têm consequências regionais, ultrapassando fronteiras.Quem é Daniel Ortega e como é classificado o governo da Nicarágua?