Uma equipe de astrônomos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill identificou um buraco negro supermassivo vagando pela região externa de uma galáxia, a cerca de 30 mil anos-luz de seu núcleo. A descoberta foi feita a partir de um raro fenômeno em que uma estrela foi destruída pela intensa gravidade do objeto.O evento, chamado TDE 2025abcr, chamou a atenção por ocorrer em uma área onde normalmente esses fenômenos não são observados. A pesquisa, publicada nesta segunda-feira (27) no The Astrophysical Journal Letters, indica que o buraco negro pode ter sido deslocado após uma colisão entre galáxias ou por interações gravitacionais extremas.A identificação só foi possível graças a uma combinação de análise por inteligência artificial e observações feitas com telescópios terrestres. O resultado oferece uma nova maneira de localizar buracos negros que permanecem invisíveis durante a maior parte de sua existência.Sinal luminoso de uma estrela destruída revelou objeto ocultoImagem superior reúne dados de arquivo da galáxia hospedeira, enquanto a inferior mostra o evento TDE 2025abcr registrado pelo LDT em dezembro de 2025. O fenômeno aparece deslocado do centro da galáxia WISEA J014656.04-152214.7. – (Crédito: The Astrophysical Journal Letters (2026). DOI: 10.3847/2041-8213/ae77f3)Os pesquisadores chegaram ao buraco negro ao acompanhar um clarão conhecido como evento de ruptura por maré, fenômeno que acontece quando uma estrela se aproxima demais de um buraco negro e acaba despedaçada pela força gravitacional. O material destruído aquece enquanto gira ao redor do objeto, produzindo uma emissão de luz detectável a grandes distâncias.Esses eventos são considerados extremamente incomuns. Conforme o estudo, eles acontecem, em média, uma vez a cada 100 mil anos em uma galáxia. Apesar de mais de uma centena de ocorrências terem sido registradas na última década, quase todas estavam associadas às regiões centrais das galáxias, onde os maiores buracos negros costumam estar.A diferença no caso do TDE 2025abcr foi justamente sua localização. O fenômeno ocorreu próximo às bordas da galáxia WISEA J014656.04-152214.7, tornando-se o evento desse tipo descoberto em luz visível com maior afastamento já registrado em relação ao centro galáctico.O buraco negro responsável pelo brilho temporário foi estimado em aproximadamente um milhão de vezes a massa do Sol. Os cientistas avaliam que ele pode ser um remanescente de uma antiga fusão entre galáxias ou ter sido lançado para longe do núcleo galáctico após interações com outros buracos negros.Jonathan Carney, coautor do estudo e estudante de doutorado em física e astronomia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, explicou a importância da descoberta ao destacar que esses objetos normalmente permanecem escondidos por não emitirem luz própria. “Quase todos os eventos de ruptura por maré que observamos ocorreram no centro de uma galáxia, exatamente onde esperamos encontrar os maiores buracos negros”, afirmou o pesquisador à equipe responsável pelo estudo. Segundo ele, o novo caso revelou a presença de um buraco negro massivo em uma região inesperada.A busca pelo fenômeno também contou com uma ferramenta de inteligência artificial chamada tdescore, criada por Robert Stein, da Universidade de Maryland e da NASA Goddard. O sistema analisou grandes volumes de dados astronômicos para encontrar candidatos promissores, sem depender da ideia tradicional de que esses eventos só ocorreriam no centro das galáxias.Buraco negro – Imagem: Instituto Max Planck/Dream LabAkash Anumarlapudi, pesquisador de pós-doutorado em física e astronomia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, explicou que o algoritmo foi adaptado justamente para localizar eventos afastados dos núcleos galácticos. “Ao remover a suposição de que esses eventos só acontecem no centro das galáxias, conseguimos encontrar um buraco negro que poderia ter passado despercebido”, declarou o pesquisador em entrevista à equipe do estudo.Depois da identificação inicial, os astrônomos confirmaram a natureza do fenômeno com o telescópio SOAR, localizado no Chile. O equipamento, com espelho de 4,1 metros, foi construído com participação da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill e integra um consórcio internacional.Benjamin C. Kaiser, pesquisador de pós-doutorado em física e astronomia da universidade, destacou a importância do observatório para acompanhar eventos astronômicos de curta duração. “O SOAR permite acompanhar rapidamente esses fenômenos astronômicos breves”, afirmou o cientista à equipe responsável pela pesquisa.Os autores do estudo consideram que o resultado demonstra, pela primeira vez com evidências robustas, que telescópios terrestres capazes de observar luz visível podem encontrar buracos negros deslocados das regiões centrais das galáxias. A expectativa é que novos equipamentos, como o Observatório Vera C. Rubin, o telescópio Roman e o Argus Array, ampliem a quantidade de eventos detectados no futuro.Além de ajudar a compreender como buracos negros se formam, crescem e se movimentam, a pesquisa também contribui para estudos sobre evolução estelar, formação de galáxias e os efeitos da gravidade em condições extremas que não podem ser reproduzidas na Terra.O post Astrônomos revelam buraco negro gigante vagando fora de sua galáxia apareceu primeiro em Olhar Digital.