Ter uma grande base de seguidores já não garante que um conteúdo será distribuído pelas redes sociais. Com algoritmos cada vez mais orientados pelo interesse dos usuários, pelo engajamento e pelo tempo de visualização, alcance e visualizações ganharam importância na disputa pela atenção do público.Essa transformação esteve no centro de uma palestra com Fausto Carvalho, Roberto Indech, Renato Dolci e Pablo Spyer na Expert XP 2026. O debate reuniu dados sobre o tamanho do mercado de influência, o crescimento do conteúdo financeiro, as diferenças entre as plataformas e o avanço de perfis criados por inteligência artificial.Segundo Dolci, cientista político e especializado em marketing digital e análise de dados, em média, 70% do conteúdo exibido atualmente no Instagram para usuários brasileiros vem de contas que eles não seguem. Isso significa que um perfil pequeno pode alcançar um público muito maior do que sua base, desde que o conteúdo desperte interesse suficiente para ser distribuído.“O número de seguidores já não vale mais para o algoritmo.”— Renato Dolci, cientista político e especializado em marketing digital e análise de dadosA afirmação não significa que os seguidores tenham perdido completamente o valor comercial. O próprio palestrante observou que patrocinadores ainda consideram o tamanho da base ao contratar um influenciador. Para os algoritmos, porém, outras métricas passaram a ter maior peso, criando um descompasso entre a forma como as plataformas distribuem conteúdo e os critérios ainda utilizados pelo mercado publicitário.Confira as colunas de Renato Dolci no InfoMoneySeguidores perdem espaço para alcance e visualizaçõesDolci afirmou que o engajamento passou a ocupar o espaço que antes pertencia principalmente ao número de seguidores. De acordo com os dados apresentados, contas com até 50 mil seguidores registram engajamento superior ao de perfis com mais de 1 milhão.A mudança ocorre porque as plataformas passaram a entregar conteúdos com base no comportamento de cada usuário. Assim, não é mais necessário seguir uma página para receber suas publicações. Um perfil com mil seguidores, exemplificou Dolci, pode alcançar um público expressivo se produzir um conteúdo considerado relevante pelo algoritmo.Um caso apresentado durante a palestra reforçou essa mudança. Um vídeo de Fausto Carvalho alcançou aproximadamente 5,6 milhões de visualizações, com 40% do público formado por pessoas que não seguiam o perfil. Apesar do grande alcance, a conversão dessas visualizações em novos seguidores foi proporcionalmente pequena.O exemplo mostra que viralizar e aumentar a base deixaram de ser movimentos necessariamente associados. As pessoas também estão curtindo e seguindo menos páginas porque os algoritmos conseguem identificar seus interesses e continuar entregando conteúdos relacionados sem exigir essa ação.Na avaliação apresentada no palco, as redes vêm desestimulando gradualmente a métrica de seguidores e valorizando as visualizações. Ao mesmo tempo, patrocinadores ainda observam o número de seguidores antes de fechar uma parceria, o que Dolci classificou como um descompasso do mercado.Leia mais: Trader profissional ganha em apenas 55% a 60% das vezes, diz tesoureiro da XPMercado de influência chega a cerca de US$ 200 bilhõesA mudança das métricas ocorre enquanto o mercado de influência amplia sua participação nos investimentos em publicidade.Segundo os números citados por Dolci, o setor movimenta cerca de US$ 200 bilhões globalmente. O montante se aproxima dos aproximadamente US$ 230 bilhões destinados diretamente a anúncios em plataformas como Google e Meta, classificados por ele como investimentos em mídia de performance.“Os influenciadores já são do tamanho do mercado de performance no mundo”, afirmou Dolci.Cinco anos antes, de acordo com os dados apresentados, o mercado de influência movimentava aproximadamente US$ 70 bilhões. O crescimento até os atuais US$ 200 bilhões mostra que o volume praticamente triplicou no período.Dolci também mencionou uma pesquisa segundo a qual o conteúdo produzido por influenciadores estaria proporcionando retorno superior ao investimento direto em mídia de performance. A comparação foi apresentada como uma das explicações para o aumento dos recursos destinados aos criadores.Leia também: Stop técnico ou financeiro? Traders debatem estratégias na Expert XP 2026 Finanças quase alcançam política nas conversas onlineOs dados apresentados durante a palestra também dimensionam o avanço do conteúdo financeiro no ambiente digital brasileiro. Segundo Dolci, finanças representam cerca de 3% do volume de conversas na internet do País, enquanto política responde por aproximadamente 4%.Há dez anos, os conteúdos financeiros correspondiam a apenas 0,5% desse total. A comparação mostra como o assunto ganhou espaço e se aproximou de uma das categorias que mais mobilizam discussões nas redes sociais.Essa expansão foi acompanhada por uma mudança na forma de buscar informação. Os participantes observaram que, anos atrás, quem desejava aprender sobre investimentos recorria principalmente a livros, sites e materiais especializados. Atualmente, uma parcela crescente desse conhecimento circula por vídeos, publicações e conteúdos produzidos por influenciadores de diferentes nichos.Leia tambémExpert XP: “Pequenos fracassos foram os maiores aprendizados”, diz João FonsecaEm painel na Expert XP 2026, o tenista brasileiro compartilhou suas aspirações no esporte e o sonho de colocar o Brasil no topoYouTube supera a Globo, segundo comparação apresentadaEntre as plataformas analisadas, o YouTube foi apontado como a rede de maior penetração no Brasil e como um dos principais canais para conteúdos financeiros.Para dimensionar esse alcance, Dolci apresentou uma comparação entre as receitas estimadas do YouTube e da Globo no País.O YouTube, em 2025, passou a Globo. Ele já seria o maior canal de mídia do Brasil”, afirmou Dolci.Segundo os números citados por ele, o YouTube movimentaria cerca de R$ 16 bilhões no Brasil, ante aproximadamente R$ 14 bilhões da Globo. A comparação foi usada durante a palestra para mostrar o tamanho alcançado pela plataforma no mercado nacional de mídia.Dolci também afirmou que o YouTube divide parte relevante de sua receita com os criadores. Ao lado do Facebook, a plataforma foi citada entre as redes que mais remuneram diretamente os influenciadores, enquanto a monetização do TikTok ainda foi considerada menos estabelecida.Leia também: Até que preço o bitcoin pode cair? Para Stormer, o piso atual pode ser US$ 52 milCada plataforma concentra um público diferenteOs participantes ressaltaram que a escolha de uma rede não deve considerar apenas seu tamanho. Idade e renda foram apresentadas como duas variáveis importantes para compreender o público concentrado em cada plataforma.O YouTube foi classificado como a maior rede da classe C no Brasil. O Instagram, por sua vez, foi associado a usuários de maior renda e a uma presença mais forte na faixa entre 25 e 34 anos.No TikTok, os dados apresentados apontam crescimento tanto de renda quanto de idade. Dolci afirmou que a terceira idade é o grupo etário que mais cresce na plataforma. O Facebook também concentra um público mais velho, mas com renda menor na comparação feita durante a palestra.Já o LinkedIn foi associado a usuários de alto poder aquisitivo. A rede, entretanto, possui uma base menor no Brasil e foi apontada como a plataforma mais cara para anunciar entre as mencionadas no debate.A influência do TikTok vai além do crescimento de seu público. Segundo Dolci, seu algoritmo modificou o funcionamento das demais plataformas. O Instagram passou a recomendar mais conteúdos de contas não seguidas e a organizar o feed de acordo com interesses, em um modelo semelhante ao adotado pelo TikTok.Também foi citado que integrantes da geração Z passaram a utilizar a busca do TikTok em lugar do Google em determinadas situações, principalmente pela preferência por resultados apresentados em vídeos e imagens.Leia tambémIA acelera decisões no mercado financeiro, mas exige mais capacidade analíticaSem governança e análise crítica, o avanço da tecnologia pode transformar eficiência em risco operacionalTendências ajudam, mas consistência permanece decisivaAo explicar seu processo de criação, Fausto Carvalho afirmou que parte do trabalho nasce da improvisação e do aproveitamento de assuntos que já estão recebendo grande atenção nas redes.“Todo mundo aproveitou o hype. A gente tem que aproveitar alguns hypes”, afirmou Carvalho.Ele citou a Copa do Mundo e personagens que ganharam repercussão na internet como exemplos de tendências capazes de ampliar o alcance de um conteúdo. Carvalho ponderou, porém, que isso não significa perseguir todas as novidades. A identidade e a autenticidade do criador precisam ser preservadas.Para Dolci, as tendências possuem lógica do ponto de vista das métricas porque inserem o criador em temas que o público já está acompanhando. Ainda assim, a frequência de publicação continua sendo um elemento central para aumentar as possibilidades de romper a própria bolha.A internet é um lugar de consistência”, afirmou Dolci.Na sequência, ele explicou que, matematicamente, a consistência tende a superar os demais fatores no ambiente digital. Quanto maior a frequência de publicação, maiores são as chances de um conteúdo alcançar pessoas que ainda não conhecem aquele perfil.Pablo Spyer acrescentou ao debate a importância de construir uma identidade reconhecível. Ele mencionou elementos como bordões, consistência e rapidez na divulgação de notícias. No conteúdo financeiro, chegar primeiro pode representar uma vantagem, mas os participantes ressaltaram que a velocidade precisa ser acompanhada de qualidade e algum nível de aprofundamento.Dolci também recomendou que os criadores não dependam de uma única plataforma.“Não coloque seu pé em um lugar só. Crie conteúdo em vários lugares, porque as redes morrem e nascem com muita agilidade.”— Renato Dolci, cientista político e especializado em marketing digital e análise de dadosSegundo ele, a rede que mais cresce em determinado momento costuma ditar mudanças que posteriormente são incorporadas pelas concorrentes. Naquele momento, o TikTok foi apontado como a plataforma que puxava as principais tendências, enquanto o Instagram perdia engajamento para a rival.Leia também: “Renda extra não é coisa de pobre”: Primo Pobre explica como diversificar ganhosInfluenciadores sintéticos começam a ganhar espaçoA inteligência artificial também apareceu como uma nova força nesse mercado. Dolci ponderou que os influenciadores humanos continuam relevantes e ainda dominam o setor, mas apresentou números que mostram o crescimento dos chamados influenciadores sintéticos — personagens que não existem fisicamente e são criados com tecnologia.Sete por cento de tudo que é vendido no TikTok Shopping é influenciador sintético. É gente que não existe.Segundo ele, essa participação era praticamente nula oito meses antes. O avanço estava concentrado principalmente em produtos de menor valor agregado vendidos dentro da plataforma.Dolci também relatou o caso de páginas sintéticas criadas em torno de temas relacionados à Copa do Mundo. Em aproximadamente três meses, esses perfis teriam alcançado entre 400 mil e 600 mil seguidores.O crescimento rápido foi atribuído ao uso de dados para identificar nichos e formatos com maior potencial de engajamento. Em vez de depender da trajetória de uma pessoa real, essas páginas são criadas diretamente a partir dos assuntos que apresentam melhor desempenho nas redes.Algoritmos mudam mais rápidoA velocidade dessas transformações foi outro ponto recorrente da palestra. Os participantes relataram que estratégias consideradas eficientes podem perder força em pouco tempo, obrigando os criadores a acompanhar constantemente as alterações anunciadas pelas plataformas e os efeitos práticos dessas mudanças.Dolci afirmou que, naquele momento, TikTok e Meta começavam a favorecer vídeos com mais de três minutos. O movimento contrariava a orientação predominante nos anos anteriores, marcada pela recomendação de conteúdos cada vez mais curtos.A mudança também reforçava a importância da qualidade. Com mais espaço para vídeos longos, os criadores poderiam aprofundar os assuntos, desde que conseguissem manter a atenção do público.Na explicação apresentada durante a palestra, uma visualização pode ser contabilizada depois de aproximadamente um segundo. Permanecer no vídeo por cerca de 15 segundos, entretanto, gera um sinal mais forte para o algoritmo e pode ampliar sua distribuição. Até mesmo interromper a rolagem para observar uma publicação pode ser interpretado como engajamento.Por isso, Dolci defendeu que os criadores acompanhem principalmente alcance e visualizações, sem considerar apenas a quantidade de seguidores.Como acompanhar esse mercadoEntre as ferramentas mencionadas durante o debate estão HypeAuditor e Social Blade, além das áreas de métricas oferecidas pelo próprio Instagram e pelo TikTok.O HypeAuditor foi citado para acompanhar tendências e analisar perfis. Já o Social Blade permite observar informações como crescimento, frequência de publicação e engajamento de diferentes contas.Dolci também sugeriu uma experiência prática: abrir um perfil, não seguir ninguém e observar como o algoritmo passa a selecionar os conteúdos. Segundo ele, mesmo sem seguir qualquer conta, o usuário pode receber publicações altamente segmentadas apenas com base no que assiste e no tempo dedicado a cada tema.A experiência resume uma das principais transformações apresentadas na palestra. Os seguidores continuam relevantes para a imagem comercial de um influenciador, mas deixaram de ser o principal fator de distribuição. Para os algoritmos, o comportamento do público diante de cada conteúdo passou a determinar quem será alcançado — e até onde uma publicação pode chegar.The post “Número de seguidores já não vale mais para o algoritmo”, alerta Renato Dolci appeared first on InfoMoney.