Os bastidores da convenção que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência

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Abrindo o período de convenções partidárias que definem quem deixa a disputa na pré-campanha e quem vai para as urnas, o Partido Liberal realizou a sua convenção nacional na manhã de sábado (25), apresentando oficialmente Flávio Bolsonaro (PL) como o nome da legenda para a Presidência da República. O evento, marcado por manchetes, participações especiais e falas duras, pode mostrar mais nas entrelinhas do que parece à primeira vista. Afinal, o que a convenção do PL diz sobre o momento do partido e a campanha do filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro?Entre os três primeiros filhos do ex-presidente, Flávio é sem dúvidas o mais articulado politicamente. Desde dos 21 anos na política, com quatro mandatos de deputado estadual e no fim de sua primeira legislatura como senador pelo Rio de Janeiro, Flávio chega à disputa pelo Planalto com o peso de carregar o legado do pai, driblar as sucessivas polêmicas que o ligam à Daniel Vorcaro e ao Banco Master e se consolidar como líder de uma direita fragmentada.No centro de um palco cheio de pré-candidatos, aliados e assessores, Flávio foi o personagem principal da convenção do PL. Sem definir um vice-presidente, sem dar detalhes sobre seu plano de governo e sem construir alianças sólidas de apoio à seu nome na corrida eleitoral, o evento teve o tom do próprio senador: emocional. O pré-candidato se emocionou mais de uma vez, utilizando o lenço que carregava no bolso.Durante seu discurso, que fechou o evento, foram transmitidos três vídeos. O primeiro, e mais polêmico, trouxe um Jair Bolsonaro gerado por inteligência artificial, que pediu para que os eleitores recebam “de braços abertos” a pessoa que ele escolheu para substituí-lo, além de classificar a sua prisão como injusta e arbitrária, levando o filho às lágrimas.O segundo e terceiro vídeos, menos emotivos, trouxeram mensagens de apoio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e do deputado federal Nikolas Ferreira (PL), um dos nomes mais populares da direita nacional e o parlamentar mais votado nas eleições de 2022.Antes, também foram transmitidas mensagens dos seus irmãos mais novos, Carlos Bolsonaro (PL), pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, e Eduardo Bolsonaro (PL), além das filhas do ex-deputado, afirmando que o tio se tornará presidente e que elas poderão voltar ao Brasil. Eduardo, que na última semana recebeu o “green card” do governo americano, se mudou para os Estados Unidos em fevereiro de 2025, alegando sofrer perseguição política. Em junho de 2026 foi condenado pelo STF à quatro anos e dois meses em regime semiaberto por coação no curso do processo, por articular sanções com o governo dos EUA para tentar livrar seu pai da condenação por golpe de estado.De volta ao palanqueMas a participação especial mais importante politicamente foi a da madrasta, Michelle Bolsonaro (PL), que não foi ao evento, mas também enviou um vídeo reforçando a paz entre ela e Flávio, ao menos publicamente. Os dois protagonizaram uma briga pública nas últimas semanas, com trocas de postagens nas redes sociais, resultando na desistência de Michelle de concorrer ao Senado pelo Distrito Federal.O vídeo da ex-primeira dama foi apresentado ao público pela presidente do PL Mulher de São Paulo, a deputada federal Rosana Valle. No momento da transmissão, os presentes gritaram o nome de Michelle em coro, evidenciando sua liderança natural no partido e que, para além do sobrenome da família, ela tem futuro eleitoral e identidade própria.A volta de Michelle à campanha também esteve entre as declarações e conversas de parlamentares pré-candidatos do partido que foram ao evento. Carol De Toni (PL), deputada federal e pré-candidata ao Senado por Santa Catarina, uma das aliadas da ex-presidente do PL Mulher dentro do partido, afirmou à Jovem Pan que “em nome de tirar a esquerda do poder, todos tem que estar unidos”, enquanto o senador pelo Mato Grosso, Wellington Fagundes (PL) disse acreditar que o apoio de Michelle é fundamental.Procura por viceO protagonismo de Michelle é um sintoma de um país cada vez mais dependente do voto das mulheres. A campanha de Flávio percebe isso e tenta superar a rejeição do eleitorado feminino.O reconhecimento desse fato pelo senador Rogério Marinho (PL), líder da oposição no Senado e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, aponta um caminho praticamente certo: a vice na chapa do PL deve ser ocupada por uma mulher. O senador contou com exclusividade durante o evento que de fato a preferência é por uma mulher, desde de que ela “tenha possibilidade de materializar a mensagem adequada à população brasileira e que com visão conservadora”.Ainda há, segundo Marinho, a possibilidade de ser montada uma chapa pura. O partido não conseguiu o apoio explícito de partidos do campo conservador com grande presença no Congresso, como o Republicanos e o Progressistas, legenda da senadora Tereza Cristina (PP), que chegou a ser sondada para a vice, mas declinou em favor de disputar a presidência do Senado, onde possui mandato até 2031.A presença pitoresca do presidente da Argentina, Javier Milei, teve um objetivo claro: validar a campanha de Flávio como expoente da direita brasileira. O ultra-liberal falou por cerca de meia hora em espanhol, chamando o presidente Lula (PT) de presidiário e arrumando outro problema para Flávio ao contestar a prisão de Jair Bolsonaro, que disse ser seu amigo e classificando o ministro do STF Alexandre de Moraes como “lixo careca”.A declaração não passou batida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que se manifestou em nota afirmando que “trata-se de referência desrespeitosa a um magistrado da mais alta Corte do País” e que as falas foram “incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados’’. O Itamaraty também reagiu, convocando o embaixador brasileiro em Buenos Aires para conversar com o chanceler Mauro Vieira, em um gesto diplomático de insatisfação.A participação de Milei – e antes sua passagem pelo Palácio dos Bandeirantes onde foi condecorado por Tarcísio de Freitas (Republicanos) – revela que apesar da idolatria à Bukele, a direita latinoamérica tem um líder, que segue viagem para as posses de Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Perú.Tarcísio, antes desejado pelo mercado financeiro para concorrer à Presidência como uma versão “light” de Jair Bolsonaro, fez um discurso duro contra o PT e o governo Lula, exaltando Flávio Bolsonaro. O mesmo aconteceu durante a fala do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que, mesmo não sendo candidato, fez um discurso exaltado, chamando seus opositores na eleição municipal de 2024 de “imundos da esquerda”, contrastando com uma postura tranquila em entrevistas e falas públicas.Apesar do esforço da campanha e de Flávio para parecer uma versão moderada do pai ao público externo, a estética e a retórica expostas ao seu eleitorado mais fiel não mentem: o bolsonarismo “raiz” está ali, ressentido e requentado. A questão é: o núcleo duro da direita que se identifica com o “bolsonarismo raiz” é o suficiente para levar o filho 01 de Jair Bolsonaro ao Planalto?