A China apresentou ao mundo em 2020 um projeto tão ambicioso quanto simbólico. Em plena ascensão do futebol no país, o Guangzhou Evergrande anunciou a construção de um estádio para 100 mil torcedores, com formato de flor de lótus e custo estimado em US$ 1,8 bilhão (mais de R$ 10 bilhões na cotação da época).A arena seria a maior do mundo construída exclusivamente para futebol e um novo cartão-postal do país.Menos de uma década se passou e o cenário hoje é completamente diferente. O clube deixou de existir no futebol profissional, a empresa que financiava a obra entrou em colapso e o estádio, que nunca chegou a ser inaugurado, virou um dos maiores símbolos da crise imobiliária chinesa.Projeto ambiciosoNa época, a arena superaria o Camp Nou, do Barcelona, como o maior estádio do mundo dedicado exclusivamente ao futebol.Além de receber os jogos do Guangzhou Evergrande, o empreendimento era visto como um palco para grandes competições internacionais, incluindo a Copa da Ásia.O projeto dependia quase exclusivamente da Evergrande, um dos maiores conglomerados empresariais da China.Durante anos, a empresa expandiu seus negócios de forma agressiva, financiando novos empreendimentos com empréstimos bilionários.O modelo funcionou enquanto o mercado imobiliário chinês crescia, mas começou a ruir quando Pequim passou a restringir o endividamento das construtoras.Em pouco tempo, a Evergrande acumulou mais de US$ 300 bilhões em dívidas, tornando-se o maior símbolo da crise imobiliária do país.Sem caixa, a companhia passou a vender ativos, interromper projetos e renegociar compromissos financeiros.Entre os empreendimentos afetados estava o estádio que teve suas obras interrompidas e o controle assumido pelo governo da cidade de Guangzhou em 2021.Colapso bilionárioPor quase dois anos, o canteiro de obras permaneceu praticamente abandonado.Fotos aéreas de 2022 mostravam guindastes parados, materiais de construção espalhados pelo terreno e uma estrutura inacabada.A Evergrande chegou a cancelar o contrato de uso do terreno para recuperar parte do dinheiro investido, mas os recursos foram destinados ao pagamento de credores.A perda do estádio também foi um dos símbolos da queda do Guangzhou Evergrande.A queda do GuangzhouComprado pela incorporadora em 2010, o clube havia se transformado em uma potência do futebol asiático graças aos intensos investimentos.O time conquistou oito títulos do Campeonato Chinês, duas Ligas dos Campeões da Ásia e contratou nomes conhecidos dos brasileiros, como Paulinho, Ricardo Goulart, Conca, Elkeson, Robinho e Talisca.Também foi comandado por técnicos como Luiz Felipe Scolari, Marcello Lippi e Fabio Cannavaro.Com a crise financeira da controladora, o time entrou em decadência. Os principais jogadores deixaram a equipe, o Guangzhou foi rebaixado e acabou perdendo a licença para disputar o futebol profissional por não cumprir exigências financeiras da federação chinesa.Um novo projetoApós assumir o controle do empreendimento, a empresa estatal chinesa Guangzhou City Construction Investment Group decidiu aproveitar parte da estrutura já existente, mas reformulou completamente a proposta.O novo projeto é mais convencional e barato. A capacidade caiu de 100 mil para 73 mil torcedores, enquanto o orçamento foi reduzido de cerca de € 1,5 bilhão (R$ 8,9 bilhões) para aproximadamente € 300 milhões (R$ 1,7 bilhões).Rebatizado de Guangzhou Football Park, o complexo deixará de ser apenas uma arena de futebol.O novo plano prevê a construção de um centro público de atividades esportivas e espaços comerciais.Quando for inaugurado, este será o maior estádio de futebol profissional da China, mas abandona a ambição de se tornar a maior arena do mundo, atualmente prevista para ser construída no Marrocos para a Copa do Mundo de 2030.Só não se sabe no momento se isso irá realmente ocorrer.*Com supervisão de Ricardo Gozzi