A forte correção observada nas ações do setor de utilidade pública (utilities) levou o JPMorgan a adotar uma postura mais criteriosa na escolha de papéis do segmento. Em relatório, os analistas do banco de investimentos lembram que o setor acumulou queda de 14% em um trimestre, ficando 5 pontos percentuais abaixo do Ibovespa. A equipe de análise do JPMorgan aponta que o aumento no prêmio de risco do setor veio acompanhado de maior incerteza macroeconômica e operacional.Dentre os motivos da baixa trimestral, o custo macroeconômico representa o principal obstáculo no momento. Segundo o relatório, as taxas de juros reais no Brasil registraram avanço de 60 pontos-base nos últimos três meses, e os economistas do banco projetam que as taxas nominais devem encerrar o ano de 2027 no patamar de 12,25%. Caso esse ambiente de juros maiores persista por um período prolongado, as empresas do setor tendem a enfrentar pressões decorrentes do alto nível de alavancagem dos balanços, que atinge uma média de 3 vezes na relação entre Dívida Líquida e Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), o que impulsiona revisões para baixo no Lucro Por Ação (LPA) e comprime o prêmio de risco do segmento.Leia tambémIbovespa fecha em alta confortável, com bancos e Vale; Petrobras recuaÍndices nos EUA terminam mistos, com petróleo e ações de IA em quedaAlém dos fatores macroeconômicos, o ambiente micro também sente ventos contrários, com desaceleração operacional das companhias. Os analistas afirmam que as estimativas foram impactadas pelo declínio de 30% nos preços de energia projetados para o segundo e terceiro trimestres de 2026, somado a um leve aumento nas despesas operacionais e à perspectiva de menor distribuição de dividendos aos acionistas. Diante dessa combinação, a casa de análise promoveu cortes em suas estimativas de resultados para o ano de 2026 de empresas como a Sabesp (SBSP3), a Axia (AXIA3) e a Copel (CPLE3).“Nossa cobertura para o setor de Utilidade Pública torna-se mais seletiva, apesar da venda generalizada (sell-off) de 14% nos últimos 3 meses (-5 pontos percentuais versus IBOV)”, explicam os analistas do JPMorgan, justificando a busca por ativos com gatilhos regulatórios favoráveis ou forte previsibilidade de caixa.Divisão de perfis conforme estratégiaPor conta do cenário desfavorável de curto prazo, o JPMorgan dividiu suas preferências entre três pilares estratégicos de investimento para o setor: tático, estrutural e defensivo.Como escolhas táticas, o banco destaca a Energisa (ENGI11), respaldada por gatilhos regulatórios no segmento de distribuição que consideram subestimados pelo mercado no segundo semestre de 2026, e a Axia (AXIA3), cujo valuation atrativo, negociando a uma taxa interna de retorno real em torno de 13,5%, favorece o programa de recompra e resgate de papéis. Para as teses estruturais, a preferência vai para a Eneva (ENEV3), devido à previsibilidade dos contratos de longo prazo no segmento de gás e opcionalidade de crescimento, e sobre a Sabesp (SBSP3), posicionada para expansão orgânica com um plano de investimentos de US$ 20 bilhões em quatro anos. Leia tambémVale: Goldman corta VALE3 para neutro e vê poucos gatilhos, mas ação fecha em altaBanco reduziu recomendação de compra para neutra e baixou preço-alvo do ADR para US$ 16, citando menor atratividade do valuation e perspectiva mais moderada para minério de ferro e metais básicos no curto prazoPor fim, entre os nomes defensivos, a Copel (CPLE3) surge como opção pelo balanço forte e projeção de retorno de dividendos em torno de 6%, enquanto a Alupar (ALUP11) se destaca por ter 20% das suas receitas atreladas ao dólar (USD) e fluxo de caixa contratado.Já quando se trata de discussões sobre riscos e potenciais surpresas positivas no setor de distribuição, os analistas reforçam que revisões em parâmetros normativos podem beneficiar os ativos. Ao mencionar o fator de produtividade, por exemplo, representam um potencial de valor presente líquido superior a 10% que não está totalmente precificado pelos investidores. Adicionalmente, caso os juros sigam elevados por mais tempo, o WACC (Custo Médio Ponderado de Capital) regulatório permitido para as distribuidoras pode ser fixado em patamares superiores. Porém, o banco adota a premissa conservadora de que esses retornos cairão nos próximos anos antes de se recuperarem para a faixa de 8% em termos reais. No segmento de geração, o modelo do banco assume o preço de energia de longo prazo em R$ 220 por megawatt-hora (MWh), mas pondera que o custo de capital mais alto pode elevar o custo marginal de expansão do sistema.“Levando em consideração essa configuração adversa, apresentamos escolhas de ações com diferentes perfis, ao passo que equilibramos valuations e assimetria de risco”, aponta o levantamento do JPMorgan, justificando a combinação de teses.Leia tambémWEG recebe dupla elevação a compra com “nova fase de crescimento”; ação tem leve altaBradesco BBI elevou a recomendação para outperform e fixou preço-alvo de R$ 60, enquanto JPMorgan passou a indicar compra com alvo de R$ 56; bancos veem forte aceleração do crescimento a partir de 2027Panorama consolidadoAbaixo, o relatório do JPMorgan compila o resumo das teses operacionais, riscos e avaliações para as empresas sob cobertura, projetando o valor justo das ações para o encerramento de 2027:Alupar (ALUP11): Perfil defensivo com receitas atreladas ao dólar e forte disciplina na transmissão de energia. Riscos envolvem alocação de capital em leilões com baixos retornos e arbitragem na TNE.Auren Energia (AURE3): Portfólio renovável e receitas indexadas à inflação, porém limitada por alta alavancagem financeira após a incorporação da AES Brasil. Riscos envolvem preços da energia no mercado livre e corte de geração.Axia: Antiga Eletrobras, é vista como um dos ativos mais atrativos pela capacidade de destravamento de valor e corte de despesas após a privatização. Riscos incluem passivos judiciais com empréstimos compulsórios e atraso nas sinergias.Cemig (CMIG4): Foco operacional na distribuição e transmissão em Minas Gerais. A classificação de venda fundamenta-se na baixa probabilidade de privatização e na queda dos dividendos. Riscos de alta incluem avanço do processo de desestatização no legislativo estadual.Copasa (CSMG3): Privatizada recentemente, a tese baseia-se na eficiência operacional trazida pela nova gestão e expansão do Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Riscos incluem falhas na execução do plano de investimento.Copel (CPLE3): Tese pautada na transformação pós-privatização, redução de custos e atratividade na distribuição de proventos. Riscos envolvem volatilidade nos preços de energia não contratada.CPFL Energia (CPFE3): Nome defensivo no segmento de distribuição, com fluxo de caixa previsível, mas limitado por um valuation considerado exigente em relação aos pares. Riscos envolvem revisões tarifárias e mudanças no WACC (Custo Médio Ponderado de Capital) regulatório.Energisa (ENGI11): Crescimento focado em distribuição de energia com forte eficiência operacional e alocação disciplinada. Riscos envolvem desaceleração no consumo e pressão de venda por acionistas relevantes.Engie Brasil (EGIE3): Pressionada pelo avanço na alavancagem e impactos de corte na geração renovável (curtailment), com expectativa de menor distribuição de dividendos. Riscos de alta dependem da recuperação nos preços de venda no mercado livre.Eneva (ENEV3): Modelo R2W (Reservoir-to-Wire) oferece alta previsibilidade por meio de contratos de longo prazo atrelados à inflação no mercado regulado. Riscos incluem custos crescentes de construção e reposição de reservas de gás natural.EmpresaRecomendaçãoPreço-Alvo (Dez/2027)AluparOverweight (Compra)R$ 41,00Auren EnergiaNeutroR$ 15,50AxiaOverweight (Compra)R$ 67,50CemigUnderweight (Venda)R$ 13,00CopasaOverweight (Compra)R$ 78,00CopelOverweight (Compra)R$ 17,00CPFL EnergiaNeutroR$ 50,00EnergisaOverweight (Compra)R$ 59,00Engie BrasilUnderweight (Venda)R$ 31,00EnevaOverweight (Compra)R$ 32,00 (Dez/2026)The post As escolhas do JPMorgan em ações de “utilities” após desempenho abaixo do setor appeared first on InfoMoney.