Por que as “bolas espaciais” conseguiram chegar quase intactas à Terra?

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As seis esferas metálicas encontradas neste mês em praias de Queensland, na Austrália, continuam sendo investigadas como possíveis fragmentos de um foguete que reentrou na atmosfera terrestre. Depois da análise inicial da Agência Espacial Australiana (ASA), especialistas agora explicam por que esse tipo de objeto consegue chegar praticamente intacto ao solo e quais desafios isso representa para o monitoramento do lixo espacial.Os pesquisadores afirmam que recipientes de pressão usados em veículos de lançamento costumam ser fabricados com materiais altamente resistentes ao calor da reentrada. Além disso, o aumento do número de lançamentos espaciais faz com que episódios como esse tendam a se repetir, ainda que a maior parte dos detritos caia no oceano.Relembre o caso das “bolas espaciais”Seis esferas metálicas foram encontradas em praias da região de Queensland, no norte da Austrália.Os objetos apareceram ao longo de alguns dias na faixa litorânea de Forrest Beach, próxima a Townsville.A Agência Espacial Australiana (ASA) informou que as peças são compatíveis com recipientes de pressão de um corpo de foguete estrangeiro que reentrou na atmosfera.As autoridades isolaram áreas das praias por precaução até que os materiais fossem considerados seguros.A origem exata dos fragmentos ainda está sendo investigada, e a agência australiana mantém contato com autoridades internacionais para identificar o lançamento responsável.A Agência Espacial Australiana acredita que a estranha esfera seja o resquício de um foguete – (Reprodução: Departamento de Bombeiros de Queensland)Objetos podem resistir ao calor da reentradaMarlon Sorge, diretor executivo do Center for Orbital and Reentry Debris Studies (CORDS), da Aerospace Corporation, disse ao Space.com que não é surpreendente que as chamadas “bolas espaciais” tenham sobrevivido à passagem pela atmosfera.De acordo com o especialista, esses componentes costumam ser produzidos em titânio, um material que suporta temperaturas muito elevadas. Além disso, seu formato faz com que desacelerem mais durante a queda do que blocos sólidos de metal, permitindo que atinjam a superfície com menor impacto.Sorge afirma ainda que recipientes de pressão, incluindo modelos conhecidos como Composite Overwrapped Pressure Vessels (COPV), já são reconhecidos pela comunidade científica como um tipo de componente com maior probabilidade de sobreviver à reentrada.Reentrada controlada reduziria os riscosPara o pesquisador, parte do problema poderia ser evitada se estágios superiores de foguetes fossem conduzidos a uma reentrada controlada, em vez de retornarem à Terra de forma aleatória.Nesse cenário, mesmo que algum componente resistisse ao calor extremo, ele seria direcionado para áreas sem população, reduzindo os riscos para pessoas e propriedades.Sorge acrescenta que os recipientes encontrados na Austrália aparentemente vieram de um evento de reentrada não controlada, caindo no mar antes de serem levados até a costa.Analisar os destroços ajuda a entender a reentradaSegundo o especialista, estudar objetos recuperados fornece informações importantes sobre o comportamento dos detritos espaciais durante a volta à Terra.A forma como os materiais chegaram ao solo pode indicar, por exemplo, quais temperaturas enfrentaram durante a reentrada e quais condições não foram suficientes para destruí-los. Essas informações ajudam pesquisadores a aprimorar modelos sobre o comportamento do lixo espacial.Sorge afirma que outro desafio é identificar exatamente de onde vieram esses objetos. Caso existam registros precisos do horário da reentrada e do local do impacto, torna-se mais fácil relacionar os fragmentos ao lançamento que os originou.Por que é tão difícil prever onde o lixo espacial vai cair?Michelle Hanlon, diretora executiva do Center for Air and Space Law, da Universidade do Mississippi, disse ao Space.com que não é incomum que fragmentos de um mesmo foguete apareçam em diferentes partes do mundo.Ela explica que objetos em órbita baixa passam sobre grande parte do planeta enquanto a Terra gira abaixo deles. Quando a reentrada não é controlada, pequenas variações causadas pelo atrito com a atmosfera podem alterar o ponto final da queda em milhares de quilômetros.Como a maior parte da superfície terrestre é coberta por oceanos, a maioria dos destroços termina no mar. Em alguns casos, porém, componentes mais resistentes sobrevivem e acabam sendo encontrados em praias ou outras áreas habitadas.Mais lançamentos significam mais reentradasHanlon afirma que recipientes de pressão, como os encontrados na Austrália, estão entre os componentes com maior chance de permanecerem intactos após a reentrada justamente porque foram projetados para suportar pressões extremas.A especialista também avalia que identificar o país de origem nem sempre depende da existência de uma marca visível no objeto. Em muitos casos, isso pode ser feito por meio do projeto da peça, números de série ou registros de lançamento, enquanto uma inscrição pode nem resistir às altas temperaturas.Segundo Hanlon, o principal desafio hoje é melhorar o compartilhamento de informações e o rastreamento desses objetos para que autoridades consigam identificar rapidamente sua origem, avaliar possíveis riscos e acionar o país responsável.Ela destaca ainda que o aumento desses episódios acompanha o crescimento da atividade espacial mundial. Mesmo que a grande maioria das reentradas ocorra conforme o planejado, um número maior de lançamentos também resulta em mais retornos à Terra e, consequentemente, em mais oportunidades para que peças resistentes sobrevivam e apareçam em locais inesperados.O post Por que as “bolas espaciais” conseguiram chegar quase intactas à Terra? apareceu primeiro em Olhar Digital.