O setor brasileiro de máquinas e equipamentos se posicionou nesta terça-feira contra o uso da Lei da Reciprocidade, instrumento que permitiria ao Brasil retaliar os Estados Unidos com sobretaxas equivalentes, como resposta ao novo tarifaço americano. Para o setor, a saída para o impasse comercial passa pela negociação, e não pela revanche. A avaliação foi feita pelo presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, após reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Esse foi um dos primeiros encontros do governo com o setor sobre a nova rodada de sobretaxaVelloso foi enfático ao dizer que a entidade é contrária ao uso da reciprocidade. Ele explicou que o mecanismo não é simples de acionar, pois depende de etapas como uma consulta pública no Brasil — na qual, em sua avaliação, a maioria dos setores se posicionaria contra. Para ele, retaliar não resolve um problema que é, na origem, político.— Nós não somos a favor (da aplicação da Lei da Reciprocidade). Entendemos que nós temos que continuar pela via diplomática-empresarial, que é o que nós estamos fazendo. Para fazer a Lei de Reciprocidade, teria que fazer uma consulta pública antes, aqui no Brasil. E eu tenho a impressão de que, se essa consulta pública for feita, a maioria dos setores vão ser contra nessa consulta. E nós, com certeza, seremos — disse.O dirigente lembrou uma audiência pública realizada em Washington pelo órgão de comércio dos Estados Unidos (USTR), na qual entidades e empresas americanas manifestaram apoio ao Brasil, sem praticamente nenhuma defesa da taxação de máquinas. Ainda que o governo americano tenha mantido a medida mesmo contra a vontade de seus próprios empresários, Velloso destacou que os argumentos econômicos pesam contra o tarifaço — como o fato de os EUA terem superávit no comércio com o Brasil desde 2009 e de as empresas americanas serem as que mais investem no país.O tarifaço prevê a cobrança de uma taxa extra de 25% sobre as máquinas e demais produtos brasileiros que ficaram fora da lista de exceções — ou seja, que não foram poupados pelo governo americano. O setor já havia enfrentado uma medida parecida, derrubada em fevereiro. Agora, a essa taxa pode se somar uma cobrança adicional de 12,5%, ligada a uma acusação de trabalho forçado, o que levaria o total a 37,5%.Segundo Velloso, apesar de grave, esse empilhamento de tarifas é menos danoso do que os 25% aplicados só ao Brasil, porque a cobrança de 12,5% atingiria também os concorrentes de outros países.— A tarifa de 25% é pior porque é uma tarifa para o Brasil. Então, tira a competitividade do nosso produto em relação ao produto asiático, ao europeu, de outras origens — explicou.A ressalva é que os Estados Unidos fabricam máquinas e, por isso, competem diretamente com o produto brasileiro. Assim, a taxa extra de 12,5% faria o Brasil perder terreno para o fabricante americano, ainda que não em relação a asiáticos e europeus. Para Velloso, a medida tem caráter protecionista e seria uma forma de o governo americano contornar uma decisão recente da Suprema Corte do país que limitou o uso de um dos mecanismos anteriores de taxação.Diante desse quadro, o dirigente afirmou que a principal saída, com tarifa de 25% ou de 37,5%, é buscar novos compradores fora dos Estados Unidos. E, segundo ele, o setor tem mostrado fôlego para isso: mesmo com a queda nas vendas aos americanos, as exportações de máquinas cresceram 12% no acumulado dos últimos doze meses, em nível recorde. A fatia dos EUA nas exportações do setor, que já foi de 31% antes do tarifaço e de 26% na primeira fase, caiu para 22%.— Mesmo caindo nos Estados Unidos, nós crescemos. Então, a expectativa é muito boa. É um setor que responde muito ao estímulo às exportações — disse.Na reunião com Alckmin, a Abimaq apresentou propostas em duas frentes. A primeira busca baixar custos internos que encarecem o produto brasileiro, o chamado Custo Brasil, com medidas como a redução de tributos que sobram na cadeia de produção e dificultam a exportação, além de mais crédito, seguro e a devolução de impostos pagos por quem produz para vender ao exterior (o drawback).A segunda frente pede ajustes no Brasil Soberano, programa de apoio às empresas afetadas pelo tarifaço. O principal ponto, nesse caso, é facilitar a entrada de empresas no programa. Velloso citou como exemplo a regra que exige que a companhia comprove já ter exportado aos Estados Unidos em determinado período.— É um programa bom, que já mostrou resultado. Se a gente conseguir ampliar a elegibilidade, vamos conseguir melhorar ainda mais o resultado — afirmou.O encontro desta manhã, voltado só ao setor de máquinas, seria seguido de novas reuniões à tarde no ministério do Desenvolvimento com outros grupos de entidades. Segundo Velloso, o diálogo com Alckmin é constante, e a expectativa é de que o vice-presidente acolha as propostas e sinalize o que poderá avançar. The post Tarifaço: setor de máquinas se reúne com Alckmin e se diz contra uso da reciprocidade appeared first on InfoMoney.