O estelionato se tornou o principal crime patrimonial do Brasil em 2025. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 2.261.055 casos ao longo do ano, o que representa uma alta de 3,1% em relação a 2024. O número representa uma média de 258 golpes por hora no país e reforça a mudança no perfil da criminalidade patrimonial, cada vez mais concentrada nas fraudes praticadas em ambientes digitais.O crescimento deste tipo de crime ocorre de forma contínua desde o início da série histórica. Em 2018, foram contabilizados 426.799 registros. Sete anos depois, o número de ocorrências aumentou 429,8%, refletindo, segundo o Anuário, a mudança das dinâmicas criminosas para o ambiente digital e a expansão das fraudes eletrônicas.Previsto no artigo 171 do Código Penal, o estelionato é o crime de obter vantagem ilícita para si ou para outra pessoa por meio de fraude, induzindo ou mantendo a vítima em erro. A prática pode ocorrer de diferentes formas, como golpes envolvendo falsas vendas, fraudes em seguros, emissão de cheques sem fundos e, mais recentemente, fraudes eletrônicas.Desde 2021, o Código Penal prevê pena de quatro a oito anos de prisão, além de multa, para os casos praticados por meio de redes sociais, contatos telefônicos, e-mails fraudulentos ou outros meios digitais, com aumento da punição quando o crime é cometido contra idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade ou envolve servidores mantidos no exterior.Apesar das mais de 2,26 milhões de ocorrências registradas pelas polícias, o Anuário avalia que os dados oficiais representam apenas parte do problema.Pesquisa realizada pelo Fórum em março de 2026 mostra que 15,8% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmaram ter sido vítimas de algum golpe ou perdido dinheiro pela internet ou pelo celular nos 12 meses anteriores. O percentual corresponde a cerca de 26,3 milhões de pessoas, número muito superior ao total de boletins de ocorrência registrados no período.O levantamento também indica que 83,2% da população tem medo de sofrer golpes pela internet ou pelo celular, o que mostra que esse tipo de crime passou a influenciar diretamente a percepção de insegurança da população.“É preciso, no entanto, ter cautela na leitura: a taxa mede registros, não necessariamente ocorrências reais. Estados com maior estrutura de delegacias especializadas e maior confiança da população no sistema de justiça tendem a apresentar mais notificações”Anuário Brasileiro de Segurança PúblicaEstruturas organizadasO Anuário aponta que o estelionato deixou de ser um crime praticado predominantemente por autores isolados para assumir características de uma atividade organizada. De acordo com o levantamento, as investigações policiais identificam grupos com divisão de tarefas, roteiros padronizados de abordagem e metas de arrecadação financeira, operando de maneira semelhante à de empresas.Um dos exemplos citados ocorreu em janeiro deste ano, quando a Polícia Civil de São Paulo desarticulou uma central de golpes que funcionava como um call center clandestino, com aproximadamente 100 funcionários e mais de 400 computadores.O documento também destaca que organizações criminosas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), passaram a investir nesse mercado diante do elevado retorno financeiro e do menor risco de punição em comparação com o tráfico de drogas.“Esse conjunto de evidências deixa claro que o Brasil não está diante de um problema de estelionatários dispersos, mas de uma economia criminal integrada, com estrutura empresarial, financiamento faccional e capacidade de captura do sistema financeiro”Anuário Brasileiro de Segurança PúblicaCelular amplia alcance das fraudesOutro fator apontado como impulsionador dos golpes é o roubo e o furto de celulares. Embora o número total de ocorrências envolvendo aparelhos tenha caído 7,7% em 2025, chegando a 792.284 registros, a composição desse tipo de crime mudou.Os roubos, caracterizados pelo uso de violência ou ameaça, diminuíram 18,6%, enquanto os furtos cresceram 0,9%. Com isso, atualmente seis em cada dez celulares subtraídos no Brasil são furtados, modalidade que, segundo o estudo, facilita o acesso dos criminosos a aplicativos bancários, contas digitais e dados pessoais armazenados nos aparelhos.Golpes mais frequentesLevantamento do setor financeiro citado pelo Anuário aponta que as modalidades mais comuns são:Clonagem ou troca de cartão de crédito (45%);Golpe do WhatsApp, em que criminosos se passam por conhecidos da vítima (34%);Falsa central telefônica bancária (31%);Golpe do Pix (24%);Uso indevido de CPF por mensagens de texto (13%);Leilões e lojas virtuais falsas (10%).Em comum, essas modalidades utilizam técnicas de engenharia social para convencer as vítimas a fornecer senhas, códigos de autenticação ou realizar transferências financeiras.Poucos casos chegam à JustiçaOs dados também revelam uma diferença entre o número de ocorrências registradas e a responsabilização criminal.Em 2025, dos 2.261.055 boletins de ocorrência, apenas 63.771 processos penais foram iniciados e 4.819 pessoas foram presas por estelionato. Na prática, apenas 2,8% dos registros resultaram na abertura de processos judiciais, percentual ligeiramente superior aos 2,4% observados em 2024.Isso significa que mais de 97% dos casos comunicados às autoridades não chegam ao Poder Judiciário, cenário que, segundo o Anuário, reduz o risco percebido pelos criminosos e favorece a expansão desse mercado ilícito.“Dar golpes no Brasil oferece riscos excepcionalmente baixos de punição, mesmo para um país que tem baixos índices gerais de esclarecimentos de crimes”Anuário Brasileiro de Segurança PúblicaPaíses adotam modelos diferentesO relatório também reúne programas de países que têm como objetivo combater as fraudes digitais.Em Singapura, o governo criou um Centro Anti-Golpes integrado a bancos e empresas de tecnologia, permitindo bloquear contas bancárias e linhas telefônicas utilizadas pelos criminosos em poucos minutos. A estratégia contribuiu para uma redução de 27,6% nos casos e de 17,9% nas perdas financeiras em 2025.No Reino Unido, bancos passaram a ser obrigados a reembolsar vítimas de golpes envolvendo pagamentos autorizados, medida que permitiu recuperar 88% dos valores perdidos no primeiro ano de vigência, embora tenha provocado a migração dos criminosos para outros tipos de fraude.A Austrália estabeleceu um marco regulatório que prevê multas de até 52 milhões de dólares australianos para empresas de telecomunicações e plataformas digitais que deixarem de adotar medidas de prevenção.Já os Estados Unidos registraram perdas de US$ 12,5 bilhões em 2024 com fraudes, cenário atribuído pelo Anuário à ausência de uma coordenação nacional entre os diferentes órgãos reguladores e forças policiais responsáveis pelo enfrentamento desse tipo de crime.