Os registros de bullying e ciberbullying contra crianças e adolescentes cresceram significativamente no Brasil em 2025. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), os casos de bullying aumentaram 68,2% em relação a 2024, totalizando 4.549 ocorrências, enquanto os registros de ciberbullying subiram 61,4%, chegando a 677 casos. O levantamento também aponta aumento nos registros de maus-tratos, violência doméstica e crimes relacionados ao abuso sexual infantil na internet.O bullying é caracterizado por agressões físicas, verbais ou psicológicas repetidas, praticadas com a intenção de intimidar, humilhar ou constranger outra pessoa, geralmente no ambiente escolar. Já o ciberbullying ocorre por meios digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas online. O Anuário atribui parte do aumento dos registros à consolidação da Lei nº 14.811/2024, que passou a tipificar criminalmente as duas condutas.Entre as vítimas de bullying, 48% tinham entre 10 e 13 anos, enquanto 45% estavam na faixa de 14 a 17 anos. No ciberbullying, os adolescentes aparecem com maior frequência: 57% das vítimas tinham entre 14 e 17 anos, e 42% entre 10 e 13 anos.O ambiente doméstico concentrou parte do aumento da violência contra crianças e adolescentes. Em 2025, o Brasil registrou 38.986 ocorrências de maus-tratos, alta de 14,6% em relação ao ano anterior. Na comparação com 2021, o crescimento chega a 106,1%.As crianças menores foram as principais vítimas. Segundo o Anuário, 59,1% dos casos envolveram crianças de até 9 anos. O crescimento foi registrado em todas as faixas etárias:16,3% entre crianças de 0 a 4 anos;14,9% entre 5 e 9 anos;10,9% entre 10 e 13 anos;17,2% entre adolescentes de 14 a 17 anos.O levantamento também aponta aumento de outros indicadores de violência no ambiente familiar. Os casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes cresceram 5,5%, totalizando 21.811 registros. Já as ocorrências de abandono de incapaz aumentaram 18,5%, chegando a 14.815 casos, enquanto os registros de subtração de crianças e adolescentes tiveram alta de 33,7%, com 1.866 ocorrências.Crimes de abuso sexual infantil na internetOutro indicador que apresentou crescimento foi o de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil. Em 2025, foram registrados 4.063 casos, aumento de 25,3% em relação a 2024 e de 176,7% na comparação com 2021.Os dados analisados pelo Fórum mostram que 84,2% das vítimas eram do sexo feminino e 15,8% do sexo masculino. Em relação à raça ou cor, 51,2% eram brancas e 48,2% negras.A maior concentração de vítimas ocorreu entre adolescentes: 30% tinham entre 14 e 15 anos, enquanto 26,8% estavam na faixa de 12 a 13 anos.O perfil dos autores também chama atenção. Nos casos em que houve identificação, 86,5% dos responsáveis eram homens, e 34,2% dos autores eram adolescentes.Estupros recuamNa contramão dos demais indicadores, o número de registros de estupro e estupro de vulnerável contra crianças e adolescentes apresentou redução de 5,5% em relação a 2024. Ao todo, foram contabilizadas 61.076 vítimas em 2025.Apesar da queda, crianças e adolescentes continuam sendo a maior parte das vítimas desse tipo de crime. Segundo o Anuário, 76,6% de todos os estupros registrados no Brasil tiveram como vítimas pessoas de até 17 anos. Dentro desse grupo, os casos de estupro de vulnerável, que envolvem vítimas com menos de 14 anos, representam 42,5% das ocorrências.Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o aumento dos registros de crimes não letais pode refletir tanto o fortalecimento dos mecanismos de denúncia e da capacidade de identificação das violências por parte das instituições públicas quanto a permanência de práticas de agressão e negligência nas relações familiares e de cuidado.“A visibilidade da violência cresce justamente porque ela continua presente, mas também porque se fortalece a intolerância social diante de violações historicamente banalizadas”Anuário Brasileiro de Segurança Pública