A nova escalada das tensões no Oriente Médio voltou a impulsionar o preço do petróleo e pode levar a uma reação em cadeia no setor sucroenergético brasileiro. Se a alta do barril do Brent chegar às bombas por meio de reajustes da gasolina, o etanol tende a ganhar competitividade, levando as usinas a mudar o mix de produção e reduzindo a oferta de açúcar.Na avaliação de Vitor Novaes, analista de commodities do BTG Pactual, esse é o principal canal pelo qual o conflito no Estreito de Ormuz pode impactar o agronegócio brasileiro.“O principal vetor aqui é a gasolina. A principal pergunta é quando esse petróleo mais caro será efetivamente repassado para o mercado doméstico”, afirmou durante participação no Radar das Commodities.Segundo o analista, o cenário ainda é cercado de incertezas. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quarto do petróleo mundial, continua sendo um dos principais focos de preocupação do mercado, e ainda não há clareza sobre a evolução das tensões na região.Etanol pode ganhar forçaNa visão do BTG, uma eventual alta da gasolina aumentaria a competitividade do etanol, favorecendo a demanda pelo biocombustível.Esse movimento ainda seria reforçado pela entrada em vigor do E32, que amplia a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina e cria uma demanda estrutural adicional pelo combustível renovável.Caso esse cenário se confirme, Novaes acredita que as usinas deverão direcionar uma fatia maior da cana para a produção de etanol.“Quando houver esse repasse da gasolina, as usinas devem migrar o mix para ficar mais etanoleiras”, afirmou.Hoje, porém, o mercado ainda vive um momento diferente. O pico da moagem no Centro-Sul mantém uma oferta elevada de etanol, pressionando os preços da commodity no curto prazo.Menor oferta de açúcar pode sustentar preçosUma migração do mix para o etanol também teria reflexos sobre o mercado global de açúcar.Como o Brasil responde por aproximadamente um quarto da produção mundial da commodity, uma redução da fabricação nacional diminuiria a oferta disponível e poderia impulsionar tanto os preços domésticos quanto as cotações internacionais.Para o analista, a principal variável a ser acompanhada nos próximos meses será justamente a decisão das usinas sobre qual produto oferecerá maior rentabilidade.Quais ações podem ganhar?Entre as empresas listadas na Bolsa, o BTG vê oportunidades tanto entre as petroleiras quanto nas sucroenergéticas.Companhias mais expostas ao preço internacional do petróleo, como Prio (PRIO3), Petrobras (PETR4) e Brava Energia (BRAV3) tendem a capturar diretamente a valorização do Brent, embora, no caso da estatal, a política de preços dos combustíveis siga sendo um fator importante para acompanhar.Já entre as empresas do setor sucroenergético, a preferência do banco é a São Martinho (SMTO3).Segundo Novaes, a companhia possui maior flexibilidade operacional para alterar seu mix de produção entre açúcar e etanol, o que pode permitir capturar melhor um eventual aumento da rentabilidade do biocombustível.Além do petróleo, o analista recomenda acompanhar outro fator capaz de mexer com o mercado de açúcar: as monções na Índia. Como o país também é um dos maiores produtores globais da commodity, qualquer impacto sobre sua safra pode reduzir a oferta mundial e ampliar a volatilidade dos preços no segundo semestre.