No início deste ano, visitei um parque eólico próximo a Flecheiras, no litoral do Ceará.A primeira impressão não foi técnica. Foi estética.As turbinas surgiam aos poucos no horizonte, enormes, girando com uma elegância quase hipnótica. De perto, impressionam pelo tamanho. Lembrei da primeira vez que vi uma daquelas de perto, quando visitei as Ilhas Falklands.Para quem trabalha com clima, é difícil não sentir uma certa esperança diante daquela paisagem. Trata-se de uma das imagens mais emblemáticas da transição energética: produzir eletricidade a partir de uma fonte inesgotável e sem emissões de carbono.Quem dera fosse simples assim. Aquele retrato do futuro constantemente esbarra em um problema invisível.É que o vento pode soprar. As turbinas podem girar. A energia pode ser produzida. E, ainda assim, ela pode não chegar ao destino.Parece um contrassenso, mas é um dos grandes desafios da transição energética no Brasil. Em diversos momentos, parte da energia gerada por parques eólicos e usinas solares deixa de ser aproveitada porque a rede elétrica não consegue absorver ou transportar toda essa produção.Durante anos, concentramos nossa atenção em como gerar energia limpa. Celebramos o crescimento da energia solar, da energia eólica, dos carros elétricos e das baterias. Tudo isso continua sendo fundamental.Mas existe uma infraestrutura muito menos fotogênica – e talvez muito mais importante – que raramente aparece nas propagandas ou nos discursos sobre sustentabilidade.Ela está nas linhas de transmissão que atravessam o país, nas subestações, nos transformadores e nas redes de distribuição que levam a eletricidade até nossas casas, hospitais, indústrias e escolas.Sem essa infraestrutura, a transição energética corre o risco de morrer justamente para onde quase ninguém olha: na rede.É curioso perceber como tratamos a eletricidade. Admiramos quem a produz, mas quase nunca pensamos em como ela viaja. Seria como celebrar uma excelente safra agrícola sem construir estradas para levar os alimentos até as cidades.No Brasil, esse desafio é particularmente relevante. Boa parte da energia eólica é produzida no Nordeste, onde os ventos são abundantes. Mas a maior demanda por eletricidade continua concentrada em outras regiões do país. Conectar essas duas pontas exige milhares de quilômetros de novas linhas de transmissão, planejamento de longo prazo, investimentos robustos e diálogo com as comunidades afetadas por essas obras.E o desafio tende a crescer.Além das casas e das indústrias, a eletricidade será cada vez mais consumida por veículos elétricos, processos industriais descarbonizados e pelos gigantescos data centers que sustentam a inteligência artificial. Nunca precisaremos de tanta eletricidade. E nunca precisaremos que ela circule com tanta eficiência.Sabemos, hoje, que a verdadeira transição energética não termina quando o vento move uma turbina. Ela só acontece quando essa energia percorre centenas de quilômetros, atravessa cidades e finalmente acende a luz na casa de alguém.Energia limpa que não chega ao destino é apenas potencial. E uma transição energética que fica presa na rede corre o risco de nunca sair do papel.