LinkedIn: as carreiras fazem-se ou contam-se?

Wait 5 sec.

Nesse lugar, as fotografias revelam auditórios cheios, troféus discretamente enquadrados, sorrisos confiantes e apertos de mão cuidadosamente registados. Os textos seguem quase sempre a mesma cadência: uma história pessoal, uma lição aprendida, um agradecimento sentido e uma conclusão inspiradora. Tudo parece autêntico. E, ao mesmo tempo, estranhamente coreografado. Na verdade, o LinkedIn nasceu para aproximar profissionais, facilitar recrutamentos, criar oportunidades de carreira e vinte e três anos depois continua a cumprir essa função. Mas, à medida que se tornou a principal montra da identidade profissional contemporânea, transformou-se também num espaço onde o trabalho é exercido, mas sobretudo encenado.A pergunta impõe-se, por isso, com galopante pertinência: estaremos perante uma rede profissional ou perante um palco onde a competência e a visibilidade rivalizam pelo mesmo protagonismo?O que nos diz a ciênciaMuito antes de existirem algoritmos, likes ou influenciadores corporativos, o sociólogo canadiano Erving Goffman defendia que a vida social se assemelhava a uma representação tal e qual o teatro. No seu ensaio clássico The Presentation of Self in Everyday Life, publicado em 1956, argumentava que todos desempenhamos papéis distintos consoante o contexto e o público que nos observa. Há um ‘palco’ onde construímos deliberadamente a imagem que queremos projetar e um ‘bastidor’ onde essa representação desaparece. A identidade, sugeria Goffman, nunca é totalmente espontânea e é, em grande medida, uma miríade de performances cuidadosamente ajustadas às expectativas dos outros.Setenta anos depois, a sua teoria parece encontrar no LinkedIn um dos seus exemplos mais acabados. Um estudo apresentado este ano na Academy of Marketing Theory Proceedings analisou 250 publicações de profissionais de diferentes setores precisamente à luz da teoria da apresentação do eu de Goffman. A conclusão é elucidativa: o personal branding no LinkedIn funciona como uma estratégia de ‘front stage’, isto é, uma construção deliberada da identidade profissional, onde linguagem, imagens, temas e até a forma de procurar interação são criteriosamente escolhidos para projetar competência, credibilidade e relevância. A identidade digital extravasa, por isso, a função de registar uma carreira. Passa a constituir um recurso estratégico, com impacto direto na reputação, nas oportunidades e até no valor que o mercado atribui a cada profissional.Qual o significado?Nada disto significa, naturalmente, que os utilizadores mintam. A maior parte das histórias publicadas corresponde a acontecimentos reais. As promoções aconteceram. Os prémios foram atribuídos. As conferências existiram. O que muda é a seleção. Tal como um fotógrafo escolhe cuidadosamente o enquadramento antes de carregar no obturador, também cada utilizador decide o que mostrar, o que omitir e o que merece permanecer fora da narrativa pública.Essa curadoria cristalizada produz um efeito subtil, mas poderoso. Ao percorrer o feed, o observador raramente se cruza com carreiras banais; encontra, isso sim, uma catadupa quase ininterrupta de êxitos profissionais. O fracasso raramente aparece sem ser acompanhado de uma lição inspiradora. A dúvida surge apenas quando já foi ultrapassada. A vulnerabilidade existe, mas frequentemente enquadrada como demonstração de coragem. Até a imperfeição parece cuidadosamente editada.Não é difícil compreender porquê. O próprio funcionamento da plataforma recompensa aquilo que capta atenção. Histórias pessoais, anúncios de mudanças profissionais, fotografias de eventos, testemunhos emotivos ou reflexões sobre liderança tendem a gerar mais interação do que descrições da rotina diária. Numa economia digital em que a visibilidade pode traduzir-se em convites para conferências, contatos de recrutadores, novos clientes ou oportunidades de negócio, saber captar atenção tornou-se uma competência profissional por direito próprio.Contar, fotografar, comentarÉ precisamente aqui que reside uma das maiores transformações do mercado de trabalho contemporâneo. Durante décadas, bastava construir uma reputação dentro da organização. Hoje, espera-se cada vez mais que essa reputação seja igualmente construída perante uma audiência de estranhos, dispersa e omnipresente. Já não basta fazer um bom trabalho e é preciso que esse trabalho possa ser contado, fotografado, comentado e reconhecido.O LinkedIn, assim, acaba por produzir uma sensação curiosa nos utilizadores. Como acontece no teatro, o espectador sabe que está perante uma representação. Ainda assim, durante alguns instantes, aceita acreditar que aquela é a realidade. E talvez seja precisamente essa a maior força da plataforma: não fabricar carreiras fictícias, mas transformar a vida profissional numa narrativa onde o quotidiano desaparece e apenas os momentos dignos de aplauso permanecem sob os holofotes.Os ‘likes’ também são capitalO sucesso profissional sempre dependeu, em parte, da forma como os outros nos percecionam. A diferença é que essa perceção deixou de acontecer apenas dentro das empresas e hoje mede-se publicamente, através de indicadores visíveis e constantemente atualizados. Um aumento seguidores, centenas de reações ou milhares de visualizações podem não significar competência, mas influenciam a forma como ela é interpretada.Na literatura científica, este fenómeno é frequentemente enquadrado no conceito de ‘economia da atenção’, segundo o qual a visibilidade se tornou um recurso escasso e, por isso, valioso. Num ecossistema digital onde ser visto pode significar ser escolhido, cada publicação contribui para moldar a perceção pública de uma carreira.A investigação parece confirmar essa tendência. Um estudo publicado na European Management Journal concluiu que estratégias de autopromoção nas redes sociais estão associadas a um maior número de oportunidades profissionais e a níveis superiores de satisfação com a carreira. Já uma investigação da Journal of Vocational Behavior, centrada especificamente no LinkedIn, concluiu que a utilização ativa da plataforma – mais do que o número de contatos acumulados – está relacionada com benefícios concretos de carreira, como o acesso a novas oportunidades e o reforço das redes profissionais.O incentivo existe. E é real.A comparação invisívelExiste, porém, uma consequência menos evidente. Ao contrário do Instagram, onde a comparação costuma centrar-se no corpo, nas viagens ou no estilo de vida, o LinkedIn coloca frente a frente carreiras profissionais. O foco da comparação desloca-se dos bens materiais para a identidade profissional ou, mais rigorosamente, para a identidade que cada um escolhe exibir.A psicologia conhece bem este mecanismo. A teoria da comparação social, proposta por Leon Festinger ainda na década de 1950, demonstra que avaliamos constantemente o nosso desempenho através dos outros. Nas redes profissionais, essa tendência pode tornar-se particularmente intensa porque quase tudo o que vemos corresponde ao momento mais favorável da trajetória de cada utilizador.Promoções. Mudanças de cargo. Prémios. Conferências internacionais. Certificações. Distinções. Poucos anunciam os currículos ignorados, as entrevistas falhadas ou os meses sem respostas. O resultado é uma espécie de ilusão estatística: aquilo que é excecional começa lentamente a parecer normal.A arte de parecer humildeExiste até uma palavra para descrever um dos comportamentos mais frequentes no LinkedIn: humblebrag. O conceito combina humildade (humble) e vanglória (brag) e descreve uma estratégia curiosa de comunicação: anunciar uma conquista enquanto se simula modéstia.«Não esperava mesmo isto.»; «Continuo sem palavras.»; «Sinto-me profundamente humilde por receber este prémio.» À primeira vista, parece um exercício de gratidão. Na prática, vários estudos sugerem que se trata de uma forma sofisticada de autopromoção, desenhada para reduzir o risco de parecer arrogante.O problema é que nem sempre funciona. Investigação publicada na área da psicologia organizacional demonstra que o público tende a identificar este tipo de discurso com relativa facilidade. Quando a intenção promocional se torna demasiado evidente, a autenticidade sofre um desgaste imediato. Em vez de gerar admiração, pode produzir desconfiança.Quando nasceu o ‘LinkedIn cringe’É aqui que nasce um fenómeno inesperado. Nos últimos anos, multiplicaram-se comunidades online dedicadas exclusivamente a satirizar publicações do LinkedIn. A expressão LinkedIn cringe tornou-se suficientemente popular para originar fóruns, páginas especializadas e milhões de visualizações em plataformas como o Reddit ou o Instagram.O alvo raramente são as conquistas profissionais em si. O que provoca desconforto é outra coisa: histórias excessivamente dramatizadas, lições de liderança retiradas de episódios banais, fotografias cuidadosamente encenadas e textos onde qualquer acontecimento quotidiano acaba inevitavelmente transformado numa metáfora sobre resiliência, sucesso ou empreendedorismo.A sátira tornou-se, de certa forma, um mecanismo de autorregulação da própria comunidade. Ao ridicularizar os excessos, muitos utilizadores procuram recuperar aquilo que consideram ter-se perdido: espontaneidade.Paradoxalmente, essa crítica não parece estar a reduzir a teatralização da plataforma. Pelo contrário. À medida que a concorrência pela atenção aumenta, cresce também a tentação de produzir conteúdos cada vez mais emocionais, mais pessoais e mais performativos.O palco não vai fecharSeria fácil concluir que tudo isto faz do LinkedIn uma rede de aparências. Mas essa leitura seria demasiado simples.A maioria das promoções anunciadas aconteceu realmente. Os prémios existem. As conferências tiveram lugar. As mudanças de emprego são verdadeiras. Não é a realidade que muda, mas a perspetiva a partir da qual a observamos. O extraordinário ocupa o primeiro plano; o quotidiano dissolve-se no fundo da imagem.Tal como um palco ilumina apenas os atores enquanto deixa o resto do cenário na penumbra, também o LinkedIn concentra a atenção nos momentos extraordinários de cada percurso profissional. O problema nunca foi a existência dessas histórias, mas a ausência de todas as outras. Porque uma carreira constrói-se muito mais nos dias que ninguém publica do que naqueles que acabam no feed.O conteúdo LinkedIn: as carreiras fazem-se ou contam-se? aparece primeiro em Revista Líder.