A maioria das empresas já reconhece que a IA vai transformar o futuro do trabalho. No entanto, entre antecipar a mudança e conseguir executá-la permanece uma distância significativa.Segundo o The Future of Work Survey 2026, da JLL, 78% dos líderes empresariais e responsáveis por imobiliário corporativo consideram que a IA terá um impacto significativo nas estratégias imobiliárias e nos espaços de trabalho durante os próximos três a cinco anos. Porém, apenas 15% das organizações já ultrapassaram as fases de exploração e implementação inicial, utilizando a tecnologia para otimizar ativamente as suas operações.O estudo reuniu as respostas de mais de 2.200 executivos de topo e responsáveis por imobiliário corporativo de 21 países, entre janeiro e abril de 2026. IA deverá redesenhar funções, mas não eliminar o crescimentoApesar das preocupações relacionadas com a automatização, o estudo não aponta para uma contração generalizada da força de trabalho. Cerca de 60% dos líderes antecipam uma expansão do número de trabalhadores nos próximos três a cinco anos.A mesma percentagem considera mais provável que as funções humanas sejam redesenhadas pela IA do que simplesmente eliminadas pela automatização. Para estas organizações, a tecnologia poderá libertar os profissionais de tarefas de menor valor e aumentar a acessibilidade a competências especializadas.A avaliação do desempenho também deverá mudar. Cerca de 62% dos inquiridos esperam que a qualidade dos resultados assuma maior importância do que o número de horas trabalhadas. Ao mesmo tempo, 58% continuam a privilegiar trabalhadores a tempo inteiro, em vez de modelos de emprego mais flexíveis.Ainda assim, não existe uma orientação clara sobre o equilíbrio entre trabalho híbrido e colaboração presencial. As respostas dividem-se igualmente entre estas duas possibilidades, refletindo a diversidade de modelos que deverá marcar o futuro do trabalho. Empresas reconhecem o impacto da IA, mas hesitam na execuçãoA maioria das organizações continua numa fase de observação. Cerca de 46% monitorizam ativamente as tendências relacionadas com a IA e 40% analisam as implicações que a tecnologia poderá ter nos espaços e ativos imobiliários.Quando é necessário transformar a análise em decisões concretas, a percentagem diminui: apenas 33% estão a modelar os potenciais efeitos da IA nos seus portefólios, considerando diferentes localizações e tipos de ativos.Esta diferença resulta, em parte, da dificuldade em planear espaços físicos para uma força de trabalho que ainda está a ser redesenhada. As empresas continuam sem respostas definitivas sobre as funções que serão automatizadas, os locais onde o talento se irá concentrar ou a forma como os padrões de colaboração vão evoluir.Em vez de esperarem por certezas, as organizações mais avançadas estão a desenvolver modelos de planeamento flexíveis, capazes de acompanhar os ciclos rápidos da tecnologia sem comprometer decisões imobiliárias de longo prazo. Falta de competências ultrapassa limitações orçamentaisPela primeira vez em 15 anos de realização deste estudo, a falta de competências ultrapassou as restrições orçamentais como principal obstáculo à transformação dos espaços de trabalho.As lacunas de conhecimento em IA, análise de dados e tecnologias emergentes são apontadas por 36% dos inquiridos como a maior limitação à criação de valor. A complexidade regulatória e de conformidade e as restrições orçamentais surgem em segundo lugar, ambas com 30%.Seguem-se a instabilidade geopolítica e os riscos nas cadeias de abastecimento, com 27%, e a falta de especialistas em gestão da mudança, referida por 26%. O problema não está, portanto, apenas na capacidade financeira. Mesmo quando existe orçamento, as organizações podem não dispor dos especialistas necessários para escolher tecnologias, medir resultados, preparar os trabalhadores ou coordenar diferentes áreas do negócio.As dificuldades são agravadas pela existência de silos organizacionais, pela falta de métricas adequadas e pela reduzida colaboração entre imobiliário corporativo, Recursos Humanos, tecnologia, Finanças e Operações. Empresas querem escritórios tecnológicos, mas também mais humanosApesar da pressão sobre os custos, as empresas demonstram uma preferência clara por espaços de trabalho mais tecnológicos, flexíveis e orientados para a experiência dos profissionais.Quando confrontados com diferentes opções de investimento, 67% dos líderes privilegiam a transformação de longo prazo em vez da redução imediata de custos. A mesma percentagem favorece um posicionamento estratégico duradouro relativamente à flexibilidade dos contratos de curta duração.Cerca de 66% preferem edifícios otimizados por IA, enquanto 62% atribuem maior importância à qualidade dos edifícios e às suas comodidades do que à localização em zonas consideradas privilegiadas.No interior dos locais de trabalho, 63% querem dar prioridade aos espaços coletivos, em detrimento das secretárias individuais. Mais de metade prefere também experiências personalizadas e abordagens experimentais, em vez de soluções completamente uniformizadas.No entanto, o estudo alerta para um possível desequilíbrio. As empresas estão a investir em tecnologia avançada, infraestruturas digitais e ferramentas de IA, mas podem deixar para segundo plano elementos físicos essenciais ao desempenho cognitivo.Luz natural, acústica, conforto térmico, movimento e espaços de concentração continuam a influenciar a forma como as pessoas pensam, colaboram e trabalham. Por isso, tecnologia, bem-estar e qualidade dos espaços não devem ser encarados como prioridades concorrentes. O paradoxo tecnológico dos novos locais de trabalhoA tecnologia é simultaneamente uma oportunidade e uma fonte de vulnerabilidade. Três dos quatro principais riscos identificados pelos líderes estão diretamente relacionados com esta área.A cibersegurança e a privacidade dos dados preocupam 47% dos inquiridos, seguindo-se a disrupção tecnológica e provocada pela IA, com 41%, e a incerteza sobre o impacto da tecnologia nas necessidades de espaço, com 40%.As empresas enfrentam, assim, um paradoxo: precisam de investir nas tecnologias que prometem aumentar a produtividade, mas essas mesmas soluções criam novos riscos e exigem investimentos adicionais em segurança, infraestruturas e governação.A esta pressão juntam-se o aumento dos custos da energia, manutenção, operação e gestão de instalações. As organizações querem portefólios imobiliários tecnologicamente avançados e capazes de atrair talento, mas nem todas conseguem suportar simultaneamente os custos de funcionamento e a nova camada de investimento tecnológico. O que distingue os 15% que já estão mais avançados?As organizações que já se encontram na fase de otimização da IA não possuem necessariamente mais certezas sobre o futuro. A diferença está na capacidade para tomar decisões e adaptar-se perante a incerteza.Segundo a JLL, estas empresas partilham quatro características:Encaram a IA como uma ferramenta de crescimento e reforço das capacidades humanas, não apenas como um meio de reduzir trabalhadores;Integram os riscos económicos, tecnológicos, energéticos e de segurança na estratégia;Privilegiam decisões e investimentos de longo prazo;Promovem uma colaboração mais próxima entre diferentes áreas da organização.Estas empresas investem também em competências internas, parcerias especializadas, métricas de acompanhamento e portefólios imobiliários flexíveis. Em vez de apostarem num único cenário para o futuro do trabalho, procuram preparar-se para vários modelos possíveis. O futuro do trabalho exige capacidade de adaptaçãoO estudo demonstra que reconhecer o potencial da IA já não é suficiente. A vantagem competitiva deverá pertencer às organizações que consigam transformar expectativas em decisões, desenvolver competências e adaptar os espaços de trabalho à medida que a tecnologia evolui.O futuro permanece incerto, mas essa incerteza não impede a preparação. As empresas mais avançadas não estão à espera de uma previsão perfeita: estão a construir estruturas flexíveis, a acompanhar indicadores e a criar condições para mudar de direção rapidamente.Mais do que saber exatamente como será o trabalho daqui a cinco anos, o desafio passa por garantir que a organização terá capacidade para responder quando esse futuro começar a ganhar forma.O conteúdo A IA vai criar mais emprego? 60% dos líderes preveem equipas maiores nos próximos cinco anos aparece primeiro em Revista Líder.