Com as férias de julho, muitas famílias enfrentam um desafio conhecido: o que fazer com as crianças em casa o dia inteiro enquanto a rotina dos adultos segue normal? Entre várias tentativas de preencher cada minuto livre, especialistas em educação apontam um caminho menos óbvio — e contraintuitivo: o tédio.Deixar espaço para o tédio pode ser justamente o que falta para estimular criatividade, autonomia e concentração durante o período. O problema é que as férias escolares costumam aumentar o tempo que crianças e adolescentes passam diante de telas. Leia Mais Não colocou regras para seus filhos com as telas? Agora pode ser tarde Uso do celular à noite prejudica sono e estudos de adolescentes, diz estudo Celular sem internet melhora a felicidade e o foco, mostra estudo Levantamento da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, realizado em 2025, mostrou que 78% das crianças de até 3 anos são expostas diariamente a telas. Entre as de 4 a 6 anos, o percentual sobe para 94%.A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças de até 2 anos não tenham contato com telas. Dos 2 aos 5 anos, o limite sugerido é de até uma hora diária, e dos 6 aos 10 anos, entre uma e duas horas por dia. Na prática, porém, esse controle se torna difícil em um ambiente digital desenhado para reter o usuário o máximo possível.“Os jovens raramente têm tempo para simplesmente existir sem entretenimento imediato. Mas é justamente nas pausas que surgem a curiosidade, a criatividade e conexões mais profundas com o mundo”, afirma Anne Baldisseri, diretora da Escola Avenues São Paulo, em um comunicado de imprensa.Como o uso excessivo de telas afeta o desempenho cognitivo?Exposição constante a telas e estímulos digitais pode afetar atenção, memória e outras funções cognitivas em crianças e adolescentes • FreepikPesquisa conduzida por Jason Nagata, professor da University of California, San Francisco, e publicada no JAMA em outubro de 2025, acompanhou 6.554 adolescentes dos 9 aos 13 anos e identificou desempenho cognitivo mais baixo em leitura, vocabulário e memória entre os que tiveram uso alto e crescente de redes sociais.Esse padrão é frequentemente associado à exposição a conteúdos de recompensa rápida, que reduziria o espaço para processos mais profundos de reflexão. O estudo indica que não é só o uso intenso: qualquer aumento no tempo de redes sociais pode impactar habilidades como memória e leitura.Nesse contexto, a diretora do Ensino Fundamental I da Avenues São Paulo, Daniela Pannuti, afirma que o tédio — embora desconfortável no início, especialmente para uma geração habituada à velocidade das telas — pode ter um papel importante. “É esse desconforto que abre espaço para a invenção e o brincar livre”, diz.Educadores ponderam que o debate não busca demonizar tecnologia ou redes sociais, mas sim discutir equilíbrio. Ferramentas digitais podem contribuir para aprendizado e socialização, mas o contato constante com estímulos rápidos dificulta a concentração profunda.Como aproveitar as férias sem preencher toda a agenda das crianças?Tempo livre em espaços abertos e em grupo contribui para o desenvolvimento emocional e social das crianças durante as férias • Vetor.Pch/MagnificDurante as férias de julho, muitas famílias sentem pressão para preencher a agenda das crianças com atividades, viagens e cursos. Segundo Pannuti, esse excesso de programação pode gerar um efeito contrário ao descanso, dificultando a recuperação da energia mental e aumentando o estresse.Para a educadora, nem todo momento da vida precisa ser produtivo ou planejado. Períodos de ócio permitem que a criança organize pensamentos, desenvolva ideias próprias e fortaleça a independência, sem depender de estímulos externos contínuos.Dessa forma, atividades simples — como brincar sem roteiro, ler, cozinhar, desenhar, caminhar ou conversar com familiares e amigos — ganham relevância. Especialistas também sugerem alternar esses momentos com experiências ao ar livre, que estimulam a curiosidade e o contato com o ambiente.Uma boa alternativa para equilibrar estímulos e tempo ocioso pode ser uma programação de férias focada em natureza, com projetos criativos e brincadeiras livres. Ainda assim, a principal recomendação é evitar a necessidade de ocupar todo o tempo: abrir espaço para o “não fazer nada” também faz parte do desenvolvimento.Brincar no fim das férias prepara cérebro para as aulas; veja dicas