Essa normalização, porém, constitui talvez o primeiro grande equívoco do nosso tempo. Os fenómenos extremos que se multiplicam não representam uma sucessão de acontecimentos isolados, nem podem ser compreendidos como meros caprichos atmosféricos ou coincidências estatísticas. Pelo contrário, correspondem à manifestação visível de um sistema climático progressivamente mais quente, mais energético e, por isso mesmo, mais propenso à instabilidade. Cada décima de grau adicional armazenada nos oceanos significa mais vapor de água disponível na atmosfera, maior capacidade para alimentar tempestades severas, precipitações intensas, ondas de calor prolongadas ou secas persistentes. A física continua a obedecer às mesmas leis. O que mudou foi a quantidade de energia que lhe estamos a acrescentar.É neste contexto que ganha particular relevância o regresso do El Niño, oficialmente confirmado pelo Climate Prediction Center da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). No boletim publicado a 9 de julho, a agência mantém o estatuto de ‘El Niño Advisory’ e refere que o fenómeno continuará a intensificar-se durante os próximos meses e atribui-lhe uma probabilidade de 97% de persistir até ao início da primavera de 2027, numa evolução que poderá colocá-lo entre os episódios mais intensos desde que existem observações instrumentais.A discussão pública tende frequentemente a apresentar o El Niño como se fosse a origem de todos os males meteorológicos, mas essa leitura simplifica em excesso uma realidade bastante mais complexa. O fenómeno não cria o aquecimento global, nem explica, por si só, a sucessão de recordes térmicos observados nas últimas décadas. O que faz é redistribuir enormes quantidades de calor já existentes no sistema terrestre, alterando a circulação atmosférica e oceânica à escala planetária. Quando coincide com um planeta que acumula sucessivamente os anos mais quentes desde que há registos, consequência direta do aumento das concentrações de gases com efeito de estufa provocado pela atividade humana, os seus efeitos deixam de atuar sobre um clima ‘normal’ e passam a amplificar um sistema que já se encontra profundamente desequilibrado.É precisamente essa conjugação que preocupa a comunidade científica. As previsões experimentais desenvolvidas pelo Geophysical Fluid Dynamics Laboratory, também integrado na NOAA, sugerem que todos os cenários atualmente simulados convergem para um episódio de intensidade muito elevada durante o outono e o início do inverno do hemisfério norte, circunstância que poderá aumentar significativamente a probabilidade de novos recordes globais de temperatura, bem como de fenómenos meteorológicos extremos em diversas regiões do planeta. Embora os cientistas sublinhem sempre que um modelo climático não constitui uma certeza absoluta, o consenso quanto à trajetória geral deste episódio é hoje invulgarmente robusto.Importa, contudo, evitar uma conclusão precipitada. Nem todas as ondas de calor, tempestades ou episódios de granizo podem ser atribuídos diretamente ao El Niño. A atmosfera permanece um sistema extraordinariamente complexo, onde interagem correntes oceânicas, padrões de circulação regional, massas de ar, humidade, relevo e inúmeros outros fatores. O que a ciência afirma, com um grau de confiança crescente, é algo simultaneamente mais prudente e mais inquietante: um planeta mais quente aumenta a probabilidade, a intensidade e, em muitos casos, a duração dos fenómenos extremos. O El Niño funciona, neste contexto, menos como uma causa isolada e mais como um acelerador de tendências que já se encontravam em curso.Dessa forma, estamos perante a sobreposição de dois mecanismos distintos que se reforçam mutuamente: por um lado, o aquecimento global antropogénico, que continua a elevar lentamente a temperatura média da Terra; por outro, um fenómeno natural de grande escala que redistribui calor pelos oceanos e pela atmosfera, potenciando ainda mais essa tendência. A diferença pode parecer subtil, mas é decisiva. Durante décadas, a variabilidade natural explicava muitas das oscilações anuais do clima. Hoje, essa variabilidade continua a existir, mas desenvolve-se sobre uma base térmica cada vez mais elevada. É como lançar os mesmos dados sobre um tabuleiro cujas regras mudaram sem aviso.A consequência dessa alteração mede-se na frequência com que as cidades deixam de arrefecer durante a noite, na duração das secas agrícolas, na violência das enxurradas repentinas, na dimensão do granizo que destrói colheitas ou no número crescente de dias em que o calor deixa de constituir apenas um incómodo sazonal para passar a representar um risco efetivo para a saúde pública, para a economia e para a estabilidade de infraestruturas concebidas para um clima que, em muitos aspetos, já deixou de existir.O verão ainda agora começou. Mas o planeta já está a viver o próximo capítulo da crise climática Se a ciência parece hoje mais consensual do que em qualquer outro momento da história recente, porque razão o debate público se tornou, paradoxalmente, mais fragmentado? Como se explica que, precisamente quando os modelos climáticos acertam com uma precisão crescente nas tendências globais, quando as séries históricas acumulam recordes sucessivos de temperatura e quando organismos internacionais convergem num diagnóstico raramente observado noutras áreas do conhecimento, continue a aumentar o número de cidadãos que relativiza, desvaloriza ou rejeita a existência de uma crise climática? A resposta dificilmente se encontra na climatologia. É na psicologia, na sociologia, na ciência política e na economia comportamental que se começa a compreender um dos fenómenos mais desconcertantes do nosso tempo.Durante muitos anos, assumiu-se que o negacionismo climático resultava sobretudo de falta de informação. A premissa parecia simples: quanto maior fosse o conhecimento científico disponível, maior seria a aceitação pública das conclusões. A realidade revelou-se substancialmente mais complexa. Um conjunto crescente de investigações demonstra que a relação entre conhecimento e aceitação da ciência não é linear e que os indivíduos não constroem as suas convicções exclusivamente a partir da evidência empírica. Pelo contrário, interpretam-na através de filtros identitários, culturais, ideológicos e emocionais, frequentemente mais influentes do que os próprios factos. Estudos publicados na revista Nature Climate Change e no Yale Program on Climate Change Communication mostram que a confiança nas instituições, a identidade política, a pertença a determinados grupos sociais e a perceção de justiça influenciam profundamente a forma como cada pessoa interpreta a informação científica. A discussão deixa, assim, de ser apenas sobre dióxido de carbono, temperatura ou circulação atmosférica e transforma-se numa disputa em torno da confiança.É precisamente a confiança que parece estar a sofrer uma erosão. Em muitas democracias ocidentais, uma parte significativa da população já não questiona necessariamente os dados científicos; questiona, isso sim, a forma como esses dados são convertidos em políticas públicas. Esta distinção, frequentemente ignorada no debate mediático, é fundamental. Não é a física da atmosfera que suscita desconfiança, mas antes a perceção de que os custos da transição ecológica recaem de forma desproporcionada sobre cidadãos e pequenas empresas, enquanto os maiores emissores continuam a beneficiar de margens de exceção ou de compromissos considerados insuficientes.É aqui que emerge um conceito cada vez mais recorrente na literatura científica: justiça climática. A expressão refere-se à perceção de equidade na distribuição dos encargos da transição. Diversos estudos mostram que o apoio às políticas ambientais diminui significativamente quando os cidadãos consideram que lhes são exigidos sacrifícios individuais sem que exista reciprocidade por parte dos Estados, das grandes economias ou das indústrias mais poluentes. A aceitação de medidas climáticas depende tanto da sua eficácia como da convicção de que o esforço é partilhado. Quando essa convicção desaparece, instala-se um terreno fértil para o ceticismo, para a contestação e, em alguns casos, para formas mais explícitas de negacionismo. Essa dimensão ganha particular relevância num contexto internacional marcado por conflitos armados, aumento das despesas em defesa e tensões geopolíticas, que frequentemente alimentam o debate público sobre as prioridades dos governos. Embora a literatura científica não estabeleça uma relação causal entre as guerras e o crescimento do negacionismo climático, reconhece que a confiança nas instituições e a perceção de equidade são fatores determinantes para a aceitação das políticas de mitigação e adaptação.Importa, contudo, separar cuidadosamente perceções de factos. A existência de conflitos armados não invalida o aquecimento global, nem reduz a responsabilidade das emissões provenientes dos combustíveis fósseis. Pelo contrário, vários trabalhos recentes demonstram que as guerras contemporâneas possuem uma pegada carbónica significativa, não apenas devido às operações militares propriamente ditas, mas também à reconstrução de cidades, ao consumo energético da indústria de defesa, à destruição de infraestruturas e às alterações nas cadeias globais de abastecimento. A guerra, neste contexto, não desmente a ciência climática e acrescenta-lhe uma nova camada de complexidade.A crise climática é, simultaneamente, um problema económico, geopolítico, tecnológico, social e cultural. Exige transformações profundas nos sistemas energéticos, na agricultura, na mobilidade, na indústria e até na forma como concebemos o crescimento económico. Quanto mais abrangente se torna essa transformação, maior é também a probabilidade de gerar resistência, sobretudo quando as soluções parecem exigir renúncias imediatas para benefícios que muitos continuam a percecionar como distantes ou abstratos.É neste ponto que reside um dos maiores desafios do século XXI. Convencer sociedades inteiras a alterar hábitos, modelos de consumo e prioridades económicas dependerá da capacidade das instituições em construir confiança, demonstrar coerência e distribuir de forma equilibrada os custos e os benefícios da transição. A ciência pode explicar por que motivo a atmosfera aquece, mas dificilmente conseguirá, por si só, explicar por que motivo tantos insistem em fechar os olhos perante essa realidade. Essa resposta pertence menos aos climatologistas do que aos investigadores que estudam comportamento humano, confiança institucional e perceção de justiça. Três variáveis que poderão determinar o sucesso ou o fracasso da resposta global às alterações climáticas.O conteúdo Se a evidência científica nunca foi tão sólida, porque cresce o negacionismo das alterações climáticas? aparece primeiro em Revista Líder.